Ciência

Sinal de rádio mais distante vem de galáxia anã, diz o Webb

Uma explosão rápida de rádio dura milésimos de segundo, e ninguém sabe ao certo o que a provoca. A detectada em março de 2024 é a mais distante já localizada. O Webb achou a casa dela: uma galáxia anã, bem menor que o esperado, que ainda fazia estrelas.

Campo profundo do Webb com milhares de galáxias e estrelas com picos de luz, com a galáxia anã do sinal de rádio mais distante em destaque

Campo do telescópio espacial James Webb, com a galáxia anã do FRB 20240304B no quadro ampliado. Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI, T. Nanayakkara (USYD); processamento: J. DePasquale (STScI), via ESA/Webb, licença CC BY 4.0, recortada.

O sinal de rádio mais distante já registrado vem de uma galáxia anã, e não de uma galáxia grande e madura, como os astrônomos esperavam. A descoberta foi anunciada em 8 de outubro de 2026 pela ESA/Webb e publicada na revista Science, em estudo liderado por Manisha Caleb, da Universidade de Sydney (Austrália).

O que é uma explosão rápida de rádio

Explosões rápidas de rádio, ou FRBs, são clarões de ondas de rádio que duram milissegundos e vêm do universo distante. Os primeiros foram descobertos em 2007. A origem segue incerta, em parte porque a maioria só foi vista uma vez e nunca mais se repetiu.

Mesmo assim, o clarão é tão forte que os radiotelescópios o detectam de bilhões de anos-luz. Quem ou o que liberou essa energia em tão pouco tempo é a pergunta que a equipe quis responder.

A detecção do sinal em março de 2024

A equipe do projeto MeerTRAP detectou a explosão em 4 de março de 2024, com o radiotelescópio MeerKAT. O sinal recebeu o nome FRB 20240304B. Os dados de rádio indicavam que ele vinha de muito longe, talvez do ponto mais distante já visto.

Para confirmar, faltava achar a galáxia de origem. A posição era conhecida com precisão, mas os maiores telescópios terrestres não enxergavam galáxia nenhuma naquele ponto do céu. Os astrônomos recorreram ao Webb.

Onde estava o sinal de rádio mais distante

Recorte do campo do Webb com a galáxia anã azulada dentro de um quadro ampliado, marcada por uma cruz branca no ponto do sinal de rádio
A galáxia anã que hospeda o FRB 20240304B, no quadro ampliado, com a cruz branca no ponto onde o sinal foi detectado. Imagem do NIRCam. Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI, T. Nanayakkara (USYD); processamento: J. DePasquale (STScI), via ESA/Webb, licença CC BY 4.0, recortada.

A câmera NIRCam do Webb detectou uma galáxia exatamente na posição do sinal. O espectrógrafo NIRSpec mediu o redshift dela: 2,148. Esse valor corresponde a um momento cerca de 3 bilhões de anos depois do Big Bang, segundo a ESA/Webb.

A grande maioria dos FRBs conhecidos aconteceu bilhões de anos depois na história do cosmos. Este vem de uma época bem mais cedo.

Como o Webb mede a distância pela luz

O universo está em expansão, e isso estica a luz que viaja pelo espaço. Quanto maior o redshift, mais longe a luz andou. Por isso a luz das galáxias mais distantes chega em infravermelho, a faixa em que o Webb enxerga.

Gráfico do espectro da galáxia hospedeira do sinal de rádio, com picos de luz do oxigênio e do hidrogênio e o redshift 2,148 indicado
Espectro da galáxia hospedeira medido pelo NIRSpec, com o redshift de 2,148 indicado. Crédito: NASA, ESA, CSA, J. Olmsted (STScI); ciência: M. Caleb (SIfA), via ESA/Webb, licença CC BY 4.0.

Três bilhões de anos ou mais de dez bilhões?

Algumas manchetes falam em um sinal de mais de 10 bilhões de anos, e o comunicado fala em 3 bilhões. Os dois números estão certos, mas medem coisas diferentes. O primeiro conta a idade do universo quando o sinal partiu. O segundo, quanto tempo ele levou para chegar até nós.

QuantidadeValorDe onde vem
Redshift da galáxia2,148Medido pelo NIRSpec, segundo a ESA/Webb
Idade do universo quando o sinal partiuCerca de 3 bilhões de anosComunicado da ESA/Webb
Idade atual do universoCerca de 13,8 bilhões de anosValor padrão da cosmologia, fora do comunicado
Tempo de viagem do sinal até aquiMais de 10 bilhões de anosConta da redação: 13,8 menos 3

Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado weic2621 da ESA/Webb de 8 de outubro de 2026.

Uma anã mil vezes menos massiva que o esperado

Quase todas as galáxias com FRB conhecidas são grandes e formam muitas estrelas. Esta tinha mil vezes menos massa que a equipe previa. Ainda assim, estava ativa: a taxa de formação de estrelas sugere que a maior parte delas surgiu em apenas 30 milhões de anos.

“Achávamos que seria uma galáxia grande, bem formada, com muitas estrelas, e era uma galáxia anã”, disse Caleb. Ben Stappers, da Universidade de Manchester (Reino Unido), coautor, afirmou que ela se destaca de todas as outras da amostra.

Fusão de estrelas de nêutrons ou magnetar jovem

Duas teorias disputam a origem dos FRBs. Na primeira, duas estrelas de nêutrons se fundem. Mas elas levam bilhões de anos para se aproximar e colidir, então esse cenário pede galáxias velhas.

Na segunda, um magnetar jovem, uma estrela de nêutrons de campo magnético extremo, produz o sinal por um mecanismo como os terremotos estelares. Ele surge logo depois que uma estrela massiva explode, e por isso aparece em galáxias jovens, como esta.

“Nosso trabalho sugere que é muito improvável que esse FRB tenha sido produzido por uma fusão”, disse Caleb. A galáxia existia no auge do chamado meio-dia cósmico, período em que a formação de estrelas no universo atingiu o pico.

O sinal que também iluminou o caminho

J. Xavier Prochaska, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (EUA), compara o FRB a uma lanterna cósmica, que ilumina tudo o que encontra no trajeto.

Na assinatura do sinal a equipe achou dois objetos: um aglomerado de galáxias até então desconhecido, a cerca de 3,5 bilhões de anos-luz, e o Aglomerado de Virgem, a 54 milhões de anos-luz.

Outras luzes antigas do cosmos já apareceram aqui, como o clarão de raios X de 13 minutos do Einstein Probe, e a luz de galáxias remotas ajuda a explicar a cor média do universo.

Quantos sinais assim ainda virão

Segundo a equipe, o MeerKAT deve conseguir detectar e localizar vários FRBs por ano com redshift acima de 1,0, ou seja, de mais da metade do caminho de volta ao início do universo.

Novos radiotelescópios podem acelerar o ritmo, e o Webb continua necessário para estudar as galáxias de cada um. O telescópio também já mostrou outras galáxias ampliadas por lentes gravitacionais.

O que o comunicado ainda deixa em aberto

A origem em magnetares é uma indicação, não uma prova. Este é um único sinal, e a própria equipe diz que a conclusão sobre fusões vale para ele, não para todos os FRBs.

Os números deste texto vêm dos comunicados da ESA/Webb e da NASA. O estudo completo está na Science, no link das fontes abaixo.

Fontes: ESA/Webb, comunicado weic2621, 8 de outubro de 2026. NASA, comunicado sobre o FRB mais distante. Caleb et al., Science (DOI 10.1126/science.adz2675). Imagens: ESA/Webb weic2621a e weic2621b.

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