Ciência

A NASA mandou ao espaço nesta quinta uma pequena nave que vai se aproximar de até quatro satélites desativados para medir seu estado, um ensaio para o dia em que será possível consertar ou retirar sucata da órbita

A órbita baixa da Terra está cheia de satélites que pararam de funcionar e continuam lá. Uma das três naves apoiadas pela NASA que subiram nesta quinta, 1º de outubro, foi feita para chegar perto dessa sucata e estudá-la. As outras duas testam um combustível novo e um telescópio de ultravioleta.

Foguete Falcon 9 sobe no céu azul da Califórnia levando a nave que vai inspecionar satélites desativados

O Falcon 9 da missão Transporter-18 sobe da Base Vandenberg, na Califórnia, em 1º de outubro de 2026. Foto: SpaceX, divulgada pela NASA.

A nave Otter 24C, da empresa Starfish Space, vai inspecionar até quatro satélites desativados de origem americana em órbita baixa. Ela subiu às 15h32 de Brasília desta quinta, 1º de outubro, num foguete Falcon 9, dentro da missão SSPICY da NASA. As inspeções começam em 2027.

O que a nave Otter vai fazer perto dos satélites desativados

A Otter vai se aproximar de cada alvo e coletar dados sobre a superfície, o formato e a órbita do objeto. Segundo a NASA, a demonstração e os dados vão ajudar a agência e a indústria a entender como naves poderão inspecionar e, no futuro, consertar satélites ou ajudar a retirá-los de órbita.

A missão deve durar cerca de dois anos. Os alvos são satélites que não funcionam mais, por isso a aproximação precisa ser feita sem nenhuma ajuda do objeto inspecionado.

Como chegar perto de algo que não colabora

Para isso, a Otter leva propulsão nova, um sistema autônomo de guiagem, navegação e controle e um software de navegação por visão computacional, que usa câmeras para calcular a aproximação com segurança. A Starfish também vai testar um braço robótico articulado que direciona o empuxo dos motores.

A NASA afirma que o SSPICY aproveita investimentos da agência em tecnologias de pequenas empresas voltadas a serviço em órbita e à avaliação de detritos orbitais.

Três naves pequenas num mesmo foguete

Pequenos satélites da missão Transporter-18 presos ao adaptador dentro da coifa aberta do Falcon 9 em Vandenberg
Os satélites da missão Transporter-18 antes de a coifa do foguete ser fechada, em Vandenberg, na Califórnia. Foto: SpaceX, divulgada pela NASA.

A Otter não viajou sozinha. O lançamento saiu da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia, na missão Transporter-18 da SpaceX, uma carona comercial em que as naves da NASA dividem o foguete com satélites de governos e empresas. A NASA tinha três naves a bordo.

MissãoO que levaObjetivo
SSPICY (Otter 24C, da Starfish Space)Propulsão nova, navegação autônoma e braço robótico articuladoInspecionar até quatro satélites americanos sem funcionamento
SPRITE (Universidade do Colorado)Telescópio de ultravioleta do tamanho de uma caixa de sapatoEstudar como gás, poeira e radiação escapam das galáxias
ASCENT Propulsion Dual Mode (NASA Marshall)Um propulsor químico e quatro elétricos com o mesmo combustívelTestar combustível menos tóxico que a hidrazina

As três naves apoiadas pela NASA no lançamento de 1º de outubro de 2026, segundo a agência.

Um telescópio de ultravioleta do tamanho de uma caixa de sapato

O SPRITE, da Universidade do Colorado em Boulder, mede cerca de 34 centímetros de comprimento por 23 de largura e altura. É o primeiro cubesat de astrofísica da NASA feito para captar uma faixa de luz ultravioleta que não chega ao chão.

Em um ano de missão, ele vai observar regiões de formação de estrelas e restos de estrelas que explodiram, dentro e perto da Via Láctea. A meta é entender como a radiação limpou o gás neutro e opaco que encobria o universo jovem.

Um combustível menos tóxico para satélites pequenos

O terceiro passageiro, o ASCENT Propulsion Dual Mode, testa duas formas de propulsão alimentadas pelo mesmo tanque: um propulsor químico para manobras fortes e quatro propulsores elétricos de baixa potência. O combustível ASCENT é mais seguro de manusear que a hidrazina e, segundo a NASA, tem densidade de impulso específico 50% maior.

A missão é liderada pelo Centro Marshall, da NASA, com o MIT e o Instituto de Tecnologia da Geórgia. O programa de lançamento de cubesats da agência escolheu o ASCENT em 2024 e o SPRITE em 2021.

Quanto lixo existe em órbita da Terra

O alvo da Otter é um problema que cresce. A Agência Espacial Europeia contou cerca de 40 mil objetos rastreados em órbita no relatório de 2025, dos quais só uns 11 mil são satélites ativos. O resto inclui satélites desativados, partes de foguetes e fragmentos.

Gráfico com 11 mil satélites ativos, 40 mil objetos rastreados e mais de 50 mil detritos acima de 10 centímetros em órbita, contexto dos satélites desativados
Objetos em órbita da Terra segundo o relatório de 2025 da Agência Espacial Europeia: só uma parte do que é rastreado ainda funciona. Arte: Watts & Wild, com dados da ESA.

Os objetos acima de 1 centímetro, grandes o bastante para causar estrago catastrófico numa colisão, passam de 1,2 milhão pela estimativa da ESA. Mais de 50 mil têm mais de 10 centímetros.

O risco da reação em cadeia em órbita baixa

A ESA lembra o consenso científico de que, mesmo sem nenhum lançamento novo, o número de detritos continuaria a crescer em algumas órbitas, porque fragmentos colidem e geram mais fragmentos. Esse efeito dominó tem nome: síndrome de Kessler. Ele pode deixar faixas de órbita inseguras e sem uso.

É aí que entra a inspeção. Antes de pensar em retirar um satélite morto, é preciso saber como está a superfície dele, qual é o formato e como ele se move. Esse é o tipo de dado que a Otter vai buscar a partir de 2027.

O que isso muda para quem está na Terra

Satélites de internet e de observação da Terra dividem a órbita baixa com a sucata, e a ESA relata que os alertas que exigem manobra para evitar colisão sobem a cada ano. Astronautas também vivem nessa faixa, como os da missão Crew-13 à Estação Espacial.

Satélites científicos, como o que filmou a aurora boreal por 45 horas seguidas, também dependem de órbitas limpas para funcionar durante anos.

O que a missão ainda não faz

A Otter 24C não vai capturar nem retirar nenhum satélite. É uma demonstração de inspeção, e o comunicado da NASA descreve os alvos apenas como satélites americanos inoperantes em órbita baixa. O conserto ou a remoção de sucata em órbita continuam sendo planos para missões futuras, que dependem do que este teste mostrar.

Os números da ESA são de 2025 e mudam com lançamentos e fragmentações. A agência europeia também trata como estimativa a contagem de objetos pequenos demais para serem rastreados. Para outra pesquisa da NASA voltada ao futuro no espaço, veja o plástico feito por bactéria com poeira da Lua e de Marte.

Fontes: NASA, blog de pequenos satélites, 1º/10/2026; ESA, Relatório do Ambiente Espacial 2025. Conversões de medidas e horário: Watts & Wild.

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