O brilho azul que aparece à noite na arrebentação de praias como Itamambuca, em Ubatuba (SP), e a Praia da Solidão, em Florianópolis (SC), é bioluminescência causada por microrganismos marinhos chamados Noctiluca
A bioluminescência marinha é o brilho azul que aparece de noite quando ondas ou nadadores agitam a água com microrganismos chamados Noctiluca. Não é edição de vídeo nem luz artificial. Segundo o Cebimar-USP, o fenômeno já apareceu em praias de vários estados e depende de uma floração repentina ligada à temperatura da água.
Onda bioluminescente brilhando de azul contra a linha da costa, à noite. Foto: Bruce Anderson/Wikimedia Commons, CC BY 2.0.
A bioluminescência marinha faz a água do mar brilhar de azul à noite quando um microrganismo chamado Noctiluca se acumula em grande quantidade perto da praia e é agitado pelo movimento das ondas. No Brasil, o fenômeno já foi fotografado em pontos do litoral de São Paulo e de Santa Catarina, entre outros estados.
Quem explica o mecanismo é Áurea Maria Ciotti, coordenadora do Laboratório Aquarela do Centro de Biologia Marinha da USP (Cebimar-USP), em São Sebastião (SP), em entrevista à imprensa após um dos registros mais comentados do fenômeno, em Ubatuba, no litoral norte paulista.
O que causa a bioluminescência marinha na arrebentação
Segundo Ciotti, "na zona de arrebentação das praias, quando observamos bioluminescência, ela está geralmente associada à presença de uma grande quantidade de organismos microscópicos do tipo Noctiluca". A luz aparece justamente onde a onda quebra, porque é ali que a água é mais agitada.
O movimento mecânico da água é o gatilho da luz. Segundo a pesquisadora, "uma forma de estimular a bioluminescência dos dinoflagelados é agitar a água, então ondas, movimentos de embarcações, ou até mesmo a natação podem promover rastros iluminados".
Quem é a Noctiluca, a protagonista do fenômeno
A Noctiluca é um organismo unicelular marinho, parte do plâncton, mas não é uma alga. Segundo o Cebimar-USP, "a Noctiluca não é uma microalga, ela não é capaz de fazer fotossíntese, mas se alimenta de microalgas".
Isso explica por que ela costuma aparecer em grande número justo quando há mais microalgas na água: mais comida disponível permite que a população da Noctiluca cresça rápido em poucos dias.
Como a luz é produzida dentro do organismo
A luz vem de uma reação química interna. A enzima luciferase atua sobre uma substância chamada luciferina na presença de oxigênio, e essa reação libera fótons de luz, na maior parte das vezes em tom azul-esverdeado.
A cor pode variar de organismo para organismo, porque cada espécie bioluminescente tem seu próprio tipo de luciferina. É a mesma família de reação química usada por vaga-lumes, só que adaptada à vida na água salgada.
O registro na Praia de Itamambuca, em Ubatuba (SP)
Um dos casos mais divulgados aconteceu na sexta-feira, 7 de março de 2025, na Praia de Itamambuca, distrito de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. As ondas ganharam um brilho azulado intenso durante a noite, visto por moradores e turistas.
O episódio em Itamambuca foi o que levou o Cebimar-USP a comentar publicamente o fenômeno, atribuindo o brilho a uma concentração maior de Noctiluca na região naquele momento.
O registro na Praia da Solidão, em Florianópolis (SC)
Outro caso ocorreu na Praia da Solidão, no sul da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, em 17 de dezembro de 2025. Moradores registraram as ondas com o mesmo brilho azul fluorescente visto em Ubatuba.
A cor e o padrão descrito no registro catarinense correspondem ao mesmo mecanismo explicado pelo Cebimar-USP: dinoflagelados bioluminescentes concentrados perto da arrebentação, reagindo ao movimento da água.
Outros trechos do litoral brasileiro com o fenômeno
Reportagens sobre o tema também mencionam avistamentos em outros pontos do litoral brasileiro, da Baía dos Golfinhos, em Tibau do Sul (RN), até a Península de Maraú, na Bahia, sem uma data única associada a cada local.
O padrão indicado pelo Cebimar-USP é o de um fenômeno que não é raro ao longo de toda a costa do Brasil, mas que também não se repete sempre no mesmo trecho de praia.
Por que a Noctiluca prolifera mais em certas épocas
Segundo o Cebimar-USP, a Noctiluca pode passar por "episódios de crescimento explosivo conhecidos como floração, muitas vezes influenciados pelo aumento da temperatura da água ou pelo acúmulo de nutrientes" e de outros microrganismos, como as diatomáceas.
Água mais quente e mais nutrientes formam a combinação que favorece a floração, o que aproxima esses episódios do verão no litoral brasileiro, quando o mar costuma estar mais aquecido.
O mar brasileiro rende outras manchetes de bicho e fenômeno raro, como os golfinhos que caçam tainhas perto da Praia de Gaibu, em Pernambuco, e o polvo mímico que vira cobra-do-mar para enganar predador.
Outro episódio raro da costa brasileira foi o tsunami meteorológico que invadiu o litoral de Santa Catarina, também ligado ao comportamento incomum do mar.
Dá para prever onde e quando o mar vai brilhar de novo?
Apesar da ligação com águas mais quentes, o Cebimar-USP não trata o brilho como algo previsível em uma data ou praia específica. A floração de Noctiluca depende de condições que se formam de maneira pontual em cada trecho da costa.
Não é possível prometer que o fenômeno vai aparecer em determinada praia numa certa noite. Quem já viu o mar brilhar descreve o encontro como uma surpresa, não como um passeio programado.
O fenômeno é perigoso para quem entra no mar?
Segundo o Cebimar-USP, a ocorrência de Noctiluca em si não é tóxica e não traz risco a banhistas. O organismo produz luz, mas não substâncias nocivas ao contato humano.
A ressalva da própria Ciotti é sobre outras espécies de dinoflagelados, que podem estar presentes junto com a Noctiluca em algumas florações e, nesses casos, o recomendável é não entrar na água até a situação ser melhor avaliada.
O brilho da Noctiluca não é a mesma coisa que maré vermelha
A chamada maré vermelha também é causada por floração de microrganismos marinhos, mas normalmente envolve espécies diferentes, que produzem toxinas e deixam a água com tom avermelhado ou amarronzado durante o dia.
Já a bioluminescência da Noctiluca aparece à noite, como brilho azul, e não muda a cor da água sob luz do sol da mesma forma marcante. São dois fenômenos distintos que às vezes se confundem pelo nome parecido de "floração".
O que fica registrado sobre o mar que brilha no Brasil
O brilho azul na arrebentação segue sendo um fenômeno natural e recorrente ao longo do litoral brasileiro, sem risco descrito para quem observa da areia, com casos documentados em São Paulo e Santa Catarina em 2025.
Novos registros devem continuar aparecendo em outras praias, sempre de forma pontual. Você já viu o mar brilhar de noite em alguma praia do Brasil? Conte nos comentários.



