Uma ameba achada em águas quentes de um parque vulcânico na Califórnia se reproduz a 63 graus Celsius, temperatura em que nenhuma célula com núcleo era conhecida por se dividir, e muda o que se sabe sobre os limites da vida
Bactérias e arqueias aguentam calor extremo faz tempo, mas células complexas pareciam ter um teto perto de 60 graus. Uma ameba microscópica achada no Parque Nacional Vulcânico Lassen passou desse teto. A descoberta, financiada pela NASA, interessa a quem procura vida em outros planetas e a quem fabrica enzimas.
A pesquisadora Beryl Rappaport coleta amostras no Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia, onde a ameba foi achada. Foto: Kristen Skruber, divulgada pela NASA.
A ameba do fogo, Incendiamoeba cascadensis, se divide a 63 °C, a maior temperatura já registrada para reprodução de um eucarioto. O limite anterior, 60 °C, era de alguns fungos e algas vermelhas. O estudo saiu na revista Cell em setembro de 2026, segundo a NASA.
O que a ameba do fogo faz em cada temperatura
A 63 °C ela ainda se reproduz por divisão. Acima disso para de se multiplicar, mas segue ativa, se movendo atrás de comida, até 64 °C. Levada ao limite em laboratório, ficou parcialmente ativa a 66 °C e se recuperou depois de cinco minutos a 70 °C. Os 80 °C foram demais.
Para comparar: um organismo só é considerado termófilo, amante do calor, se consegue se replicar, se mover, comer e sobreviver acima de 45 °C. A ameba do fogo trabalha quase 20 graus acima dessa linha.
Por que 60 graus parecia um teto para células complexas
A vida se divide em dois grandes grupos. Os procariotos, como bactérias e arqueias, têm uma célula simples, sem núcleo. Os eucariotos, de algas a plantas e seres humanos, guardam o DNA dentro de um núcleo e têm organelas, como as mitocôndrias, envolvidas por membranas.
O calor desmancha proteínas e rompe membranas. Como os eucariotos têm mais dessas peças delicadas, havia a hipótese de que as membranas das organelas não ficariam estáveis acima de 62 °C. A ameba do fogo mostrou que essa suposição estava errada, de acordo com a NASA.
Onde ela foi encontrada
A ameba veio das águas aquecidas do Parque Nacional Vulcânico Lassen, no norte da Califórnia, a região vulcânica ativa mais ao sul da Cordilheira das Cascatas. O nome científico quer dizer ameba do fogo que vem das Cascatas.
Parques vulcânicos têm mais riscos que a lava, como mostramos ao explicar o que mais mata num vulcão. Para micróbios, porém, as fontes quentes são casa.
Os truques genéticos contra o calor
A equipe sequenciou o genoma da ameba e mediu a atividade dos genes em várias temperaturas. Encontrou muitos genes que ajudam a estabilizar o DNA e a protegê-lo de quebras, além de genes para perceber o ambiente. No calor, sobe a atividade dos genes que mantêm as proteínas dobradas do jeito certo.
Algumas proteínas da ameba têm carga elétrica positiva alta na superfície, o que pode ajudar a mantê-las estáveis, explicou a autora principal, Beryl Rappaport, da Universidade de Syracuse. Bactérias e arqueias termófilas usam cargas parecidas.
Pode haver parentes dela pelo mundo
Ao comparar o genoma com dados de outros estudos, a equipe achou pedaços de DNA parecidos em amostras geotérmicas da Nova Zelândia e do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Isso indica que outras amebas termófilas aparentadas podem existir em vários lugares, ainda sem descrição.
Os autores querem que a descoberta estimule novas buscas. Segundo Rappaport, pesquisas com eucariotos em altas temperaturas podem ter sido limitadas por suposições sobre a estabilidade das membranas.
O que a ameba do fogo diz sobre vida em Marte
A NASA financia esse tipo de pesquisa porque os extremófilos mostram até onde a vida consegue ir. Se células complexas aguentam mais calor do que se pensava, cresce a lista de ambientes onde vida desse tipo poderia sobreviver, na Terra e fora dela, incluindo planetas como Marte.
Os eucariotos surgiram depois dos procariotos na história da Terra, e entender os limites deles ajuda a reconstruir essa história, assunto de pesquisas como a das rochas da Paraíba sobre a explosão da vida.
Enzimas que aguentam calor têm uso na indústria
Há também um lado prático. Extremófilos produzem proteínas únicas que podem ter uso em biotecnologia, da indústria à medicina, segundo a NASA. Proteínas estáveis no calor de uma célula complexa são um material novo para esse tipo de pesquisa.
O que a descoberta não significa
A ameba não é sinal de vida fora da Terra. A própria Rappaport lembra que, além da temperatura, o ambiente precisa de acidez, oxigênio, pressão, água e comida adequados, e que a ameba depende de outros seres vivos. Hoje, só a Terra reúne tudo isso.
Os 66 °C e 70 °C vêm de testes de laboratório, não da natureza. Bactérias e arqueias seguem sendo as especialistas em extremos, segundo a NASA; o avanço vale para as células com núcleo. Os números aqui vêm do resumo publicado pela NASA, e não da leitura do artigo completo da Cell.
Fontes: NASA, Ciência Planetária, 22/09/2026; artigo na revista Cell. Gráfico: Watts & Wild.



