Ciência e tecnologia

Um avião da NASA flagrou uma nuvem em forma de chapéu no topo da nuvem de fogo de um incêndio em Montana, nos Estados Unidos, e ela apareceu em só uma das imagens do voo

O pileus é uma nuvem lisa, em forma de véu, que se forma quando uma corrente de ar muito forte empurra para cima uma camada úmida. Sobre um incêndio, ele é raro de registrar. O avião da NASA fotografou a nuvem de meia em meia hora, e ela aparece numa única cena.

Nuvem de fogo do incêndio Sand Creek, em Montana, vista de cima pelo avião ER-2 da NASA, com o disco liso do pileus sobre a torre de fumaça à direita

A nuvem de fogo do incêndio Sand Creek vista de cima em 11 de agosto. O disco liso e claro à direita é o pileus. Foto: MASTER/NASA, imagem de RoseAnne Dominguez (domínio público), via Earth Observatory.

Incêndios florestais muito fortes criam as próprias nuvens. O calor faz o ar subir rápido, levando fumaça e vapor, e no alto se forma uma torre parecida com a de uma tempestade.

Em 11 de agosto, um avião da NASA registrou sobre um incêndio em Montana um pileus, a nuvem em forma de chapéu, colado no topo de uma dessas nuvens de fogo. A imagem foi divulgada pelo Earth Observatory, da NASA, em 29 de setembro.

O que é o chapéu que apareceu em cima da nuvem de fogo

O nome pileus vem do latim e quer dizer chapéu, ou gorro. É uma nuvem fina e lisa, com cara de véu, que se forma quando uma coluna de ar subindo encontra, lá no alto, uma camada de ar úmido.

Para quem estuda a atmosfera, o pileus é sinal de uma corrente de ar para cima especialmente vigorosa. O raro, segundo o Earth Observatory, é ver um pileus sobre uma nuvem de fogo com tanto detalhe.

Como uma nuvem nasce do próprio incêndio

A nuvem de fogo tem nome técnico. No Atlas Internacional de Nuvens, da Organização Meteorológica Mundial, ela se chama flammagenitus: nuvem gerada por calor de incêndio florestal ou de vulcão.

O nome popular é pirocúmulo, que a própria OMM reconhece como apelido não oficial. Quando cresce muito, ela pode virar um cumulonimbo, a nuvem das tempestades, e aí é chamada de pirocumulonimbo.

Por que a nuvem de fogo virou uma montanha

Sobre o incêndio Sand Creek, o ar aquecido pelo fogo subiu tão rápido que empurrou para cima uma camada horizontal de ar mais úmido que estava acima dele. Ao subir, esse ar esfriou e o vapor virou gotas.

É o mesmo processo que forma nuvens quando o vento é obrigado a passar por cima de uma serra. "Mas, neste caso, o próprio pirocúmulo era a montanha", disse Neil Lareau, vice-coordenador científico da campanha, ao Earth Observatory.

O avião que voa acima das nuvens

As imagens foram feitas às 17h40 no horário local, 20h40 em Brasília, pelo sensor MASTER, instalado num ER-2. É um avião de pesquisa da NASA que voa em altitude muito elevada.

O MASTER capta 50 faixas diferentes de luz, do visível ao infravermelho. Na mesma passagem, os canais visíveis pegaram a nuvem e os infravermelhos mostraram o fogo no chão, enquanto radares apontados para baixo mediam a estrutura da nuvem.

Mesma cena do incêndio Sand Creek em cores falsas com infravermelho: fogo ativo em rosa e amarelo, área queimada em marrom, nuvens em branco e fumaça em azul e roxo
O mesmo instante com infravermelho de ondas curtas: fogo ativo em rosa e amarelo, área queimada em marrom e fumaça em azul e roxo. Foto: MASTER/NASA, imagem de RoseAnne Dominguez (domínio público).

Por que o flagra é tão raro?

O pileus costuma durar poucos minutos. Logo a corrente de ar que vem de baixo alcança o chapéu e o engole.

No voo de 11 de agosto, os cientistas fotografaram a coluna de fumaça mais ou menos a cada 30 minutos. O pileus aparece com clareza em apenas uma das cenas.

O que o fogo fazia no chão naquele momento

Na hora da imagem, o incêndio subia rápido pela encosta oeste do Monte Comet. Naquele momento, o vento soprava alinhado com os canais de drenagem que sobem a montanha.

Para Lareau, a presença do chapéu indica uma dinâmica extrema de correntes de ar para cima dentro da coluna de fumaça. "A cena inteira é incrível", disse ele.

A campanha da NASA que persegue nuvens de fogo

O voo fez parte do INSPYRE, campanha da NASA sobre fumaça injetada e pirocumulonimbos, feita no verão de 2026 no hemisfério norte com os aviões ER-2 e G-III, além de equipamentos em solo.

A campanha quer saber quais incêndios produzem pirocumulonimbos e por quê, e quando essas nuvens jogam fumaça direto na estratosfera. "Essa cena é, de várias formas, o centro do que buscamos", disse Lareau.

Quatro faixas lado a lado com a mesma nuvem de fogo vista em canais diferentes do sensor MASTER, da luz visível ao infravermelho térmico
A nuvem em quatro dos 50 canais do sensor MASTER, do visível ao infravermelho térmico. Foto: MASTER/NASA, imagem de RoseAnne Dominguez, anotação de Michala Garrison (domínio público).

Uma imagem, não uma medição do chapéu

O pileus foi visto em uma única cena, e o Earth Observatory apresenta o registro como um bônus do voo, não como o alvo da campanha. Os dados sobre a estrutura da nuvem ainda fazem parte da pesquisa do INSPYRE.

Ou seja, a imagem mostra que o chapéu se formou e onde estava o fogo naquele instante. O quanto o pileus diz sobre a força de cada incêndio é uma das perguntas que os cientistas tentam responder.

Tempestades e vulcões também fazem chapéu

O fogo é só uma das fontes. Correntes de ar fortes de tempestades severas também produzem pileus, e pesquisadores da campanha CRYSTAL-FACE, da NASA, em 2002, descreveram nuvens finas no topo de tempestades que provavelmente nasceram de pileus.

Vulcões também fazem. Uma das imagens mais conhecidas do Earth Observatory é a foto tirada por astronautas de um pileus cobrindo o topo da coluna do vulcão Sarychev, nas ilhas Curilas, na erupção de 2009.

O que isso tem a ver com as tempestades daqui

O chapéu é sinal de corrente de ar muito forte para cima, e correntes assim também alimentam tempestades severas. É esse tipo de tempestade que deixou o Sul em alerta laranja nesta terça.

A reportagem da NASA é assinada por Adam Voiland, com imagens de RoseAnne Dominguez e anotações de Michala Garrison. Outras descobertas estão na seção de ciência, como os vales escondidos sob o gelo da Groenlândia e o furacão Polo.

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