Os sapos aparecem depois da chuva porque passam o dia escondidos num canto úmido e saem quando o chão molhado deixa andar sem perder água demais, e eles bebem essa água pela pele da barriga
Basta uma pancada de chuva à noite para o quintal amanhecer com sapo na garagem, na área de serviço e perto do ralo. Eles não vieram com a água. Já estavam por perto, enfiados num buraco fresco, esperando o chão molhar para sair sem secar no caminho.
Sapos-cururus abrigados sob uma pedra no Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), em setembro de 2019. Foto: Thell Pereira, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
Os sapos aparecem depois da chuva porque precisam de água o tempo todo e o chão molhado é a hora mais segura para sair do esconderijo. O Instituto Butantan explica que o sapo tem a pele seca e rugosa e precisa de fontes de hidratação para manter o metabolismo funcionando.
O sapo bebe água pela barriga
Sapo não bebe com a boca, como um cachorro. Segundo o pesquisador Carlos Jared, diretor do Laboratório de Biologia Estrutural do Butantan, todos os anuros sugam água pela região inguinal, a parte de baixo da barriga, e respiram pela pele e pelo pulmão.
Na prática, isso quer dizer que a pele faz dois trabalhos ao mesmo tempo. Puxa a água do chão e troca gases com o ar. Uma pele dessas também perde água com facilidade quando o ar está seco.
A poça é o bebedouro
O Butantan diz isso com todas as letras: por precisar de hidratação, é comum encontrar sapos em poças de água da chuva ou perto de máquinas de lavar. A chuva espalha bebedouros pelo quintal inteiro de uma vez.
Banheiro, tanque e ralo entram na mesma lista. Jared cita poças, máquinas de lavar, banheiros e outros cantos com água como os lugares onde é mais comum topar com um anuro.
Quarenta e quatro cururus com rádio
A parte do comportamento foi medida longe daqui, com o nosso próprio cururu. A espécie nasceu nas Américas do Sul e Central e virou praga na Austrália. Lá, os pesquisadores Reid Tingley e Richard Shine colaram radiotransmissores em 44 sapos adultos numa região semiárida e seguiram cada um.
O estudo, publicado na revista PLoS ONE em 2011, partiu de um ponto fraco conhecido. O cururu tem pouco controle sobre a água que perde pela pele, então o lugar onde ele passa o dia faz toda a diferença.
De dia, o esconderijo; com chuva, a estrada
Os sapos escolhiam abrigos diurnos sempre mais frescos e úmidos do que os pontos ao redor. É a cena da foto lá em cima: um monte de cururu espremido numa fresta de pedra, esperando.
Com o tempo molhado, o padrão mudou. Os sapos que estavam longe da água andavam mais entre um abrigo e outro, provavelmente tentando chegar a uma fonte permanente, segundo os autores. No tempo seco, só os que já moravam perto da água se deslocavam bastante.
Por que os sapos aparecem depois da chuva e somem no sol
Juntando as duas fontes, a conta fecha. O sapo passa o seco enfiado num buraco, debaixo de pedra, tábua ou vaso. Quando a chuva molha tudo, o risco de ressecar no caminho cai e ele aproveita para circular, beber e caçar insetos.
Com o sol de volta, cada um retorna para um canto úmido. Por isso o quintal parece cheio numa noite e vazio na tarde seguinte. Os sapos não foram embora, só voltaram a se esconder.
A volta para a lagoa
Fora da época de reprodução, o sapo prefere ficar sozinho. Segundo o Butantan, ele só volta para a lagoa para encontrar parceiros, quando a fêmea bota os ovos na água em forma de fita e o ciclo recomeça com os girinos.
É nessa fase que aparece o coro. Quem canta é sempre o macho, e cada espécie tem um canto próprio, que funciona como a forma de o casal se achar no escuro.
Sapo, rã e perereca não são a mesma coisa
| Bicho | Pele | Onde costuma ficar | Como se move |
|---|---|---|---|
| Sapo | Mais seca e rugosa | Na terra; volta à lagoa para se reproduzir | Mais caminha do que salta |
| Rã | Úmida, viscosa e brilhante | Na água ou perto dela | Salta longe, mas cansa rápido |
| Perereca | Muito úmida, lisa e brilhante | Em árvores e paredes, perto de riachos | Salta e escala com discos adesivos nos dedos |
Arte: Watts & Wild, com informações do Instituto Butantan (julho de 2024), com orientação do pesquisador Carlos Jared.
Nem todo bicho que pula no quintal é sapo. As nossas rãs, chamadas de jias ou caçotes, ficam mais na água. As pererecas sobem em parede e vidro graças aos discos adesivos na ponta dos dedos, como mostra a foto abaixo.
Pode encostar no sapo?
O conselho do Butantan é não tentar tocar. O bicho vai estar mais assustado do que você e quer fugir. O veneno fica nas glândulas parotoides, atrás da cabeça, e só sai quando um predador morde. O sapo não consegue lançar o veneno sozinho.
A maioria dos venenos de anfíbios é inofensiva para gente, mas o instituto recomenda lavar bem as mãos com água e sabão depois de manusear um sapo. E é mito que encostar nele cause cobreiro. O veneno do cururu, aliás, já rendeu moléculas com potencial antibiótico estudadas pelo Butantan.
Sapo no quintal é bom sinal
O Brasil tem 1.144 espécies de anuros, a maior diversidade do mundo, segundo o centro do ICMBio dedicado a répteis e anfíbios citado pelo Butantan. Sapo, rã e perereca só vivem em lugar pouco poluído e por isso indicam um ambiente saudável. Se achar um ferido, procure o Cetas ou o órgão ambiental do seu estado.
Se a chuva de hoje veio depois de um dia abafado, talvez você também tenha sentido aquele cheiro de chuva antes da chuva, outro sinal que a natureza dá quando o tempo muda.
O que o estudo não mediu
O rastreamento foi feito com cururus invasores no semiárido da Austrália, não em quintal brasileiro, e a busca por água permanente é a explicação provável dos autores, não uma medida. O texto do Butantan não liga a época de reprodução à chuva, e ligar uma coisa à outra seria chute.
Fontes: Instituto Butantan, Sapo, rã e perereca: desvende as diferenças e os mitos de cada espécie, 11 de julho de 2024. Reid Tingley e Richard Shine, Desiccation Risk Drives the Spatial Ecology of an Invasive Anuran (Rhinella marina) in the Australian Semi-Desert, PLoS ONE, 2011.



