Ciência

O céu esverdeado antes da tempestade não é ilusão de quem se assustou, porque cientistas mediram a cor com aparelho, mas a causa ainda divide os especialistas e o sinal pede cuidado

Quem já viu jura que o céu ficou cor de garrafa minutos antes do temporal. Por muito tempo isso soou como exagero. Em 1995, pesquisadores americanos levaram um espectrofotômetro para perto das tempestades e registraram a cor de verdade. O verde existe. O porquê, a ciência ainda discute.

Nuvem prateleira escura de tempestade avançando sobre Piracicaba, sem o tom de céu esverdeado

Nuvem prateleira chegando a Piracicaba (SP) com uma linha de instabilidade, em 22 de setembro de 2025. A foto mostra o tipo de nuvem, não o tom verde. Foto: A.O Mapping, Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0, recortada.

O céu esverdeado antes da tempestade é real e já foi medido, mas os cientistas não concordam sobre a causa. O Laboratório Nacional de Tempestades Severas da NOAA diz que há muitos relatos ligando o verde ao granizo por perto, e que uma das teorias é a luz verde espalhada pela água e pelo gelo da nuvem.

A cor que parecia invenção

O artigo de 1996 no boletim da Sociedade Meteorológica Americana começa admitindo o problema. Havia céticos que nunca tinham visto uma tempestade verde e achavam que os relatos eram coisa de observador empolgado.

Faz sentido desconfiar. Cor no céu muda com o olho de cada um, com a hora e com o susto. Por isso a pergunta precisava de um aparelho, não de mais testemunhas.

O aparelho que tirou a dúvida

Frank Gallagher, William Beasley e Craig Bohren passaram a primavera e o verão de 1995 atrás de tempestades com um espectrofotômetro, que mede quanto de cada cor chega ao sensor. Gravaram centenas de espectros, de nuvens verdes e de nuvens comuns.

Viram a cor mudar devagar, de azul escuro para azul esverdeado, numa mesma tempestade. E chegaram a voar de avião ao lado de uma supercélula que parecia meio verde, registrando a luz por várias horas.

Quanto mais verde, mais escuro

Um detalhe das medições ajuda a entender a sensação de ameaça. Conforme a luz da tempestade ficava mais verde, o brilho caía. Ou seja, o verde aparece quando a nuvem está escura de verdade, e não num céu claro.

Os observadores até discordavam entre si, mas quase sempre só no tom. Um via verde musgo, outro verde azulado. Ninguém via laranja.

Não é o reflexo da mata

A explicação mais repetida era simples: a nuvem estaria refletindo o verde das plantações e das florestas lá embaixo. Os espectros de 1995 já contrariavam isso, e Gallagher voltou ao tema em 2001 no Journal of Applied Meteorology.

Ele mediu a luz refletida pelo chão debaixo das tempestades e fez cálculos. A conclusão foi direta: o verde das tempestades severas não vem da folhagem.

Duas ideias para um céu esverdeado

Chão coberto de pedras de granizo de vários tamanhos depois da tempestade em Taubaté
Granizo acumulado no chão em Taubaté (SP) depois da tempestade de 27 de setembro de 2023. Foto: Themium, Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Em 1993, Craig Bohren e Alistair Fraser publicaram no boletim da Sociedade Meteorológica Americana duas explicações. Para Fraser, a nuvem não é verde: ela serve de fundo escuro para a luz do próprio ar, avermelhada pelo sol baixo do fim de tarde, que no contraste parece verde.

Bohren lembra que a água, líquida ou congelada, tem um azul próprio. Só as nuvens mais massivas, enormes na altura e na largura, são grossas o bastante para tingir a luz que passa. Se essa luz já chega avermelhada pelo pôr do sol, sai do outro lado esverdeada.

Os dois autores escreveram que as ideias não se excluem e que pode haver causas ainda desconhecidas.

As explicações que caíram e as que ficaram

ExplicaçãoQuem defendeuO que as medições mostraram
Reflexo da vegetação verde no chãoIdeia popular antigaDerrubada: os espectros de 1995 e o estudo de 2001 mostraram que não é a folhagem
Granizo dentro da nuvemRelatos de quem viu, citados pela NOAAEm aberto: o granizo costuma aparecer junto, mas a equipe de 1996 questionou se ele é obrigatório
Luz do ar avermelhada pelo pôr do sol contra o fundo escuro da nuvemAlistair Fraser (1993)Compatível com a queda de brilho medida em 1996, sem prova definitiva
Azul próprio da água em nuvem muito espessa, iluminada por sol avermelhadoCraig Bohren (1993)Compatível com as medições, e os autores dizem que as causas podem se somar

Arte: Watts & Wild, com dados de Bohren e Fraser (BAMS, 1993), Gallagher, Beasley e Bohren (BAMS, 1996), Gallagher (Journal of Applied Meteorology, 2001) e NOAA/NSSL.

E o granizo nessa história?

Pedra de granizo derretendo na palma da mão depois de chuva forte em Piracicaba
Pedra de granizo na palma da mão durante chuva forte em Piracicaba (SP), em 8 de março de 2024. Foto: A.O Mapping, Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

A ligação com granizo é a que mais circula, e a NOAA a trata como evidência de relato, não como regra. A equipe de 1996 foi além e disse que suas observações levantam dúvidas sobre explicações que exigem granizo dentro da nuvem.

Na prática, as duas coisas costumam andar juntas porque as duas precisam de uma nuvem gigante, cheia de água e gelo. O verde não prova granizo, mas aparece no tipo de tempestade que produz granizo. Estrago não falta, como mostrou o balanço do granizo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

O Brasil está no mapa das tempestades fortes

Um levantamento de 2006 com sete anos de dados do satélite TRMM, da NASA com o Japão, procurou as tempestades mais intensas do planeta. O sudeste da América do Sul apareceu entre as regiões favoritas, ao lado do centro-sul dos Estados Unidos e da África equatorial, segundo o estudo de Edward Zipser e colegas.

É a faixa que inclui o Sul do Brasil, onde o granizo é mais frequente, como já mostramos ao explicar por que o Sul lidera o granizo no país.

Viu o céu verde, faça isto

A orientação da NOAA vale para qualquer tempestade de granizo grande: como ele costuma cair perto da parte da nuvem onde tornados se formam, assuma que pode haver tornado por perto e procure abrigo. Longe de janelas, dentro de casa ou de um prédio firme.

Carro na rua, se der, vai para garagem coberta. E o nariz também avisa: tem um cheiro de tempestade que pede abrigo na hora, explicado em por que dá para sentir o cheiro de chuva antes da chuva.

O que ninguém conseguiu fechar

As medições provaram que o verde existe e derrubaram o reflexo das plantas, mas não escolheram entre Bohren, Fraser ou uma mistura. As fotos desta página, aliás, mostram tempestades e granizo no Brasil, não um céu verde: registro bom do fenômeno com licença livre é raro.

Fontes: NOAA/NSSL, Severe Weather 101, Hail FAQ. Bohren e Fraser, Green Thunderstorms, BAMS, 1993. Gallagher, Beasley e Bohren, Green Thunderstorms Observed, BAMS, 1996. Gallagher, Ground Reflections and Green Thunderstorms, Journal of Applied Meteorology, 2001. Zipser e colegas, Where are the most intense thunderstorms on Earth?, BAMS, 2006.

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