Ciência e tecnologia

Uma rã-de-vidro de pouco mais de dois centímetros, com a barriga transparente, foi resgatada em 2005 no enchimento de uma represa em Goiás e só agora foi descrita como espécie nova, a Vitreorana micaelae

Pesquisadores da PUC Goiás, da UFG e da UnB descreveram na revista ZooKeys a Vitreorana micaelae, rã-de-vidro de Luziânia. É a primeira espécie do gênero exclusiva de Goiás e a segunda endêmica do Cerrado. O primeiro exemplar foi resgatado em 2005, no enchimento da represa de Corumbá IV.

Rã-de-vidro Vitreorana micaelae, espécie nova de Goiás, verde e translúcida, pousada sobre uma folha na mata de Luziânia

A Vitreorana micaelae viva, em Luziânia (GO). Foto: C. F. Rocha, em Vaz-Silva e colegas, ZooKeys (CC BY 4.0).

Ela cabe na ponta de um dedo, tem a cor de uma folha nova e, vista por baixo, deixa ver o que tem dentro do corpo. A rã passou por uma represa, por uma coleção científica e por um erro de identificação antes de ganhar nome próprio.

A Vitreorana micaelae é a 11ª espécie conhecida do gênero Vitreorana e foi descrita no artigo publicado em 3 de setembro de 2026 na ZooKeys. O estudo juntou medidas do corpo, DNA e gravações do canto.

Rã-de-vidro: por que ela parece transparente

As rãs-de-vidro têm esse nome porque parte da pele é translúcida. Na espécie nova, a membrana que forra a barriga é transparente, e só o coração, o fígado e a bexiga ficam cobertos por uma camada de células brancas e brilhantes, os iridóforos.

Por cima, o bicho é verde-folha com pontinhos pretos minúsculos. Os machos medem de 21,7 a 26,1 milímetros, com média de 23,2 milímetros, segundo o artigo da ZooKeys.

Rã-de-vidro Vitreorana micaelae vista por baixo, com a pele da barriga transparente deixando ver os órgãos cobertos por uma camada branca
Vista por baixo, a pele da barriga deixa ver os órgãos. Foto: C. F. Rocha, em Vaz-Silva e colegas, ZooKeys (CC BY 4.0).

De um resgate de fauna em 2005 à espécie nova

O primeiro exemplar conhecido foi recolhido em 4 de julho de 2005, durante o resgate de animais feito no enchimento do reservatório da hidrelétrica Corumbá IV, em Luziânia. Ele foi guardado na coleção do Centro de Estudos e Pesquisas Biológicas da PUC Goiás.

Em 2013, esse animal foi publicado como o primeiro registro do gênero no coração do Cerrado, identificado com dúvida como Vitreorana eurygnatha. Em 2020, parte da mesma equipe já o tratava como uma espécie ainda sem descrição.

Nove machos coletados em dezembro de 2014

A descrição se apoia em nove machos adultos coletados entre 5 e 9 de dezembro de 2014 numa mata de galeria perto da margem leste do rio São Bartolomeu, a 826 metros de altitude. O exemplar-tipo, que serve de referência para a espécie, foi coletado em 9 de dezembro por Cezar Filho Rocha.

Os outros oito, chamados parátipos, foram recolhidos por Rocha e por Edmar Pereira Victor Jr. Entre a coleta e a publicação passaram quase 12 anos. Somado o exemplar de 2005, a rã esperou 21 anos para ser reconhecida como espécie.

O canto da rã-de-vidro tem dois tipos

Os pesquisadores analisaram 41 cantos de três machos gravados em 5 de dezembro de 2014, entre 20h e 23h, com o ar a 20 °C. O canto curto é uma única nota de 17 a 25 milésimos de segundo. O longo junta essa nota a duas ou três outras e dura de 45 a 115 milésimos.

Nos dois casos, a frequência dominante fica perto de 4,7 kHz. As gravações foram depositadas na fonoteca da coleção zoológica da Universidade Federal de Goiás, onde outros cientistas podem ouvi-las e compará-las.

O que o DNA mostrou

Pela aparência, a espécie mais parecida é a Vitreorana eurygnatha. As duas têm tubérculos arredondados perto da cloaca e pontinhos escuros espalhados pelo dorso. A nova se diferencia pelo focinho arredondado visto de cima, pela pele áspera do dorso e pelo canto.

No gene 16S, as diferenças entre as espécies do gênero analisadas vão de 3,5% a 9,6%. A parente mais próxima pelo DNA é a Vitreorana parvula, com distância de 3,5% a 5,2%, menor que os 6,7% em relação à eurygnatha.

Onde ela vive: a mata do rio São Bartolomeu

A rã é especialista em um tipo de ambiente. Vive na mata semidecídua que encosta nas matas de galeria e ciliares, ao longo de riachos pequenos. Os machos foram vistos cantando na vegetação da margem, a cerca de 2,5 metros acima da água.

Só há dois pontos conhecidos, ambos em Luziânia, no entorno do Distrito Federal. O São Bartolomeu é afluente da bacia do rio Paranaíba. Outra descoberta de anfíbio em mata alagada está na reportagem sobre a rã nova do Acre.

Mata semidecídua em contato com a mata de galeria do rio São Bartolomeu, em Luziânia, Goiás, onde vive a rã-de-vidro Vitreorana micaelae
A mata do rio São Bartolomeu, em Luziânia, onde a espécie foi coletada. Foto: C. F. Rocha, em Vaz-Silva e colegas, ZooKeys (CC BY 4.0).

A rã-de-vidro de Goiás está ameaçada?

Ainda não dá para dizer. Os autores apontam como ameaças as barragens, a troca da mata por lavoura, que degrada rios e riachos, e a possível mineração na região. Mas faltam dados sobre o tamanho e a divisão das populações.

Por isso, a recomendação do estudo é classificar a espécie como Dados Insuficientes na lista vermelha da IUCN. É a categoria que a IUCN reserva para espécies cujos dados ainda não permitem medir o risco de extinção.

A segunda rã-de-vidro exclusiva do Cerrado

Quase todas as espécies de Vitreorana vivem na Amazônia e na Mata Atlântica. A única outra exclusiva do Cerrado é a Vitreorana franciscana, descrita há cerca de dez anos na Serra da Canastra e em Presidente Olegário, em Minas Gerais. A nova é a primeira exclusiva de Goiás e a única conhecida no miolo do bioma.

Os autores acham que há mais espécies escondidas. As matas úmidas do Cerrado foram menos estudadas que os campos e cerrados abertos, e pedem mais coletas nessas áreas. Outros animais quase transparentes aparecem na reportagem sobre os bichos que parecem vidro no Amapá.

Quem é Micaela, a homenageada no nome

O nome micaelae homenageia a bióloga Micaela de Jolepian L. Vaz, mulher do primeiro autor, o biólogo Wilian Vaz-Silva, da PUC Goiás. No artigo, ele agradece o apoio dela às pesquisas sobre a biodiversidade neotropical.

Não é o único nome de família dado a um bicho neste mês. Foi o que aconteceu com o fóssil de 309 milhões de anos que ganhou o nome das mães de duas pesquisadoras.

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