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O vaga-lume faz luz com uma reação química dentro da lanterna, sem precisar aquecer nada como uma lâmpada antiga, e acender esse brilho custa ao inseto muito menos oxigênio do que bater as asas

Uma lâmpada incandescente fica quente porque a luz nasce do filamento em brasa. A lanterna do vaga-lume segue um caminho bem diferente: a luz sai direto de uma reação química. No Cerrado de Goiás, a mesma química transforma cupinzeiros inteiros em árvores de Natal nas noites de chuva.

Cupinzeiro com pontinhos verdes de larvas luminosas sob céu com raio; o vaga-lume faz luz por reação química, sem calor

Cupinzeiro com larvas luminosas acesas e um raio ao fundo, no Parque Nacional das Emas (GO). Foto: Nortondefeis, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

O vaga-lume faz luz sem se queimar porque o brilho vem de uma reação química, e não de algo aquecido até brilhar. Uma enzima chamada luciferase comanda essa reação dentro da lanterna, como explicou o químico Etelvino Bechara, da USP, em entrevista à revista Pesquisa FAPESP.

Luz de química, não de brasa

Bechara passou décadas estudando reações que emitem luz. Na entrevista, ele resume o fenômeno do vaga-lume numa frase: a bioluminescência é quimioluminescência que acontece dentro do bicho, catalisada pela luciferase.

A diferença para a lâmpada está no destino da energia. Nas reações quimioluminescentes que ele estudou, a energia vira fótons em vez de calor. É por isso que dá para segurar um vaga-lume aceso na mão sem queimar nada.

Quanto custa acender a lanterna

Pesquisadores de Taiwan e da Suíça foram medir a conta de energia. Usaram raios X e tomografia para mapear os tubinhos de ar que levam oxigênio às células da lanterna de duas espécies, Luciola terminalis e Luciola cerata, e depois mediram o consumo cada vez que os insetos acendiam.

O resultado saiu na revista Physical Review Letters e foi resumido pela Pesquisa FAPESP em dezembro de 2014. Com a lanterna acesa, o gasto de oxigênio ficou só 37% acima do repouso. O voo, segundo a revista, consome cerca de 140 vezes mais.

Tubos feitos sob medida

A economia está no encanamento. Os tubinhos que levam ar às células da luz são, nas palavras dos autores, otimizados para gerar o máximo de luz com o mínimo de oxigênio. O ar chega na medida certa para a reação, sem sobra.

Na prática, piscar a noite toda sai barato para o inseto. Caro mesmo é voar de um lado para o outro atrás de parceiro, que é para isso que o pisca-pisca serve.

O número que caiu pela metade

Durante décadas, livros repetiram que o vaga-lume transformava quase todas as reações em luz: o valor citado era 88%, com margem de 25 pontos. Em 2008, um grupo japonês refez a medição com um espectrômetro novo e publicou o resultado na Nature Photonics.

O rendimento máximo medido foi de 41%, com margem de 7,4 pontos. Ou seja, menos da metade das reações rende um fóton. Continua sendo um sistema eficiente, mas não o quase perfeito que se dizia.

As contas do vaga-lume lado a lado

O que foi medidoResultadoQuem mediu
Oxigênio gasto com a lanterna acesaSó 37% acima do repousoTsai e colegas, Physical Review Letters, 2014
Oxigênio gasto no vooCerca de 140 vezes maisMesmo estudo, segundo a Pesquisa FAPESP
Reações que viram luz (valor antigo)88%, com margem de 25 pontosValor citado havia décadas
Reações que viram luz (valor revisto)41%, com margem de 7,4 pontosAndo e colegas, Nature Photonics, 2008

Arte: Watts & Wild, com dados da Pesquisa FAPESP (dezembro de 2014) e de Ando e colegas (Nature Photonics, 2008).

Verde, amarelo ou vermelho

O mesmo estudo japonês mexeu em outra explicação antiga, a da cor. A luz da lanterna pode ir do verde-amarelado ao vermelho conforme a acidez. Pensava-se que uma cor se convertia na outra; a medição mostrou que muda só a força de um dos componentes da luz.

Por que o vaga-lume faz luz no cupinzeiro do Cerrado

Larva luminosa verde espiando por um buraco redondo na parede de terra de um cupinzeiro, no escuro
Larva de Pyrearinus termitilluminans acesa na janela do cupinzeiro, no Parque Nacional das Emas (GO). Foto: Nortondefeis, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

Bechara conheceu o espetáculo no Parque Nacional das Emas, em Goiás. Larvas luminosas cavam túneis próprios, de 1 a 10 centímetros da superfície do cupinzeiro, separados das galerias dos cupins.

Durante as chuvas, elas põem a cabeça e o tórax aceso para fora, em janelinhas abertas na terra. São 200 ou 300 larvas por cupinzeiro, segundo Bechara, e o campo fica salpicado de pontinhos verdes.

Uma armadilha de luz

A luz serve de isca. No fim da tarde da estação chuvosa, uma nuvem de insetos rodeia os cupinzeiros acesos, e a presa preferida da larva é o cupim alado, o siriri, que está voando ali no meio. Cada larva chega a pegar de 10 a 12 cupins por noite.

Quando os pesquisadores injetaram plástico nos túneis para tirar o molde, acharam uma espécie de sala de jantar a 1 centímetro da superfície. A larva morde e já começa a digerir a presa do lado de fora do corpo, como fazem as aranhas.

O que mudou em volta do parque

Vaga-lume de asas escuras com listras claras e escudo cor de mel sobre a cabeça, apoiado na ponta dos dedos de uma pessoa
Vaga-lume da espécie Cratomorphus diaphanus. O escudo cor de mel cobre a cabeça. Foto: Fernando Sessegolo, Wikimedia Commons, domínio público (CC0), recortada.

Bechara contou que poupou os cupinzeiros de dentro do parque e coletou larvas nos de fora. Esses, disse ele, foram todos derrubados para plantar soja. Seu ex-aluno Vadim Viviani, da UFSCar em Sorocaba, começava a estudar cupinzeiros luminosos em clareiras da Amazônia.

O brilho de bicho não é exclusividade da terra firme. Tem também a bioluminescência do mar brasileiro, e insetos estão entre os bichos mais fotografados do Brasil no iNaturalist. Se a noite for de tempestade, repare também no céu esverdeado antes da chuva.

O que estas medições não dizem

O gasto de oxigênio foi medido em duas espécies asiáticas, e o rendimento de 41% vale para a reação estudada pelo grupo japonês. Os relatos dos cupinzeiros são de Bechara, em entrevista de 2015. Nenhuma das fontes mede a temperatura de uma lanterna acesa.

Fontes: Pesquisa FAPESP, entrevista com Etelvino José Henriques Bechara, março de 2015. Pesquisa FAPESP, Nascidos para brilhar, dezembro de 2014. Tsai e colegas, Firefly Light Flashing: Oxygen Supply Mechanism, Physical Review Letters, 2014. Ando e colegas, Nature Photonics, 2008.

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