Ciência e tecnologia

O satélite Smile, da agência espacial europeia e da Academia Chinesa de Ciências, filma o anel inteiro da aurora boreal por 45 horas seguidas, um recorde segundo a ESA, e ganhou aval em 23 de setembro para começar a ciência

A câmera ultravioleta do satélite é a primeira desde 2008 a registrar o anel completo das luzes do norte, e ainda tem uma câmera de raio X ajustando o foco. Veja as primeiras imagens, como a missão chegou lá e o que ela vai medir a partir de agora.

Anel da aurora boreal em volta do Polo Norte visto em luz ultravioleta pela câmera do satélite Smile, em tons de azul e lilás, com a borda da Terra iluminada à direita

O anel da aurora boreal em volta do Polo Norte, em luz ultravioleta, em 4 de agosto de 2026: a primeira imagem divulgada da câmera UVI da Smile. Imagem: ESA e CAS/Smile/UVI, CC BY-SA 3.0 IGO, ESA.

Sim, e por um tempo recorde. Segundo a ESA, a câmera ultravioleta do satélite Smile grava o anel inteiro da aurora boreal por 45 horas seguidas. É a primeira câmera desde 2008 a registrar o anel completo das luzes do norte em luz ultravioleta.

A Smile é uma missão da Agência Espacial Europeia, a ESA, com a Academia Chinesa de Ciências. Em 23 de setembro, ela foi declarada pronta para começar a ciência, segundo o comunicado da ESA publicado nesta quarta-feira, 30.

O objetivo é entender como a Terra reage ao vento solar, o fluxo de partículas com carga elétrica que sai do Sol o tempo todo.

O que a câmera da aurora boreal já mostrou?

A câmera ultravioleta, chamada UVI, foi ligada em 16 de julho. O primeiro vídeo divulgado é de 24 de julho e mostra o anel da aurora se agitando, por causa de uma perturbação no campo magnético da Terra provocada por uma rajada de vento solar.

A primeira imagem, de 4 de agosto, pegou o anel num momento especialmente ativo. Segundo a ESA, o vento solar achata as linhas do campo magnético da Terra e dispara partículas em direção aos polos, o que acende as luzes do norte e do sul.

Esses episódios, chamados subtempestades, não são raros: a ESA espera cerca de 300 nos três anos de operação previstos. Neste momento eles são mais comuns, porque o Sol está no ponto mais ativo do ciclo de 11 anos, diz a agência.

Por que filmar 45 horas seguidas importa?

Uma aurora muda de forma em minutos. Filmar o anel inteiro por quase dois dias sem parar permite acompanhar uma tempestade do começo ao fim, em vez de pegar só pedaços dela.

Foi por isso que a ESA destacou os dois números: 45 horas de gravação, um recorde, e o anel completo em volta do Polo Norte, algo que nenhuma câmera fazia desde 2008.

A câmera de raio X ainda está ajustando

A outra câmera, de raio X, chamada SXI, é a principal contribuição europeia à missão. Ela já foi ligada e fez as primeiras imagens de teste, apontada para restos de estrelas que explodiram.

O problema: quando aponta para a Terra, ela capta luz indesejada demais. A equipe está mudando configurações e o software a bordo. Como o satélite se afasta da Terra e o Polo Norte emite menos luz com a chegada do inverno de lá, essa luz deve cair ao mínimo em meados de outubro.

Aí, segundo a ESA, a câmera poderá fazer a primeira imagem boa da magnetopausa, a fronteira onde o vento solar bate no campo magnético da Terra, ou da cúspide polar, um buraco nesse escudo sobre o Polo Norte por onde as partículas do Sol descem.

Primeira imagem de teste da câmera de raio X da Smile: um ponto brilhante em forma de cruz sobre fundo laranja e grade de coordenadas azul
Primeiro teste da câmera de raio X: o ponto brilhante é Cassiopeia A, o que sobrou de uma estrela que explodiu a cerca de 11 mil anos-luz. Imagem: ESA, CC BY-SA 3.0 IGO, ESA.

Os quatro instrumentos da Smile

O satélite leva quatro aparelhos de ciência:

Câmera de raio X (SXI): vai fotografar a fronteira entre o vento solar e o campo magnético da Terra.

Câmera ultravioleta (UVI): filma as auroras em volta do Polo Norte.

Magnetômetro (MAG): mede o campo magnético por onde o satélite passa.

Analisador de íons leves (LIA): mede as partículas do vento solar.

A ESA fez a câmera de raio X, o módulo que leva três dos quatro instrumentos e o foguete, e contribuiu com a câmera ultravioleta. A Academia Chinesa de Ciências fez os outros três instrumentos e a plataforma do satélite, e comanda a operação em órbita.

Como a Smile chegou até lá

A Smile decolou em 19 de maio de 2026, num foguete europeu Vega-C, da base de Kourou, na Guiana Francesa. Depois, acendeu o motor principal 12 vezes para subir até a órbita de trabalho, alcançada em 20 de junho.

De lá até setembro, equipes da Europa e da China abriram mecanismos, ligaram os equipamentos, testaram a comunicação com a Terra e resolveram os problemas que apareceram. Segundo a ESA, a missão saiu de um punhado de peças soltas para a coleta de dados em pouco mais de dois anos.

Ilustração da ESA com as órbitas da Smile em volta da Terra: várias elipses azuis cada vez maiores e a órbita final, alongada, em rosa
As subidas da Smile até a órbita de trabalho, alcançada em 20 de junho: o motor principal foi aceso 12 vezes. Último quadro da animação da ESA. Imagem: ESA, com ATG Europe, CC BY-SA 3.0 IGO, ESA.
Linha do tempo da Smile em 2026: decolagem em 19 de maio, órbita em 20 de junho, câmera ligada em 16 de julho, vídeo em 24 de julho, imagem em 4 de agosto e aval para a ciência em 23 de setembro
A Smile em 2026, com as datas divulgadas pela ESA. Arte: Watts & Wild.

O que isso tem a ver com quem está na Terra?

Segundo a ESA, os dados da Smile vão ajudar a entender tempestades solares, tempestades geomagnéticas e o chamado clima espacial. É a atividade do Sol que acende as auroras e que pode afetar equipamentos eletrônicos na Terra e em órbita.

No Brasil, a relação do país com o campo magnético tem um capítulo próprio, a Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Ela já apareceu aqui no site, em por que a anomalia favorece aurora no Rio Grande do Sul.

O que ainda falta

A câmera de raio X, a que deve mostrar a fronteira do campo magnético, ainda não fez a imagem que justifica a missão. Isso depende de a luz indesejada cair, o que a ESA espera para meados de outubro.

E as imagens divulgadas até agora são de teste e de estreia. A ciência de verdade começa agora, com três anos de operação previstos.

Tem mais espaço aqui no site. Veja a sonda Juice passando perto da Terra e o Ano-Novo em Marte, que começa hoje.

Perguntas rápidas

O que é a missão Smile?

É um satélite da Agência Espacial Europeia, a ESA, com a Academia Chinesa de Ciências. Ele estuda como a Terra reage ao vento de partículas que sai do Sol, o fenômeno que acende as auroras. Decolou em 19 de maio de 2026 e ganhou aval para começar a ciência em 23 de setembro.

Por quanto tempo a Smile filma a aurora?

Segundo a ESA, a câmera ultravioleta grava a aurora boreal por 45 horas seguidas, um recorde. Desde 2008 nenhuma câmera no espaço registrava o anel inteiro da aurora em volta do Polo Norte em luz ultravioleta.

Por que a aurora aparece em azul e lilás na foto?

Porque a câmera enxerga luz ultravioleta, que o olho humano não vê. As cores da imagem representam essa luz, e o anel brilhante é a aurora em volta do Polo Norte.

A Smile ajuda a prever tempestade solar?

A ESA diz que os dados vão ajudar a entender tempestades solares, tempestades geomagnéticas e o clima espacial, que podem afetar equipamentos eletrônicos na Terra e em órbita.

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