Ciência e tecnologia

Qual é a cor do universo? Astrônomos somaram a luz de 200 mil galáxias, primeiro acharam turquesa e depois corrigiram: é um bege com nome de café

Se desse para misturar toda a luz do céu num balde, a tinta sairia de um bege tão claro que quase não se distingue do branco. A cor foi calculada com 200 mil galáxias, já foi anunciada como turquesa e ganhou um nome de cafeteria.

A cor do universo sai da mistura destas galáxias: campo profundo do Hubble com milhares de galáxias coloridas, amarelas, brancas, azuis e alaranjadas, espalhadas sobre o fundo preto do espaço

Parte do Hubble Ultra Deep Field, uma das imagens mais coloridas do espaço profundo já feitas pelo telescópio. Foto: NASA/ESA.

O céu da noite parece preto com pontinhos brancos. Mas se todas as estrelas e galáxias fossem espalhadas e misturadas como tinta, que cor sairia? A pergunta parece brincadeira, e a resposta existe.

A cor média do universo é um bege muito claro, de código #FFF8E7, apelidado de cosmic latte, o "café com leite cósmico". Ela foi calculada com a luz de 200 mil galáxias do levantamento 2dF e voltou a ser destaque na Foto Astronômica do Dia da NASA em 28 de setembro.

Como se descobre a cor do universo?

Os astrônomos Ivan Baldry e Karl Glazebrook, então na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, somaram a luz de todas as galáxias do 2dF Galaxy Redshift Survey, um mapa de mais de 200 mil galáxias. O resultado foi o que eles chamaram de espectro cósmico: quanto de luz o universo próximo emite em cada cor do arco-íris.

O objetivo era sério. Pelas linhas escuras desse espectro dá para saber quantas estrelas jovens e velhas existem e reconstruir quando elas nasceram. A luz analisada conta uma história de 200 milhões a 10 bilhões de anos atrás, segundo o artigo científico.

Primeiro, a conta deu turquesa

Numa nota do artigo, os autores contaram que passaram o espectro pelas curvas padrão de sensibilidade do olho humano. Deu um verde-azulado, com o tom mais próximo nas listas de cores chamado de turquesa-pálido.

Eles explicaram que a mistura não é a cor de uma estrela só: o universo junta estrelas jovens e azuladas com estrelas velhas e avermelhadas.

Depois, virou bege: "um erro pequeno teve um efeito grande"

A conta foi refeita e a cor mudou. Na página em que explicam o trabalho, os autores registraram as coordenadas de cor do universo, 0,345 e 0,345 no diagrama internacional de cores, e escreveram que a resposta é tão perto do branco que é difícil dizer qual é.

"É por isso que um erro tão pequeno teve um efeito tão grande", escreveram. O melhor palpite deles passou a ser um bege claro. É esse tom que a NASA mostra hoje, com o código #FFF8E7.

Cinco quadrados de cor lado a lado: turquesa-pálido, bege cosmic latte, bege, rosado e branco puro, com o código de cada cor
As cores que a mesma luz do universo pode dar, conforme a conta e a luz de quem olha. Ilustração: Watts & Wild, com dados de Baldry e Glazebrook (2002) e da NASA.

Depende da luz de quem olha

A cor que a gente enxerga muda com a iluminação em volta, porque o olho se adapta. Os autores calcularam três cenários. Com a luz do dia como referência de branco, o universo parece avermelhado. Numa sala iluminada só por lâmpadas incandescentes, ele pareceria bem azul.

Para quem olhasse o universo de longe, no escuro, o cenário mais correto seria o chamado iluminante E, que dá o bege. Eles avisam ainda que, com o fundo da página preto, seria muito difícil ver a diferença entre essa cor e o branco.

Refizemos a conta aqui

Pegamos as coordenadas publicadas, 0,345 e 0,345, e convertemos para a cor de tela com as fórmulas padrão. No cenário do olho no escuro, deu #FFF9EC, praticamente o mesmo bege da NASA. Com a luz do dia como referência, deu #FFE1D1, um rosado claro, que bate com o aviso dos autores de que a cor "pode parecer mais rosada".

Já os números da primeira conta do artigo de 2002, levados para a tela, dão #B1FFE1, o verde-água claro que virou manchete antes da correção. O quadro acima põe as cinco cores lado a lado.

Skyvory, univeige ou cosmic latte?

Com a cor definida, faltava o nome. Os pesquisadores receberam várias sugestões por e-mail e montaram uma lista com as dez melhores. Entre as mais lembradas pela NASA estão skyvory, de céu com marfim, e univeige, de universo com bege.

O vencedor foi cosmic latte. Os autores admitiram, na brincadeira, que a escolha teve "influência da cafeína".

Imagem do Hubble com cerca de 5.500 galáxias de várias cores e formatos sobre fundo preto
O eXtreme Deep Field do Hubble junta dez anos de fotos de um pedaço minúsculo do céu, com cerca de 5.500 galáxias. Foto: NASA/ESA/G. Illingworth, D. Magee e P. Oesch (Universidade da Califórnia em Santa Cruz)/R. Bouwens (Universidade de Leiden)/equipe HUDF09.

O universo já foi azul e vai ficar mais vermelho

A cor não é fixa. Segundo os autores, o universo começou jovem e azul, cheio de estrelas novas e quentes, e foi ficando mais vermelho conforme as estrelas envelheciam e viravam gigantes vermelhas. A NASA resume: a cor ficou bem menos azul nos últimos 10 bilhões de anos.

A maior parte das estrelas que existem hoje nasceu há mais de 5 bilhões de anos. Como o ritmo de nascimento de estrelas vem caindo, a previsão dos pesquisadores é que a cor do universo fique cada vez mais vermelha.

Outro mapa confirmou a conta

Em 2003, Glazebrook e colegas repetiram o cálculo com as galáxias do Sloan Digital Sky Survey, outro grande mapa do céu, que escolhe as galáxias por outro critério. As coordenadas de cor deram 0,340 e 0,340, muito perto das do 2dF e ainda perto do branco, segundo o artigo.

Na nossa conversão, esse resultado vira #FFFCF4, um bege ainda mais claro. A diferença entre os dois mapas é menor que a diferença que a iluminação da sala provoca.

As fotos do Hubble mostram a mistura

As imagens desta página são do Hubble. O Ultra Deep Field de 2014 junta exposições feitas de 2003 a 2012 e está entre as imagens mais coloridas do espaço profundo já feitas pelo telescópio. O eXtreme Deep Field, feito com dez anos de fotos de um pedaço do céu na constelação da Fornalha, tem cerca de 5.500 galáxias.

As galáxias mais fracas dessa imagem têm um décimo de bilionésimo do brilho que o olho humano consegue ver, segundo a NASA. As galáxias usadas no cálculo da cor são mais próximas, mas a ideia é a mesma: somar a luz de milhares delas.

Aqui no site, também tem a nuvem de fogo com chapéu fotografada pela NASA, os vales escondidos sob o gelo da Groenlândia e o mapa da ONU que mostra o tamanho real do Brasil.

Perguntas rápidas

Qual é a cor do universo?

Um bege muito claro, quase branco, que ganhou o nome de cosmic latte (café com leite cósmico). O código da cor é #FFF8E7. Ele sai da média da luz de 200 mil galáxias do levantamento 2dF, segundo a NASA.

Por que antes disseram que o universo era turquesa?

O primeiro artigo dos astrônomos Ivan Baldry e Karl Glazebrook, de 2002, calculou um verde-azulado chamado turquesa-pálido. A conta foi refeita e a cor passou a bege. Os próprios autores escreveram que a cor é tão perto do branco que um erro pequeno teve um efeito grande.

A cor do universo muda com o tempo?

Muda. O universo começou azul, por causa das estrelas jovens e quentes, e ficou mais vermelho à medida que as estrelas envelheceram. Segundo os autores, ele vai continuar ficando mais vermelho.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.