Ciência e tecnologia

Selfie no Instagram revela nova vitória-régia gigante na Colômbia

Um viveirista dos EUA postou fotos de uma vitória-régia no Instagram sem saber que tinha achado algo novo. Anos depois, a desconfiança de um botânico do Kew, imagens de satélite e uma expedição de cinco dias na Colômbia confirmaram: é uma espécie nova, hoje com 30 a 50 plantas estimadas.

Botão de vitória-régia gigante aberto sobre a água, com espinhos e pétalas rosa e brancas, parente da nova espécie colombiana

Foto de arquivo: botão da vitória-régia comum (Victoria amazonica), parente da espécie colombiana, em Nilambur (Índia). Foto: Vinayaraj, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

Uma foto no Instagram levou à descrição da Victoria colombiana, uma espécie nova de vitória-régia que cresce no rio Inírida, na Colômbia. O artigo saiu em 9 de outubro de 2026 na revista Phytotaxa, segundo o comunicado do Royal Botanic Gardens, Kew.

Como uma vitória-régia gigante apareceu num selfie

Carlos Magdalena, horticultor e pesquisador do Kew e especialista em vitórias-régias, viu no Instagram fotos feitas na região de Inírida por Jeremiah Harris, que tem um viveiro de plantas carnívoras nos EUA. Harris tinha identificado a planta como Victoria amazonica, a espécie mais comum.

Magdalena desconfiou. A área natural das vitórias-régias conhecidas não chega ao rio Inírida, que fica em Guainía, na cabeceira do Orinoco. O jornal The Guardian descreve a imagem como a de uma pessoa nadando entre as plantas, e daí vem o “selfie” da manchete.

Satélite, parceiros locais e cinco dias de rio

Para checar a suspeita, Magdalena vasculhou imagens de satélite da região até achar folhas de vitória-régia de uma mesma planta, visíveis do espaço. Harris confirmou que eram as mesmas plantas mostradas a ele pelos guias locais.

Magdalena chamou então Mauricio Bernal, do Jardim Botânico de Bogotá. Com membros de reservas indígenas, entre eles Nilo Rodríguez, Jaime Hernández e Gustavo Melo, a equipe passou quase dois anos planejando a viagem, segundo o Kew.

Barco pequeno com pessoas cruzando a água calma do rio Inírida ao entardecer, com a floresta escura ao fundo
O rio Inírida perto de Puerto Inírida (Guainía), em dezembro de 2015. A foto é de arquivo e não mostra o local da descoberta. Foto: Sierraluisfer, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

A viagem de 1h da manhã que salvou a expedição

No quinto dia, os pesquisadores tinham achado só duas plantas, sem flor. Sem flor, não há exemplar de herbário completo, e é com ele que botânicos comparam espécies. O nível alto da água também prejudicava as plantas.

Na véspera do voo de volta, marcado para as 9h, o barqueiro Gustavo Melo, da comunidade Tucano, disse saber onde havia mais. Eles saíram à 1h, no escuro, para dentro da floresta alagada, e chegaram a um pequeno lago perto do amanhecer.

Ali havia mais cinco plantas, uma delas florida. No total, a equipe registrou sete plantas em dois lagos e voltou ao aeroporto a tempo do voo. Uma análise posterior de geoprocessamento apontou um terceiro lago.

Os números da descoberta em uma tabela

DadoO que se sabeQuem informa
EspécieVictoria colombiana, nova no gênero VictoriaKew e Phytotaxa
OndeRio Inírida e lagos vizinhos, em Guainía, alto OrinocoKew
ExpediçãoCinco dias, com o Jardim Botânico de Bogotá e reservas indígenasKew
Plantas vistasSete, em dois lagos; um terceiro lago veio de análise de satéliteKew
Estimativa na natureza30 a 50 plantasEquipe da descoberta, via Kew
StatusAvaliação da Lista Vermelha da UICN em preparo, para Criticamente em PerigoKew

Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado do Kew publicado em 9 de outubro de 2026.

Pantanal também entra na conta

O resumo do artigo na Phytotaxa propõe reconhecer duas espécies novas: a colombiana e a Victoria mattogrossensis, da região do Pantanal. Com elas, o gênero passa a ter cinco espécies aceitas. O comunicado do Kew cita três outras além da colombiana (amazonica, cruziana e boliviana).

Folhas circulares de Victoria boliviana com borda rosada flutuando num tanque de estufa, cercadas por plantas tropicais
Folhas de Victoria boliviana, parente da espécie nova, na estufa Princess of Wales do Kew Gardens (Reino Unido), em julho de 2022. Foto: E. Johnston, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

Os autores também apontam que as sementes não têm dispersores animais conhecidos e não toleram ressecamento. Por isso, rios e enchentes são o principal meio de dispersão, e o isolamento das bacias desde o Plioceno pode ter dado origem a espécies diferentes.

Para o leitor brasileiro, a ligação com o Pantanal mostra que a diversidade das plantas aquáticas ainda é mal conhecida. É o mesmo fio de uma rã nova achada em floresta alagada do Acre e de 57 espécies novas num cânion argentino.

Por que a espécie já nasce ameaçada

A equipe calcula que existam de 30 a 50 plantas na natureza. Com tão poucas, o Kew afirma que a espécie é extremamente rara e está sob risco de extinção. Os pesquisadores trabalham em uma avaliação oficial da UICN, para classificá-la como Criticamente em Perigo.

O Kew diz que imagens de satélite de períodos de seca podem mostrar mais plantas. Mas é na cheia, com a floresta inundada, que o barco chega aos lagos. Na seca, o acesso a pé é mais difícil.

O plano para proteger a Victoria colombiana

O Kew lista duas frentes. Uma é coletar sementes para cultivar plantas em Bogotá e estudar a espécie sob controle. A outra é criar uma população em um lago mais acessível, dentro de território indígena, que também poderia atrair ecoturismo.

Magdalena resumiu a prioridade no comunicado: agora que a planta é conhecida, é preciso entendê-la melhor e protegê-la. Se o cultivo der certo, ela poderá um dia ser vista no Kew ao lado de amazonica, cruziana e boliviana.

O que ainda não está fechado

O número de 30 a 50 plantas é uma estimativa da equipe, e a classificação como Criticamente em Perigo ainda depende de avaliação formal da UICN. O Kew cita “até 2 metros” para as folhas do gênero, sem medida específica da espécie nova.

A palavra “selfie” vem da imprensa. O Kew fala em fotos tiradas por Harris, e a capa desta página mostra a vitória-régia comum, não a espécie colombiana.

Quem quiser conferir pode ler o comunicado do Kew e o resumo na Phytotaxa. Outra riqueza botânica brasileira está em por que o Brasil tem tantas orquídeas.

Fontes: Royal Botanic Gardens, Kew, comunicado de 9 de outubro de 2026. Phytotaxa 778(2), resumo do artigo. The Guardian, 9 de outubro de 2026.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.