Ciência

Um projeto de ciência cidadã da NASA convida qualquer pessoa com celular ou computador a apontar falsos sinais em imagens de telescópios espaciais, e em um mês 823 voluntários já fizeram mais de 47 mil classificações

Telescópios espaciais também erram. Reflexos, raios cósmicos e defeitos de câmera criam pontos que parecem galáxias e não são. A NASA lançou o Artifact InSPECtor para que voluntários ensinem uma inteligência artificial a reconhecer esses falsos sinais nos dados do Euclid e, a partir de 2027, do Roman.

Foguete Falcon Heavy sobe entre nuvens levando o telescópio Roman, cujos dados vão para o projeto de ciência cidadã da NASA

O Falcon Heavy decola com o telescópio espacial Nancy Grace Roman do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, em 30 de agosto de 2026. Foto: NASA/John Kraus, via NASA Image Library.

Para participar, basta abrir a página do Artifact InSPECtor no Zooniverse pelo celular, tablet ou computador, fazer o tutorial e marcar os falsos sinais nas imagens. O projeto de ciência cidadã da NASA usa as marcações para melhorar a IA que limpa os dados dos telescópios Euclid e Roman.

O que é um artefato em dado de telescópio

Artefato é o nome que os astrônomos dão a qualquer sinal que não vem de um objeto real, como uma estrela ou uma galáxia. Segundo a NASA, eles surgem de luz refletida na estrutura do telescópio, de raios cósmicos que batem no detector e de defeitos da câmera ou da eletrônica.

Colagem de imagens em preto e branco do telescópio Euclid com artefatos em forma de estrela, risco e mancha marcados em azul
Exemplos de artefatos em dados do telescópio Euclid. Em azul, os pixels que o modelo de inteligência artificial considera inválidos. Imagem: dados da ESA/Euclid Q1, processamento de Aimee Schechter e Bharath C. Nagam, divulgada pela NASA.

A agência compara com a mancha na lente do celular que aparece na foto, ou com o reflexo do Sol que esconde parte da imagem. No dado astronômico, esse borrão pode ser confundido com um objeto de verdade.

Por que a inteligência artificial precisa de ajuda

Os astrônomos criaram ferramentas de IA que aprendem a reconhecer artefatos, mais ou menos como o celular reconhece rostos. Em instrumentos novos, porém, a IA nem sempre separa direito o que é falso do que é real, admite a NASA. Os olhos humanos servem de gabarito.

Cada imagem passa por vários voluntários. As marcações viram instruções melhores para a IA, que depois vai revisar sozinha volumes de dados grandes demais para qualquer equipe humana.

Euclid e Roman, os dois telescópios do projeto

O Euclid foi construído pela Agência Espacial Europeia, com contribuições da NASA, e coleta luz de milhões de galáxias distantes. O Roman, da NASA, foi lançado em 30 de agosto de 2026 e deve observar um número parecido de galáxias, em outras distâncias e densidades do céu.

Juntos, os dois querem responder perguntas sobre a expansão do universo e a energia escura, a força misteriosa que acelera essa expansão.

O espectrógrafo, um prisma no espaço

Os dados do projeto vêm de espectrógrafos, instrumentos que funcionam como um prisma: separam a luz de cada galáxia num arco-íris de cores, chamado espectro. Pelo espectro, os cientistas descobrem a distância da galáxia, que tipos de estrela ela tem e até informações sobre o buraco negro supermassivo no centro.

Um artefato no lugar errado pode distorcer essa leitura. Por isso a limpeza vem antes da ciência.

Quanto o projeto já avançou em um mês

Pelos números públicos da plataforma Zooniverse, consultados à 0h30 desta sexta, 2 de outubro, o Artifact InSPECtor estreou em 1º de setembro e já reuniu 47.219 classificações feitas por 823 voluntários.

Gráfico do projeto de ciência cidadã Artifact InSPECtor com 2.935 imagens, 2.025 concluídas e 910 ainda abertas
Andamento do Artifact InSPECtor na plataforma Zooniverse: 69% das imagens já tiveram classificações suficientes. Arte: Watts & Wild, com dados do Zooniverse.

Das 2.935 imagens carregadas até agora, 2.025 já receberam marcações suficientes e saíram da fila. Restam 910 imagens abertas. Os dados do Roman só entram a partir do começo de 2027, o que deve abrir uma nova rodada de trabalho.

DadoValor em 2/10/2026
Estreia no Zooniverse1º de setembro de 2026
Classificações feitas47.219
Voluntários que classificaram823
Imagens no projeto2.935
Imagens concluídas2.025 (69%)
Idiomas disponíveisInglês, japonês e francês

Números públicos do projeto na plataforma Zooniverse, consultados pela API às 0h30 de 2 de outubro de 2026.

A ciência cidadã ainda não fala português neste projeto

O Artifact InSPECtor está disponível em inglês, japonês e francês, segundo a própria plataforma. Quem não lê inglês pode usar o tradutor do navegador no tutorial, mas a tarefa em si é visual: olhar a imagem e marcar o que parece falso.

Brasileiros já fazem ciência cidadã em outras frentes, como mostram as espécies mais fotografadas no iNaturalist e o mapa de lacunas de biodiversidade do GBIF.

Uma tarefa que até criança faz

A NASA cita uma participante de 9 anos, identificada como Maeve F., que achou legal ajudar a ensinar novas habilidades a computadores. O projeto diz aceitar participantes de todas as idades.

Satélites e telescópios produzem dados que a ciência não dá conta de olhar sozinha, como os registros do satélite que filmou a aurora por 45 horas.

O que o voluntário não faz

Quem participa não descobre galáxias nem analisa energia escura diretamente. O trabalho é de controle de qualidade: ensinar a máquina a separar o falso do real. O efeito do projeto na precisão da IA ainda vai ser medido pelas equipes dos telescópios.

Os números do Zooniverse mudam a cada hora, porque novas classificações e novas imagens entram o tempo todo.

Fontes: NASA, anúncio do Artifact InSPECtor; NASA, destaques de dados e software de setembro de 2026; página do projeto no Zooniverse e API pública do Zooniverse. Gráfico e tabela: Watts & Wild.

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