Cientistas da NASA escalaram penhascos da costa da Escócia atrás de rochas com sinais de micróbios de 1,2 bilhão de anos para entender as manchas que o robô Perseverance achou numa pedra de Marte e que podem indicar vida antiga
Em 2025, a NASA anunciou que uma amostra recolhida em Marte pode guardar sinais de vida microbiana antiga. Para saber como interpretar esses sinais, uma equipe foi às Terras Altas da Escócia, onde rochas parecidas com as de lagos e rios marcianos carregam marcas de micróbios de antes das plantas.
Pesquisadores da NASA e de universidades procuram manchas de redução nas rochas da Baía de Stoer, na Escócia, durante a expedição de 2026. Foto: NASA/Pedro Cota, via NASA.
A NASA mandou uma equipe à formação de Stoer, na Escócia, porque as rochas de lá se formaram em ambientes parecidos com antigos lagos e rios de Marte e guardam sinais de micróbios de 1,2 bilhão de anos. Elas ajudam a interpretar a possível pista de vida em Marte achada pelo Perseverance, segundo a agência.
A pista de vida em Marte que motivou a viagem
Em julho de 2024, o Perseverance encontrou na cratera Jezero uma rocha em forma de ponta de flecha, de cerca de 1 metro por 60 centímetros, apelidada de Cheyava Falls. Dela saiu a amostra Sapphire Canyon. Em setembro de 2025, um artigo na revista Nature descreveu ali uma bioassinatura em potencial, segundo o comunicado da NASA.
Bioassinatura em potencial é uma substância ou estrutura que pode ter origem biológica, mas que precisa de mais dados antes de qualquer conclusão sobre vida.
As manchas de leopardo e o que elas contêm
Os instrumentos do robô viram na rocha pontos coloridos, apelidados de manchas de leopardo. Elas trazem dois minerais ricos em ferro: vivianita, um fosfato de ferro, e greigita, um sulfeto de ferro. Na Terra, a vivianita aparece em sedimentos, turfeiras e perto de matéria orgânica em decomposição, e certos micróbios produzem greigita.
A rocha também é rica em carbono orgânico, enxofre, ferro oxidado e fósforo. Para a NASA, esse conjunto poderia ter servido de fonte de energia para micróbios.
Por que a resposta pode estar na Escócia
Hoje Marte é seco, mas sua paisagem, como a da Terra, foi moldada por água corrente. Os dois planetas têm camadas de lamitos e siltitos ricos em argila. Aprender como sinais de vida antiga aparecem nas rochas escocesas ajuda a entender como esses sinais podem ser preservados e detectados em Marte.
A formação de Stoer junta duas coisas difíceis de achar na Terra: ambientes parecidos com os antigos lagos e rios marcianos e evidências de vida microbiana de 1,2 bilhão de anos atrás, quando ainda não havia plantas em terra firme.
Manchas de redução, as primas escocesas
O alvo da equipe foram as manchas de redução, pontos cinza-esverdeados no arenito vermelho. O estudo foi inspirado justamente pelas manchas desse tipo que o Perseverance achou em Jezero, sinal de uma reação química que pode apontar para vida microbiana antiga.
A legenda da própria NASA faz a ressalva: essas manchas às vezes são evidência de micróbios antigos interagindo com a rocha, mas também podem se formar de outras maneiras.
| Escócia (Stoer) | Marte (Jezero) | |
|---|---|---|
| O que foi achado | Manchas de redução em arenito vermelho | Manchas de leopardo na rocha Cheyava Falls |
| Idade ou contexto | Rochas com sinais de micróbios de 1,2 bilhão de anos | Leito de rio seco, entre as rochas sedimentares mais jovens vistas pela missão |
| Quem estudou | Equipe de campo do Centro Goddard, da NASA, e universidades | Robô Perseverance, com os instrumentos PIXL e SHERLOC |
| Situação | Amostras levadas a laboratórios para análise | Bioassinatura em potencial, sem confirmação de vida |
Comparação entre o local de estudo na Escócia e a rocha de Marte que motivou a expedição, segundo a NASA.
Trabalho de campo entre uma maré e outra
A equipe de instrumentos de campo do Centro Goddard percorreu a costa e os penhascos da região de Clachtoll com os instrumentos nas costas. Num dos pontos, a água sobe e desce de 3,4 a 4,6 metros com a maré, e as subidas precisavam caber entre duas marés altas.
Com aparelhos portáteis, os cientistas mediram na hora a composição química e mineral das rochas, observaram o ambiente e escolheram amostras para levar. A expedição teve participação das universidades de Glasgow, Maryland, Purdue, Stony Brook e Cambridge.
O que acontece com as amostras agora
As rochas seguem para laboratórios nos Estados Unidos e em outros países, com equipamentos que não cabem numa mochila. A ideia é entender melhor os dados de Marte, ajudar a planejar novas investigações de robôs e preencher lacunas sobre a história geológica da própria Terra.
Esse tipo de estudo, chamado de pesquisa de análogos planetários, usa ambientes extremos da Terra para entender outros mundos. Marte segue no centro dessa busca, como mostramos no ano novo marciano, e a NASA testa até plástico feito por bactéria com poeira da Lua e de Marte.
O que a descoberta em Marte mudou
A surpresa foi a idade relativa. Cheyava Falls está entre as rochas sedimentares mais jovens que a missão investigou, e havia a hipótese de que sinais de vida estariam só em rochas mais antigas. Para a NASA, Marte pode ter sido habitável por mais tempo do que se pensava.
Na Terra, rochas antigas como as de Stoer e as da Paraíba, que guardam pistas sobre a explosão da vida, são o arquivo que permite comparar.
Por que ainda não é prova de vida em Marte
Os minerais das manchas de leopardo também podem surgir sem vida, por calor intenso e prolongado, ambiente ácido ou ligação com compostos orgânicos. As rochas de Bright Angel não mostram sinais de calor alto nem de acidez, mas a cientista do projeto, Katie Stack Morgan, disse que explicações sem vida não podem ser descartadas.
A expedição na Escócia não analisa a amostra marciana. Ela cria um padrão de comparação na Terra, e as análises de laboratório ainda estão sendo preparadas, segundo a NASA.
Fontes: NASA, blog Planetary Expeditions, 29/09/2026; NASA, comunicado sobre a bioassinatura em potencial, 10/09/2025. Conversões de medidas: Watts & Wild.



