Perda de gelo na Antártica é inevitável neste século, diz estudo
A pergunta que travava a glaciologia há anos parecia simples: o continente mais frio do planeta ganha ou perde gelo até 2100? Uma equipe internacional testou centenas de milhares de futuros e voltou com uma resposta incômoda, mas com uma margem que ainda está nas mãos de quem emite.
Montanhas rochosas emergindo do gelo na região da Península Antártica, em foto aérea de 2004. Foto: Jim Ross/NASA, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.
A Antártica deve perder mais gelo do que ganha até 2100, mesmo que o mundo zere as emissões de carbono por volta de 2050. A chance é de pelo menos 92%, segundo estudo publicado em 30 de setembro de 2026 na revista Nature Geoscience.
O resultado vale até para o cenário que limita o aquecimento a 1,5 °C, a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris. Em artigo no The Conversation, os autores resumem a conclusão com uma palavra dura: inevitável.
Como a equipe chegou à perda de gelo na Antártica
Os pesquisadores cruzaram centenas de milhares de cenários possíveis para o futuro do manto de gelo e deram mais peso aos que batem com as medições de satélite de 2002 a 2021. Os cenários que sobraram apontam para o mesmo lado: saldo negativo de gelo neste século.
A conta importa porque o continente guarda gelo suficiente para elevar o nível global do mar em cerca de 58 metros, segundo os autores. Hoje cerca de 1 bilhão de pessoas vivem em áreas costeiras, e 100 milhões delas a menos de 1 metro acima do mar.
Por que a ciência demorou a chegar a um consenso
O futuro do gelo depende de uma cadeia de etapas. As emissões definem quanto o oceano e o ar ao redor da Antártica esquentam, e esse calor derrete as plataformas de gelo nas bordas do continente. Com elas mais finas, as geleiras deslizam mais rápido para o mar.
As plataformas funcionam como freios, descreve a Rutgers: flutuam na beira do continente e seguram as geleiras que ficam atrás. Quando a água quente as derrete por baixo, o freio perde força e as geleiras avançam mais depressa.
Cada etapa carrega suposições em que os cientistas ainda discordam, como o jeito em que as plataformas desabam. As diferenças se somam de uma etapa para a outra, o que os autores chamam de incerteza em cascata. Por isso grupos diferentes chegavam a respostas opostas.
A neve entra na disputa. Ar mais quente carrega mais umidade, então deve nevar mais na Antártica, e em algumas projeções essa neve extra compensa o gelo perdido e o manto cresce. O novo estudo achou muito improvável que ela reponha todo o gelo que o continente perde.
Como o aprendizado de máquina encurtou uma conta de dias
Cada simulação do manto de gelo roda com um único conjunto de premissas e pode ocupar um supercomputador por dias. Nenhuma equipe consegue testar todas as combinações. Os autores partiram do arquivo de simulações do projeto internacional ISMIP6 e treinaram nele um modelo de aprendizado de máquina baseado em física.
O modelo faz numa fração de segundo o que os modelos originais levavam dias para fazer, com precisão parecida na variação do nível do mar, dizem os autores. A velocidade permitiu rodar milhões de combinações e comparar os futuros possíveis com satélites que detectam pequenas variações na gravidade da Terra.
O que ainda dá para decidir
A má notícia vem com uma margem de manobra. Segundo os autores, cada tonelada de gás de efeito estufa que deixa de ser emitida hoje reduz o gelo perdido neste século, e o benefício dura centenas de anos.
“O que ainda controlamos é quanto, e se vamos disparar a reação em cadeia que nos leva ao extremo mais alto”, disse Yucheng Lin, professor assistente da Universidade da Cidade de Hong Kong, em tradução livre do comunicado da Rutgers.
Pela conta da equipe, há pelo menos 89% de chance de que o cenário mais ambicioso do Acordo de Paris termine o século com menos perda de gelo antártico do que o de emissões muito altas. A tabela reúne os números do comunicado.
| Pergunta do estudo | O que a equipe achou |
|---|---|
| A Antártica perde gelo no século mesmo com emissões zeradas por volta de 2050? | Muito provável: pelo menos 92% de chance |
| O cenário mais ambicioso do Acordo de Paris perde menos gelo que emissões muito altas? | Pelo menos 89% de chance |
| A neve extra de um clima mais quente repõe o gelo perdido? | Muito improvável que reponha tudo |
| Quanto o mar sobe só pela Antártica em 2100, com emissões muito altas? | Mediana de cerca de 15 cm e limite superior de cerca de 25 cm |
| O que mais pesa na incerteza? | Derretimento sob as plataformas, deslizamento sobre a rocha e ritmo de aquecimento do oceano e do ar |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado da Rutgers de 30 de setembro de 2026. As conversões de polegadas para centímetros são da redação.
Quanto o mar sobe só por causa da Antártica
Com emissões muito altas, a análise das combinações de maior perda que ainda batem com os satélites dá mediana de cerca de 6 polegadas de mar mais alto por causa da Antártica em 2100, e limite superior de cerca de 10.
Em centímetros, a conta é de cerca de 15 e 25. Isso vale para a Antártica sozinha, no cenário em que as emissões continuam muito altas até o fim do século.
Os autores avisam que esse é um desfecho possível de alto impacto, e não a previsão central do estudo. Os 25 cm também não são teto e contam só a Antártica, sem a água da Groenlândia e das geleiras de montanha nem a expansão do mar quando esquenta.
No The Conversation, eles estimam que até 25 cm só pela Antártica bastariam para inundar de forma permanente as casas de mais de 10 milhões de pessoas. O gelo da Groenlândia entra nessa soma à parte, e os vales escondidos sob o manto de gelo já apareceram aqui.
No outro polo, o gelo do Ártico fechou 2026 com o 10º menor mínimo da série. E a vida no próprio continente branco é tema de um achado sobre krill perto de fontes hidrotermais.
O que o modelo ainda não enxerga
A equipe admite que o estudo está longe de ser a palavra final. O modelo só aprende com o que as simulações originais já continham. Ficaram de fora o jeito como o gelo racha, algumas interações entre gelo, oceano e atmosfera e a água que corre sob o manto.
Essas lacunas, reconhecem os pesquisadores, deixam aberta a chance de resultados além dos projetados. Das mais de 20 suposições físicas, três pesam mais: como as plataformas respondem ao oceano quente, como o gelo desliza sobre a rocha e a rapidez com que o oceano e o ar ao redor esquentam.
Leia a palavra do título com cuidado. Inevitável é a síntese dos autores no The Conversation. No comunicado da Rutgers, a conclusão aparece como probabilidade: perda de gelo muito provável, de pelo menos 92% no cenário mais ambicioso.
Robert Kopp, professor da Rutgers e coautor, lembra que as comunidades decidem agora sobre prédios e obras que vão durar décadas. O artigo completo está na Nature Geoscience, com o DOI 10.1038/s41561-026-02102-1.
Fontes: Rutgers, comunicado de 30 de setembro de 2026. Nature Geoscience, Committed Antarctic Ice Sheet mass loss by the end of the twenty-first century. The Conversation, texto dos autores republicado pelo R7.



