Ciência e tecnologia

O satélite chinês Einstein Probe flagrou em 27 de setembro um clarão de raios X que durou cerca de 13 minutos, e telescópios na Argentina e no espaço já procuram a origem do sinal batizado de EP260927a

Por pouco mais de 13 minutos, um ponto do céu do Hemisfério Sul brilhou em raios X e depois sumiu. O satélite Einstein Probe registrou o sinal, chamou outros telescópios e agora os astrônomos tentam descobrir de onde ele veio. Veja o que já foi medido.

Ilustração do satélite Einstein Probe no espaço, com painéis solares abertos e os módulos do telescópio de raios X em forma de olho de lagosta, fonte do clarão de raios X

Ilustração do satélite Einstein Probe, lançado em janeiro de 2024. Imagem: China News Service/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

O EP260927a é um clarão de raios X que durou cerca de 800 segundos, pouco mais de 13 minutos, em 27 de setembro de 2026. A origem segue em aberto: a equipe do satélite apontou uma fonte fraca e sem registro anterior como a candidata mais provável.

O que o satélite viu em 27 de setembro

Segundo a circular GCN 45779, publicada pela equipe do Einstein Probe no Observatório Astronômico Nacional da China, o sinal começou por volta das 14h02 em horário universal, 11h02 em Brasília, e durou cerca de 800 segundos.

O telescópio de campo largo do satélite localizou o ponto dentro de um círculo de 2,6 minutos de arco de raio, cerca de um sexto do raio aparente da Lua cheia. Na astronomia, um sinal assim é chamado de transiente rápido de raios X.

O que é o Einstein Probe

O Einstein Probe é uma missão da Academia Chinesa de Ciências com parceiros internacionais, lançada em 9 de janeiro de 2024. Ele foi feito para vigiar o céu em raios X de baixa energia e caçar eventos que aparecem e somem rápido.

O telescópio principal enxerga de uma vez 3.600 graus quadrados do céu, segundo o artigo de apresentação da missão. Um segundo telescópio, mais sensível e de campo estreito, faz a confirmação e a posição precisa de cada novidade.

Como funciona um telescópio olho de lagosta

À esquerda, desenho dos 36 espelhos de microporos e dos 4 sensores do LEIA; à direita, o instrumento real em teste de calibração em laboratório
O LEIA, protótipo do telescópio de campo largo do Einstein Probe: à esquerda, o arranjo de espelhos de microporos; à direita, o aparelho em calibração no IHEP, na China. Imagem: C. Zhang et al./Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

O campo enorme vem de uma ótica inspirada no olho da lagosta: placas cheias de poros microscópicos que desviam os raios X para um foco. A técnica junta campo largo com imagem de verdade, explica o estudo do LEIA, protótipo lançado em julho de 2022 para testar o telescópio do Einstein Probe.

A segunda olhada, 14 horas depois

Para confirmar o sinal, a equipe virou o telescópio de acompanhamento para a região em 28 de setembro, às 3h53 em horário universal, cerca de 14 horas depois do início. A exposição útil foi de uns 6 mil segundos.

Nessa segunda olhada apareceram duas fontes de raios X dentro da área marcada pelo primeiro telescópio.

Duas fontes no mesmo pedaço do céu

A segunda fonte coincide com um objeto já catalogado, o 1eRASS J020729.2-271052, que pode ser um quasar, segundo a classificação do satélite Gaia citada pela equipe. Ele já brilhava antes do clarão.

A primeira fonte não aparece em nenhum catálogo e é a candidata favorita da equipe. A posição dela foi fixada com margem de 10 segundos de arco. A equipe escreve que tende a sugerir essa fonte como a contrapartida do clarão.

Pela nossa conta com os números da circular, o brilho dela na segunda olhada era cerca de 500 vezes menor que o do clarão, em faixas de energia um pouco diferentes. É o comportamento esperado de algo que acendeu e está apagando.

O telescópio na Argentina que procurou luz visível

O telescópio robótico MASTER-OAFA, no observatório da Universidade Nacional de San Juan, na Argentina, apontou para a região em 29 de setembro, cerca de 38 horas depois do clarão, segundo a circular GCN 45780.

Ele não encontrou nenhuma fonte nova até a magnitude 19,3, um brilho cerca de 200 mil vezes mais fraco que o das estrelas mais apagadas visíveis a olho nu. Em linguagem de astrônomo, isso é um limite superior: se havia luz visível ali, era mais fraca que isso.

O satélite sino-francês que também estava olhando

Placa metálica quadrada cheia de recortes irregulares, iluminada por trás em tom roxo, protótipo da máscara de um detector de raios X
Protótipo da máscara codificada do ECLAIRs, o detector do satélite SVOM que tinha a região do clarão no campo de visão. Foto: Sinucep/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O SVOM, missão conjunta da China e da França, tinha a posição do clarão no campo de visão do detector ECLAIRs no instante em que o sinal começou. A circular GCN 45784 informa que nenhum sinal significativo apareceu em raios X mais energéticos, de 4 a 120 keV.

Isso não contradiz o Einstein Probe. A própria equipe do SVOM nota que o brilho medido pelo Einstein Probe fica mais de dez vezes abaixo do limite que o ECLAIRs consegue detectar. O clarão foi fraco demais para ele.

O que pode causar um clarão de raios X

O artigo sobre os objetivos científicos do Einstein Probe lista os tipos de evento que a missão procura. Entre os rápidos e distantes estão explosões de raios gama e suas variantes, o choque de uma supernova rompendo a superfície da estrela e a fusão de estrelas de nêutrons.

A lista inclui ainda estrelas despedaçadas por buracos negros, surtos em núcleos de galáxias ativas e erupções em estrelas comuns. Nenhuma dessas hipóteses foi apontada para o EP260927a até agora.

De que parte do céu veio o sinal

O clarão veio de uma região a 27 graus ao sul do equador celeste e a 73 graus do plano da Via Láctea, segundo os dados das circulares. É uma área do céu do Hemisfério Sul longe da faixa de estrelas da nossa galáxia.

Pela geometria, uma região a 27 graus de declinação sul passa quase a pino sobre cidades do Sul do Brasil, como Florianópolis. Mas ninguém viu nada daqui: a atmosfera barra os raios X, e só satélites conseguem captá-los.

O que ainda falta para fechar o caso

Até a madrugada de 1º de outubro, as três circulares sobre o evento não traziam nenhuma detecção em outra faixa de luz, e nenhuma distância tinha sido medida. Sem distância, fica impossível saber quanta energia foi liberada.

A equipe do Einstein Probe pediu observações em outras faixas de luz. Esses avisos são públicos e rápidos de propósito: quanto mais telescópios olharem, maior a chance de identificar o que acendeu naquele ponto do céu.

Para seguir no assunto, veja o satélite SMILE, que filmou a aurora por 45 horas seguidas, a cor média do universo medida em 200 mil galáxias e como o James Webb usa galáxias como espelhos.

Perguntas rápidas

O que é o EP260927a?

É o nome dado a um clarão de raios X detectado pelo satélite Einstein Probe em 27 de setembro de 2026, às 14h02 (horário universal). EP indica o satélite e o número indica a data.

Quanto tempo durou o clarão?

Cerca de 800 segundos, pouco mais de 13 minutos, segundo a circular GCN 45779 da equipe do Einstein Probe.

Já se sabe o que causou o sinal?

A origem segue em aberto. A equipe aponta uma fonte de raios X sem registro anterior como a provável contrapartida e pede novas observações em outras faixas de luz.

Os raios X chegam até o chão?

Não. A atmosfera barra os raios X, por isso esse tipo de observação é feita por satélites como o Einstein Probe e o SVOM.

Algum telescópio da América do Sul participou?

Sim. O telescópio robótico MASTER-OAFA, na Argentina, apontou para a região em 29 de setembro e não registrou fonte nova até a magnitude 19,3.

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