A coruja gira a cabeça até 270 graus para cada lado sem cortar o sangue do cérebro, e o segredo, achado por ilustradores médicos da Johns Hopkins, está em vértebras com folga e reservatórios de sangue sob a mandíbula
Tente olhar para trás sem mexer os ombros e o pescoço trava bem antes. A coruja faz o giro sem esforço, até 270 graus para cada lado. O mistério nunca foi o osso, e sim por que as artérias dela não rasgam. Uma equipe da Johns Hopkins dissecou 12 corujas para responder.
Jacurutu sob um ipê-rosa no Parque Estadual Encontro das Águas (MT), em agosto de 2024. É uma das três espécies estudadas. Foto: Giles Laurent, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
A coruja gira a cabeça até 270 graus sem cortar o sangue do cérebro porque o pescoço dela tem quatro adaptações nos ossos e nos vasos. Foi o que mostrou uma equipe de ilustradores médicos e radiologistas da Johns Hopkins, segundo o comunicado da universidade de janeiro de 2013.
O perigo escondido num giro de pescoço
As artérias carótida e vertebral, que levam sangue ao cérebro, são frágeis na maioria dos animais, inclusive em corujas e gente. Um rasgo pequeno na parede do vaso pode formar um coágulo, que se solta e provoca embolia ou AVC.
Em pessoas, lembra o comunicado, essas lesões aparecem em batidas de carro com efeito chicote, em solavancos de montanha-russa e em manipulações quiropráticas que dão errado. O neurorradiologista Philippe Gailloud conta que sempre estranhou não ver corujas mortas por AVC no chão da floresta.
Doze corujas no tomógrafo
O trabalho foi liderado por Fabian de Kok-Mercado, então recém-formado no curso de arte aplicada à medicina da Johns Hopkins. A equipe estudou corujas-das-neves, corujas-barradas e jacurutus que tinham morrido de causas naturais.
Os pesquisadores injetaram contraste nos vasos para enxergá-los no raio X, fizeram tomografia e depois dissecaram e desenharam cada pescoço. Segundo o comunicado, pode ter sido a primeira vez que essas técnicas foram usadas juntas para examinar a anatomia dessas aves.
Furos dez vezes mais largos que a artéria
A artéria vertebral sobe pelo pescoço passando por furos nas vértebras. Na coruja, esses furos têm diâmetro cerca de 10 vezes maior que o da artéria, o que cria bolsas de ar em volta do vaso. Quando o pescoço torce, a artéria tem espaço para se mexer sem esticar.
Das 14 vértebras do pescoço da coruja, 12 têm essa folga. No ser humano, explicou de Kok-Mercado, a artéria vertebral fica justa dentro do furo.
Uma artéria que entra mais alto
A segunda diferença está na porta de entrada. Na coruja, a artéria vertebral entra no pescoço mais alto do que em outras aves, na 12ª vértebra e não na 14ª. Isso deixa mais vaso solto, com sobra para acompanhar a torção.
Pontes que mantêm o sangue passando
A equipe também achou pequenas ligações entre a carótida e a artéria vertebral, que em geral não aparecem no adulto humano. Uma delas tem nome comprido: artéria trigeminal persistente.
Se uma rota fica apertada no meio do giro, o sangue segue pela outra e o cérebro continua abastecido, segundo os pesquisadores.
Bolsas de sangue embaixo do bico
O achado mais curioso veio quando a equipe injetou contraste nas artérias, imitando o fluxo do sangue, e girou a cabeça das aves com a mão. Os vasos na base da cabeça, logo abaixo da mandíbula, foram ficando cada vez maiores até formar reservatórios.
Em gente acontece o contrário: as artérias afinam conforme se dividem. Para os autores, essas bolsas guardam sangue para o cérebro e os olhos enormes da coruja enquanto a cabeça está virada.
Quando a coruja gira a cabeça, o pescoço trabalha assim
| O que a equipe achou | Para que serve na coruja | E no ser humano |
|---|---|---|
| Furos nas vértebras cerca de 10 vezes mais largos que a artéria | A artéria tem folga para se mexer quando o pescoço torce | A artéria fica justa dentro do furo |
| Artéria vertebral entrando na 12ª vértebra do pescoço, e não na 14ª | Sobra comprimento de vaso para a torção | Não se aplica |
| Ligações entre as artérias carótida e vertebral | Se um caminho fecha na torção, o sangue passa pelo outro | Em geral não aparecem no adulto |
| Vasos sob a mandíbula que incham e formam reservatórios | Hipótese dos autores: guardam sangue para o cérebro e os olhos durante o giro | As artérias afinam conforme se ramificam |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado da Johns Hopkins Medicine de 31 de janeiro de 2013.
O jacurutu do estudo também vive aqui
Das três espécies examinadas, uma ocorre no Brasil. O jacurutu, maior rapinante noturno do país, aparece sobretudo no Sudeste e no Sul, com populações raras na Caatinga e em Roraima, segundo o WikiAves. As outras duas, a coruja-das-neves e a coruja-barrada, vivem no Hemisfério Norte.
Espécies comuns por aqui, como a coruja-buraqueira, que vive em campos e beiras de estrada, não foram examinadas. Ela é presença constante entre os bichos mais fotografados do Brasil, mas o pescoço dela ficou fora da conta.
O que o pescoço humano aprende com isso
Gailloud disse que o resultado mostra quais adaptações são necessárias para aguentar giros extremos e por que o pescoço humano é tão vulnerável a manipulações bruscas. Para ele, forçar demais a cabeça de uma pessoa é perigoso porque faltam a nós as proteções que a coruja tem.
Achou uma coruja caída no chão?
Coruja adulta parada no chão de dia, sem conseguir voar, pode estar ferida. Não force o pescoço da ave nem tente alimentá-la. O caminho é chamar o Cetas ou o órgão ambiental do seu estado.
Filhote com penugem fora do ninho é outra história, e muitas vezes os pais estão por perto, como explica a matéria sobre o mito do filhote tocado que é abandonado.
Um pôster premiado, não um artigo completo
O trabalho ganhou o primeiro lugar na categoria pôsteres e gráficos do concurso internacional de visualização científica de 2012 da Fundação Nacional de Ciência dos EUA. Foi reconhecido na edição de 1º de fevereiro de 2013 da revista Science, mas como prêmio, não como artigo científico completo.
A amostra foi de 12 aves de três espécies. A função dos reservatórios de sangue é interpretação dos autores, que planejavam examinar gaviões em seguida. O comunicado original saiu do ar e segue disponível no Hub da Johns Hopkins e no ScienceDaily.
Fontes: Johns Hopkins Medicine, comunicado de 31 de janeiro de 2013, republicado no ScienceDaily. Hub da Johns Hopkins, 31 de janeiro de 2013. WikiAves, ficha do jacurutu.



