Ciência e tecnologia

Um vírus que só ataca bactérias, achado em pomares de São Paulo, reduziu em 60% as lesões de cancro cítrico em laranjeiras testadas em estufa

O cancro cítrico é causado por uma bactéria, a Xanthomonas citri, e hoje é controlado principalmente com cobre. Pesquisadores da Unesp, do Fundecitrus e de uma universidade inglesa buscaram um inimigo natural dela nos pomares paulistas. Acharam 72 vírus e testaram o mais promissor em laranjeiras numa estufa.

Duas laranjas verdes ainda no pé cobertas de manchas marrons com halo amarelo, as lesões típicas do cancro cítrico

Laranjas com lesões de cancro cítrico: manchas marrons em relevo, cercadas por um halo amarelo. Foto: USDA/APHIS, via Wikimedia Commons (domínio público).

Quem tem laranjeira, limoeiro ou pé de tangerina conhece a mancha: um ponto marrom e áspero, com uma auréola amarela, que aparece na folha, no galho e na casca da fruta. É o cancro cítrico.

Um vírus que infecta só bactérias, o fago P27, achado em pomares de São Paulo, reduziu em 60% as lesões de cancro cítrico em laranjeiras numa estufa. O resultado está num artigo publicado em setembro na revista Microbial Genomics e foi divulgado pela Agência Fapesp nesta terça, 29.

O que é um fago e por que ele pode ajudar contra o cancro cítrico?

Bacteriófago, ou só fago, é um vírus que ataca bactérias. Ele se prende à célula, injeta o próprio material genético e usa a bactéria como fábrica para fazer cópias de si mesmo, até que ela se rompa.

O cancro cítrico, no mundo chamado de cancro cítrico asiático, é causado pela bactéria Xanthomonas citri. Segundo o artigo, a doença dá perdas econômicas grandes à citricultura mundial, e o controle convencional é feito com bactericidas à base de cobre.

A caça ao vírus em 12 fazendas paulistas

A equipe, formada pela Unesp, pelo Fundecitrus e pela Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, percorreu 12 propriedades rurais de São Paulo entre 2018 e 2021. Ali isolou e sequenciou 72 fagos capazes de atacar a bactéria.

Desses 72, 65 nunca tinham sido descritos. Um dos coautores é Franklin Behlau, pesquisador do Fundecitrus que trabalha com o manejo da doença no campo.

Ramo de citros sobre uma mesa de madeira com folhas pintadas de pontos claros e uma laranja verde com manchas ásperas de cancro cítrico
Folhas e fruto com cancro cítrico: os pontos claros nas folhas e as crostas no fruto são lesões da bactéria Xanthomonas. Foto: Scot C. Nelson, via Wikimedia Commons (domínio público, CC0).

Por que quase todos os vírus eram iguais

O sequenciamento mostrou que 70 dos 72 fagos compartilham cerca de 95% do DNA e são parentes próximos de um fago japonês, o CP2. Os autores ligam isso à própria bactéria: a população de Xanthomonas citri em São Paulo é quase um clone só.

"A bactéria do cancro cítrico no Estado de São Paulo é geneticamente muito uniforme", disse à Agência Fapesp o pesquisador Caio Zamunér, da Unesp, primeiro autor do estudo. Para ele, isso tem vantagem: uma única linhagem bem estudada, como o P27, já infecta a grande maioria das bactérias do campo.

As 21 linhagens que resistiram a todos os fagos

Os pesquisadores testaram os vírus contra 122 linhagens da bactéria. Cem foram infectadas por todos os fagos, 21 resistiram a todos e uma resistiu a alguns e foi sensível a outros.

Segundo Zamunér, os alvos que o vírus usa para reconhecer a bactéria existem em todas elas. Uma hipótese do grupo é que a bactéria consiga desligar por um tempo a produção desses receptores, sem mudar o DNA.

A arma que fura a capa da bactéria

A Xanthomonas se protege com uma cápsula de goma xantana, uma espécie de gel pegajoso. Com modelos de estrutura de proteína, entre eles o AlphaFold, os autores acharam na cauda dos fagos genes que provavelmente produzem enzimas capazes de quebrar essa cápsula durante a infecção.

O artigo trata essas proteínas como candidatas, ainda não confirmadas. Elas podem virar, no futuro, um ingrediente de controle biológico por conta própria.

O teste nas laranjeiras

O fago P27 foi escolhido para o teste em plantas de laranja numa casa de vegetação. As árvores tratadas com o vírus tiveram 60% menos lesões de cancro do que as que não receberam o fago.

"Conseguir essa redução, mesmo em ensaios em casa de vegetação, mostra que o vírus é capaz de infectar e destruir a Xanthomonas citri no tecido vegetal", disse Zamunér.

Quadro com seis números do estudo: 72 fagos, 70 quase idênticos, 100 de 122 linhagens infectadas, 21 resistentes, 160 segundos sob UV e 60% menos lesões
Os números do artigo publicado em setembro na Microbial Genomics. Arte: Watts & Wild.

Estufa não é pomar: luz UV desligou o vírus em menos de 3 minutos no laboratório

Os fagos aguentam bem a acidez e o calor: seguiram estáveis de pH 4 a 11 e em temperaturas de até 55 °C. Mas, sob luz ultravioleta no laboratório, ficaram totalmente inativos em 160 segundos, pouco mais de dois minutos e meio.

Para Zamunér, a sensibilidade à luz ultravioleta do sol é o maior desafio para levar o fago ao pomar. O grupo trabalha em formulações para proteger o fago sobre a folha e em substâncias naturais que dificultem a resistência da bactéria.

O cobre não sai de cena, pelo menos por ora

A ideia dos pesquisadores é combinar os fagos com doses menores de cobre, e não trocar um pelo outro. No artigo, o vírus aparece como peça do manejo integrado de pragas.

É o mesmo tipo de manejo que o Fundecitrus recomenda hoje. Em palestra em Itajobi (SP) na terça, 22, Behlau apontou como principais armas as aplicações de cobre, os quebra-ventos, o controle da lagarta-minadora-dos-citros e o cuidado para não ferir as plantas.

Onde o cancro pesa no bolso

Na lima ácida Tahiti, que segundo o Fundecitrus é a terceira fruta fresca mais exportada do país, o cancro pode levar a restrições e penalidades na venda da fruta, disse Behlau no encontro.

Na laranja, o cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo e Sudoeste Mineiro deve colher 263,15 milhões de caixas na safra 2026/27, pela reestimativa do Fundecitrus de 10 de setembro.

O resumo do estudo pode ser lido no Europe PMC. Outras descobertas estão na seção de ciência, como a rã-de-vidro nova de Goiás e a nuvem de fogo com chapéu flagrada pela NASA, além dos vales escondidos sob o gelo da Groenlândia.

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