O GBIF, maior banco mundial de dados sobre biodiversidade, reúne 45,5 milhões de registros de espécies do Brasil, mas a densidade por estado varia de 0,7 por quilômetro quadrado no Piauí a 135,9 no Distrito Federal
O GBIF, banco mundial de dados sobre biodiversidade, soma 45,5 milhões de registros de ocorrência de espécies com o Brasil marcado como país. Cruzados com a área de cada estado pelo IBGE, esses registros mostram o Distrito Federal com 135,9 por quilômetro quadrado e o Piauí com apenas 0,7, a menor densidade do país.
Vista aérea da floresta amazônica, região que concentra vários dos estados com menor densidade de registros do GBIF. Foto: lubasi/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0), recortada para 16:9 e comprimida.
O Piauí tem 180.578 registros de ocorrência de espécies catalogados no GBIF, o banco mundial de dados sobre biodiversidade, espalhados por 251.578 quilômetros quadrados de território. É a menor densidade entre os 27 estados brasileiros: 0,72 registro por quilômetro quadrado.
A base é a API pública do GBIF, filtrada por country=BR e consultada em 24 de setembro de 2026, com os registros de cada estado cruzados com a área territorial oficial do IBGE, na tabela SIDRA 5626.
O Piauí tem a menor densidade de registros do país, 0,72 por quilômetro quadrado, e o Maranhão vem logo atrás, com 0,88. No outro extremo, o Distrito Federal soma 135,94 registros por quilômetro quadrado, quase 190 vezes mais, reflexo de onde ficam os museus e as universidades, não da distribuição real dos bichos e das plantas.
Piauí e Maranhão somam menos de 1 registro de espécie por quilômetro quadrado
Depois do Piauí, o pior índice é do Maranhão, com 291.484 registros em 331.937 quilômetros quadrados, ou 0,88 por quilômetro quadrado. Os sete estados com menor densidade ficam nas regiões Norte e Nordeste: Piauí, Maranhão, Roraima, Amazonas, Amapá, Pará e Tocantins.
Juntos, esses sete estados ocupam 47% do território brasileiro, mas somam só 12,5% dos registros classificados por estado no GBIF. O Amazonas, maior estado do país em área, tem 1.972.959 registros catalogados, e ainda assim fica com apenas 1,27 por quilômetro quadrado.
Distrito Federal concentra o maior número de registros por quilômetro quadrado do país
Distrito Federal soma 785.733 registros em 5.780 quilômetros quadrados, a menor área entre as 27 unidades da federação. A conta dá 135,94 registros por quilômetro quadrado, quase 190 vezes a densidade do Piauí.
Rio de Janeiro (70,93) e São Paulo (36,25) vêm na sequência. Os três estados formam o topo do ranking por densidade, todos com museus, universidades e institutos de pesquisa antigos e concentrados em áreas pequenas.
Por que a Amazônia aparece com tão poucos registros, apesar do tamanho?
A extensão territorial não é o problema: Amazonas, Pará e Roraima somam mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, um terço do Brasil. Falta é gente catalogando espécime por espécime nessas áreas remotas, de acesso caro e difícil.
Um estudo de 2016 já tinha medido esse padrão em bases brasileiras de biodiversidade, e ele reaparece agora nos números do GBIF: quanto mais longe das rodovias, das universidades e dos grandes centros urbanos, menos registro sobra na base pública.
Um estudo de 2016 já tinha encontrado o mesmo viés de coleta no Brasil
A pesquisadora Ubirajara Oliveira e outros doze autores analisaram 1,5 milhão de registros de artrópodes, vertebrados e plantas com flor do Brasil, publicada na revista Diversity and Distributions. O resultado: o viés de coleta afeta igualmente todos os grupos de bichos e plantas estudados.
A similaridade das espécies registradas caia quanto mais longe da estrada mais próxima ficava o ponto de coleta, segundo o artigo. Isso indica que áreas remotas, pouco visitadas por pesquisadores, guardam potencial alto para espécies ainda não descritas, e não menos vida silvestre.
O SiBBr liga o Brasil à rede mundial de dados sobre biodiversidade do GBIF
Mantido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o SiBBr atua como o nó brasileiro do GBIF, rede que reúne dados de cerca de 60 países. O suporte técnico é da ONU Meio Ambiente, e o financiamento vem do Fundo Global para o Meio Ambiente.
Cada museu, universidade ou projeto que publica seus dados nesse padrão internacional entra automaticamente na contagem usada nesta comparação. Quanto mais instituições de uma região participam, maior tende a ser a densidade de registros por quilômetro quadrado daquele estado.
São Paulo sozinho soma quase 9 milhões de registros catalogados no GBIF
São Paulo tem 8.998.025 registros, 21,6% de tudo que foi possível atribuir a um estado brasileiro no GBIF. Somado a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro, o trio do Sudeste concentra 38% do total classificado do país.
Em Belém, o Museu Paraense Emílio Goeldi mostra como funciona essa concentração em outra escala: guarda a segunda maior coleção de mamíferos do Brasil, mas segue perto de um único polo de pesquisa, o que também limita a cobertura do restante do Pará.
O mesmo padrão de lacuna apareceu no mapeamento das cobras brasileiras
Um atlas com 163 mil espécimes de 140 coleções, liderado por Cristiano Nogueira, da Universidade de São Paulo, e Otavio Marques, do Instituto Butantan, catalogou 412 espécies de cobra no Brasil, 163 delas endêmicas.
"Também são lugares com mais espécies descritas, porque estão próximas a centros de pesquisa", disse Marques sobre a concentração de registros perto de grandes cidades. Ele defende concentrar novas coletas em regiões mais distantes, o mesmo remédio que os números do GBIF sugerem para o Acre, onde uma nova espécie de rã foi descrita em 2026.
Nem toda lacuna do mapa é falta de bicho, e 8,1% dos registros não têm estado
No GBIF, o campo que indica o estado é preenchido livremente por cada base de dados, sem um padrão único, o que gera milhares de grafias diferentes para os mesmos 27 nomes. Depois de agrupar essas variações, 91,7% dos 45.504.351 registros do Brasil puderam ser atribuídos a um estado com segurança.
Os outros 8,3% ficam de fora do ranking por dois motivos. Em 8,1% dos casos não há nenhum valor de estado preenchido, muitas vezes por vir de levantamentos nacionais sem recorte geográfico fino. Os últimos 0,2% trazem grafia que não bateu com nenhum dos 27 nomes, caso de registros marcados só como "Brasil" ou de países vizinhos como a Argentina.
Os dados abertos do GBIF são atualizados todo mês, e a lacuna pode mudar
O GBIF publica atualizações mensais, com novos lotes de coleções digitalizadas e registros de ciência cidadã enviados por plataformas como o iNaturalist. Cada nova base publicada pode mudar a posição de um estado no ranking de densidade nos próximos meses.
Por enquanto, a distância entre o Piauí e o Distrito Federal segue enorme, e estados como o Amapá, com seus bichos translúcidos pouco fotografados, continuam entre os que mais precisam de atenção de pesquisadores. Você mora em um estado com poucos registros de biodiversidade? Conte a sua experiência com a fauna local nos comentários.



