Debaixo do gelo da Groenlândia há 1.943 vales, um terço deles nunca mapeado antes, e alguns correm em linha reta por centenas de quilômetros, mostra um mapa liderado pela NASA
Um mapa do relevo escondido sob o gelo da Groenlândia, feito a partir de dados de satélite, encontrou 1.943 vales, um terço deles inéditos. Metade dos vales já conhecidos vai muito além do que se pensava, e uma parte corre em linha reta, num padrão que os cientistas ainda não sabem explicar.
A faixa central da Groenlândia como ela seria sem o gelo: vales no oeste, à esquerda, e montanhas no leste, à direita. Ilustração: mapa do NASA Earth Observatory/Lauren Dauphin, com dados de Chartrand e colegas (domínio público), via Earth Observatory.
A Groenlândia é coberta por uma calota de 1,7 milhão de quilômetros quadrados, com mais de 3 quilômetros de espessura no ponto mais grosso. O chão que fica embaixo dela nunca foi visto por olhos humanos.
O novo mapa mostra uma rede de 1.943 vales cavados na rocha sob o gelo da Groenlândia, e cerca de um terço deles foi identificado pela primeira vez. Muitos se formaram antes da maior parte do gelo que hoje os cobre.
O que o mapa encontrou debaixo do gelo da Groenlândia
O estudo foi liderado pela NASA e publicado em 30 de junho na revista Geophysical Research Letters, com o título "Uma vasta rede de vales sob a calota de gelo da Groenlândia". O mapa foi divulgado pelo Earth Observatory, da NASA, em 28 de setembro.
Os pesquisadores mapearam à mão os 1.943 vales. Cerca de metade dos vales que já apareciam no BedMachine, o principal mapa do relevo da ilha, vai mais para o interior do que se sabia, em alguns casos por centenas de quilômetros.
Como dá para enxergar o chão sob 3 km de gelo?
O método se chama análise de perturbação do fluxo de gelo. Quando o gelo escorre sobre um vale ou uma crista, o relevo deixa uma marca fraca na superfície. Satélites medem essa superfície com muito detalhe.
Com as pequenas elevações e depressões medidas lá em cima, os cientistas deduzem a forma do terreno enterrado. Segundo o resumo do artigo, a técnica usa a altitude e a velocidade da superfície do gelo.
Por que o interior da ilha era quase um branco no mapa
Na borda da calota, o relevo já tinha sido desenhado com um método de conservação de massa, que combina a espessura do gelo com a velocidade com que ele escorre. Esse método revolucionou o mapeamento da margem.
No interior, o gelo anda devagar e as medições de espessura são raras, e o método da borda não funciona. É essa lacuna que a nova rede de vales começa a preencher, ligando o interior aos vales da periferia.
Os vales em linha reta que ninguém sabe explicar
No centro-oeste da ilha, muitos vales são longos, retos e alinhados na mesma direção, de sudoeste para nordeste. A orientação sugere influência tectônica, com caminhos preferenciais por onde a água correu e cavou a rocha.
"Isso é um enigma para nós", disse Joe MacGregor, cientista da NASA e coautor do estudo, ao Earth Observatory. A Groenlândia costuma ser tratada como um bloco rígido de rocha antiga, que só se desloca com o movimento das placas vizinhas.
Uma cordilheira escondida no leste
Perto das terras altas do leste, o mapa revela uma cadeia de montanhas debaixo do gelo, com vales interligados e um relevo que fica mais acidentado em direção à costa.
Segundo o Earth Observatory, essas formas de estilo alpino podem ter sobrevivido sob o gelo pelo menos desde o Plioceno, período que terminou há cerca de 2,6 milhões de anos.
Onde a calota de gelo começou a se formar
Muitos vales parecem nascer nas terras altas do sul e do leste da ilha. É exatamente a região onde os cientistas acreditam que a calota de gelo da Groenlândia começou a se formar.
Para os autores, a forma da rede de vales reforça essa ideia. Ela aponta as terras altas do sul e do leste como os pontos de partida do gelo que hoje cobre quase toda a ilha.
Água subterrânea ajudou a cavar os vales
O ângulo em que os vales se ramificam também conta uma história. Os ângulos são relativamente abertos, e isso indica que a água da superfície não agiu sozinha.
Uma rede ampla de água subterrânea, que subia e desgastava a rocha ao redor, provavelmente ajudou a cavar os vales antes de a calota existir. O resumo do artigo cita a água subterrânea e a herança tectônica da ilha como fatores.
O mapa é deduzido pela superfície, não medido direto no chão
O relevo do novo mapa é inferido a partir de sinais fracos na superfície do gelo, e não de medições da rocha. Por isso, o trabalho é apresentado como um passo para melhorar as próximas versões do BedMachine Greenland.
Ou seja, os vales ainda não entraram no mapa de referência que os modelos de gelo usam hoje. A incorporação depende das próximas versões desse conjunto de dados.
Por que os vales importam para o futuro do gelo
O gelo se concentra nos vales e forma geleiras que desaguam nos fiordes. Isso cria um ciclo: o gelo que passa pelo vale engrossa, o gelo mais grosso anda mais rápido e o fluxo mais rápido aprofunda o vale.
MacGregor comparou a costa oeste ao Parque Yosemite, nos Estados Unidos, com um paredão depois do outro. Com o recuo da calota, os cientistas esperam que o fluxo continue a se concentrar onde os vales já estão.
Quem fez o estudo
O artigo é assinado por Allison Chartrand, Joseph MacGregor, Mathieu Morlighem, Olga Sergienko, Helen Ockenden, William Colgan e Gong Cheng. Ele foi publicado com licença aberta Creative Commons.
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