O pássaro no fio não leva choque porque as duas patas ficam no mesmo cabo, mas no sertão da Bahia araras ameaçadas morrem eletrocutadas quando as asas abertas encostam em dois fios
Fio de poste tem tensão para matar uma pessoa, e mesmo assim o bem-te-vi fica ali, olhando a rua. Não é pé de borracha nem pena isolante. É física. O problema começa quando a asa alcança dois fios de uma vez, e no sertão baiano isso tem custado araras.
Passarinhos pousados em fios da rede elétrica, em maio de 2018. Foto: Pedro Gentil Jacobina, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
O pássaro no fio não leva choque porque as duas patas estão no mesmo cabo, sem diferença de potencial entre elas. A corrente só atravessa o corpo quando a ave toca ao mesmo tempo dois fios energizados, ou um fio e uma parte aterrada, explica o resumo do ICMBio sobre a arara-azul-de-lear.
A eletricidade precisa de uma saída
Pense no fio como um cano cheio de água sob pressão. Enquanto a ave encosta só nele, não existe para onde a corrente escapar pelo corpo dela. O metal conduz muito melhor do que carne e osso, e a eletricidade segue o caminho de sempre.
Choque é passagem de corrente. Sem dois pontos com energia diferente tocando a ave, não há passagem.
Quando o pássaro no fio vira ponte
O guia do comitê americano APLIC, feito com empresas de energia, descreve as duas formas de eletrocussão. Uma é tocar dois condutores de fases diferentes. A outra é tocar um condutor energizado e algo ligado à terra, como uma ferragem do poste.
O ponto decisivo é o tamanho. A morte acontece quando a distância entre os fios é menor que a envergadura da ave, medida de pulso a pulso, ou menor que a altura dela da cabeça aos pés.
A conta que protege as águias
O APLIC partiu de uma fêmea grande de águia-real, com 230 cm de asa a asa. Tirou as penas da ponta, cerca de 46 cm de cada lado, e chegou a 140 cm de pulso a pulso. Daí veio a recomendação de 150 cm entre fios na horizontal e 100 cm na vertical.
O fio mais perigoso é o da rua
Parece contraintuitivo, mas as linhas gigantes de alta tensão não são as campeãs de morte por choque. Segundo o guia, a eletrocussão de aves acontece tipicamente em redes abaixo de 60 mil volts, as de distribuição, que passam nos postes do bairro e da estrada.
Nas torres altas, os cabos ficam muito afastados. No poste comum, ficam perto o bastante para uma ave grande encostar em dois de uma vez.
As araras que morrem no poste
A arara-azul-de-lear vive só na Caatinga do norte da Bahia e está classificada como Em Perigo. Pesquisadores ligados ao ICMBio compilaram mortes por choque registradas pela comunidade do Raso da Catarina e publicaram o estudo na revista Ibis, em 2022.
As carcaças apareciam embaixo ou ao lado dos postes, muitas com queimaduras no bico, no corpo e nos pés. Foram 31 eventos até junho de 2021, e só em 2022 mais 40 araras foram achadas mortas até dezembro.
A régua que explica as mortes
A conta é cruel de tão simples. As mortes ocorreram em postes de concreto com rede de duas ou três fases e fios a menos de 70 cm um do outro. A envergadura da arara fica em torno de 1,15 m.
As araras usam os cabos para descansar, comer o coquinho do licuri e se socializar. Ou seja, pousam justo onde a conta não fecha a favor delas. A maioria dos 13 pontos principais de morte, 58%, fica em Euclides da Cunha.
Pássaro no fio: quando é seguro e quando mata
| Situação | O que acontece com a ave | Por quê |
|---|---|---|
| Pássaro pequeno com as duas patas no mesmo fio | Nada | As patas estão no mesmo potencial elétrico, e a corrente segue pelo metal |
| Ave encosta em dois fios energizados ao mesmo tempo | Pode morrer eletrocutada | O corpo vira ponte entre fases diferentes |
| Ave encosta num fio e numa parte aterrada do poste | Pode morrer eletrocutada | A corrente acha caminho até a terra pelo corpo |
| Asas abertas maiores que a distância entre os fios | Risco alto | No Raso da Catarina, fios a menos de 70 cm e araras com cerca de 1,15 m de envergadura |
| Penas molhadas | Risco maior | Pena molhada conduz mais eletricidade que pena seca, segundo o guia APLIC |
Arte: Watts & Wild, com dados do guia APLIC (2006) e dos resumos do ICMBio sobre a arara-azul-de-lear (2022 e 2025).
Chuva e filhote aumentam o risco
O guia APLIC aponta dois agravantes que valem para qualquer ave. Tempo úmido aumenta o risco, porque pena molhada conduz mais eletricidade do que pena seca. E aves jovens se eletrocutam mais, por serem inexperientes e menos ágeis para pousar e decolar.
Urubus, gaviões e garças, com asas largas e hábito de pousar no alto, entram nesse grupo. E urubu tem comportamento curioso de sobra, como no flagrante de um urubu-preto atacando cobra viva no semiárido.
Mexer em 10% dos pontos salva 80%
Um segundo estudo do grupo, publicado em 2025 no Journal of Applied Ecology, cruzou onde as araras circulam com a densidade de fios para fazer um mapa de risco. Corrigir os 10% de áreas mais perigosas evitaria mais de 80% das mortes conhecidas, segundo o resumo do ICMBio.
Isso exigiria modernizar 37.412 estruturas. Só o 1% de maior risco, com 5.668 postes, já evitaria cerca de 35%. As soluções são afastar os fios, cobrir partes energizadas com material isolante e oferecer poleiros seguros.
Achou ave caída perto do poste?
Não encoste em fio nenhum e não tente soltar ave presa na fiação: isso é trabalho da distribuidora de energia. Se o animal estiver vivo no chão, procure o Cetas ou o órgão ambiental do seu estado.
E se for um filhote que caiu sem ligação com a rede, o caminho é outro, explicado em o que fazer com filhote de passarinho caído do ninho.
O que a contagem de carcaças esconde
As contagens das araras vêm de carcaças achadas por moradores, e os próprios pesquisadores falam em subnotificação. O número real tende a ser maior. As medidas de distância segura do APLIC foram feitas para aves dos Estados Unidos, e o mapa de risco cobre só o Raso da Catarina.
Fontes: ICMBio, resumo de Biasotto e colegas, Ibis, 2022, doi:10.1111/ibi.13139. ICMBio, resumo de Biasotto e colegas, Journal of Applied Ecology, 2025. APLIC, Suggested Practices for Avian Protection on Power Lines, 2006.



