O urubu faz xixi nas pernas para se refrescar, e um experimento com cinco aves numa caixa aquecida mostrou que molhar as pernas derrubou a temperatura do corpo em cerca de 1 °C em 20 minutos
Repare nas pernas de um urubu num dia de sol forte e elas podem estar molhadas. A ave mira o próprio jato nas pernas, e a evaporação faz o papel do suor que ela não tem. Um pesquisador mediu esse truque numa caixa aquecida no Missouri, em 1970.
Urubu-de-cabeça-preta numa praia do Espírito Santo, em março de 2007. Foto: Iain and Sarah, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0, recortada.
O urubu faz xixi nas pernas para esfriar o corpo: o líquido evapora e leva calor embora. O comportamento tem nome, urohidrose, e foi medido pelo pesquisador Daniel E. Hatch em artigo publicado na revista The Auk em 1970.
O suor que falta ao urubu
O nome foi sugerido em 1963 pelo pesquisador Kahl, porque a função lembra a do suor. Gente esfria quando a água da pele evapora. O urubu consegue um efeito parecido molhando as pernas, que não têm penas.
Nas aves, urina e fezes saem juntas pela mesma abertura. Por isso o artigo fala em excreta, e não só em xixi. O que importa para o calor é a parte líquida.
Cinco urubus numa caixa quente
Hatch trabalhou com urubus-de-cabeça-vermelha no condado de Boone, no Missouri (EUA). Cinco aves em cativeiro passaram, uma por vez, por uma caixa de madeira com canos de água quente nas paredes.
Na primeira hora a caixa ficava perto de 22 °C. Na segunda subia a uns 33 °C, na terceira voltava a 23 °C e na quarta chegava a 35 °C. O pesquisador contava, pelo vidro, quantas vezes cada ave se aliviava a cada meia hora.
No calor, o alvo muda
No fresco, os urubus se aliviavam no máximo uma ou duas vezes por meia hora e jogavam o jato para trás, no chão ou na parede. Quando a caixa esquentou, a frequência disparou e, em todos os casos, o jato foi mirado numa das pernas.
Até a postura mudava. Para o alívio comum, a ave baixava a frente do corpo e erguia a cauda. Para se refrescar, fazia o contrário: levantava o peito, baixava a cauda e mirava a canela ou os dedos.
O urubu faz xixi nas pernas até sem ter o que soltar
Na terceira hora, com a caixa esfriando, o ritmo caiu ou parou. Mas tudo o que saiu nessa fase foi direto para as pernas, o que levou Hatch a concluir que ali o objetivo era só refrescar.
O detalhe mais revelador veio no fim. As aves que tinham se aliviado muito no começo mal conseguiam soltar uma gota depois. Mesmo assim, continuavam tentando molhar as pernas no mesmo ritmo.
A prova com ventilador e conta-gotas
Para medir o efeito, Hatch prendeu quatro aves numa caixa de papelão aquecida a 45 a 50 °C, com as pernas penduradas para fora por dois furos. Em vez da excreta, usou gotas de água nas pernas, alternando uma e outra.
Com as pernas secas, o corpo de um dos urubus subiu cerca de 1 °C em 20 minutos, mesmo ofegando umas 160 vezes por minuto. Com 2,5 ml de água nas pernas e vento de ventilador, a temperatura caiu cerca de 1 °C no mesmo tempo.
Pernas secas contra pernas molhadas
| Como estavam as pernas | O que aconteceu com o corpo do urubu | Ofegação |
|---|---|---|
| Secas, paradas no ar a 26 °C, ou cobertas com algodão (teste da ave V-5) | Subiu cerca de 1 °C em 20 minutos | Cerca de 160 respirações por minuto, sem resolver |
| Secas, com ventilador | O ar em movimento esfriou a pele das pernas | Caiu de 141 para 117 respirações por minuto, na média |
| Molhadas aos poucos, com ventilador (média de 5 testes) | Voltou para perto da temperatura do início | Parou em 3 dos 5 testes e caiu para 76 por minuto na média |
| 2,5 ml de água com ventilador (teste da ave V-5) | Caiu cerca de 1 °C em 20 minutos | Diferença de uns 2 °C em relação às pernas secas |
Arte: Watts & Wild, com dados de Daniel E. Hatch, The Auk, 1970. Caixa aquecida a 45 a 50 °C, com as pernas da ave para fora.
O urubu-preto do seu bairro também faz
O experimento usou o urubu-de-cabeça-vermelha, que também vive no Brasil. Mas o urubu-de-cabeça-preta, aquele que circula pelas cidades, faz o mesmo, assim como a cegonha cabeça-seca. Kahl viu as duas espécies molharem as pernas com urina quando sentiam calor, como registra Hatch.
O urubu-de-cabeça-preta está entre os bichos mais fotografados do Brasil e tem outros hábitos curiosos, como o do urubu-preto flagrado atacando uma cobra viva no semiárido.
Um ano sem beber água
O artigo traz outro dado que ajuda a entender por que o urubu aguenta lugares quentes. A temperatura normal do corpo dele, de dia, fica perto de 40 °C. E, alimentados com carne fresca e estragada, os urubus de Hatch viveram sem beber água: um por um ano, quatro por seis meses.
E as asas abertas ao sol?
Outra cena comum é o urubu parado de asas abertas, sobretudo de manhã. O guia do Laboratório de Ornitologia de Cornell diz que a postura serve, presumivelmente, para aquecer, esfriar ou secar o corpo. Ou seja, nem os especialistas cravam uma função só.
Se achar um urubu caído e sem conseguir voar, não tente cuidar dele em casa. O caminho é procurar o Cetas ou o órgão ambiental do seu estado.
Cinco aves, um laboratório e 1970
O estudo é antigo e pequeno. Usou cinco urubus de uma subespécie do norte, em caixas de laboratório, e o teste com ventilador trocou a excreta por água. O próprio Hatch avisou que só supunha que urubus de deserto usassem o mecanismo do mesmo jeito. Aves brasileiras não foram testadas.
Fontes: Daniel E. Hatch, Energy Conserving and Heat Dissipating Mechanisms of the Turkey Vulture, The Auk, vol. 87, 1970. Cornell Lab of Ornithology, All About Birds, Turkey Vulture.



