A NASA misturou poeira que imita o solo da Lua e de Marte com um plástico fabricado por bactérias, e o resultado ficou mais forte e pode virar ferramenta feita lá mesmo
A NASA divulgou nesta terça (29) fotos de microscópio de um material novo, feito com um plástico que bactérias fabricam e com poeira que imita o solo da Lua e de Marte. A ideia é que astronautas produzam e consertem as próprias peças longe da Terra. Amostras já vão ao espaço.
A amostra feita com poeira lunar simulada, vista no microscópio. Imagem: NASA.
As imagens parecem um caleidoscópio: estrelas cinza e prateadas encaixadas umas nas outras, com pontinhos coloridos espalhados. É assim que fica, no microscópio, um material desenvolvido no Centro de Pesquisa Glenn da NASA, em Cleveland, nos Estados Unidos.
A agência publicou as fotos e a explicação do projeto na página do centro Glenn nesta terça-feira.
Resumo: a equipe misturou um plástico biodegradável, que bactérias podem fabricar a partir do lixo da tripulação ou de gás carbônico, com poeira que imita o solo da Lua e de Marte, e a poeira deixou o material mais forte e mais fácil de moldar. O objetivo é fabricar peças no próprio destino, sem levar tudo da Terra.
Quem fez o material e como
O trabalho é da engenheira química Allison Christy, pesquisadora do Glenn, com três estagiários de verão: Tyler Klinchuch, Ethan Bilodeau e Emma Levenson. O dinheiro vem do fundo de inovação de 2026 do próprio centro.
A receita tem dois ingredientes. O primeiro é um plástico especial, que se decompõe na natureza. O segundo é poeira simulada, feita na Terra para imitar o solo lunar ou o marciano.
Como uma bactéria fabrica plástico?
Segundo a NASA, esse plástico pode ser produzido por bactérias alimentadas com resíduos da tripulação ou com gás carbônico. Numa base na Lua, o lixo dos astronautas e o gás que eles expiram poderiam virar matéria-prima.
Christy descreveu o processo de um jeito simples: o plástico cresce literalmente dentro do corpinho das bactérias. E completou que isso é muito legal.
O que a poeira mudou no plástico?
A surpresa foi a poeira ajudar. Misturada ao plástico, ela deixou o material mais resistente e mais fácil de processar, ou seja, de moldar na forma de uma peça.
Trocar o tipo de poeira e a quantidade permitiu ajustar as propriedades do material. É como ter uma receita base e mudar a dose de um ingrediente conforme a peça que se quer fazer.
O que as fotos mostram, com régua
A NASA divulgou duas imagens. A cinza é da amostra feita com poeira lunar simulada; a avermelhada, da amostra com poeira marciana. Nas duas, o material aparece como um mosaico de estruturas de cristal em forma de estrela.
Cada foto traz uma régua de 1.000 micrômetros, que é 1 milímetro. Medimos a régua em pixels e comparamos com a estrela maior do centro da amostra lunar: ela tem perto de 0,9 milímetro de ponta a ponta, quase o tamanho da própria régua. Os pontinhos escuros e coloridos espalhados pelas estrelas são grãos da poeira misturada.
Por que fabricar na Lua em vez de levar da Terra?
Tudo o que vai para a Lua sobe de foguete. Se o material puder ser feito no destino, a NASA leva menos carga na mala, economiza peso e reduz o custo do lançamento, segundo a própria agência.
Christy resumiu o problema assim: não dá para levar tudo para a Lua ou para Marte, e quando algo quebra, é preciso consertar com o que se tem à mão.
A agência liga o projeto à meta de montar uma base permanente na Lua. Com fabricação sob demanda e totalmente reciclável, a tripulação dependeria menos de reabastecimento vindo da Terra.
Que tipo de peça daria para fazer
Os exemplos citados pela NASA são objetos do dia a dia de uma base: suportes para estruturas, chaves de ferramenta e cadeiras, usados dentro dos módulos onde os astronautas vão morar.
Como o material pode ser reciclado, uma peça quebrada viraria matéria-prima para a próxima.
O que ainda precisa ser testado
Até aqui, o uso previsto é dentro dos habitats, protegido. A equipe quer saber se o material também aguenta ficar do lado de fora, na superfície da Lua ou de Marte, onde o ambiente é muito mais duro.
Para isso, as amostras estão passando por testes numa bancada do Glenn que simula o ambiente da Lua, com temperaturas extremas. Outras vão voar no experimento MISSE-23, que deixa materiais expostos do lado de fora da Estação Espacial Internacional.
As fotos de agora são de amostras de laboratório, feitas com poeira de imitação. O material ainda não foi produzido na Lua nem em Marte.
Um plástico que nasce do lixo e do solo de outro mundo
Se der certo, o lixo da tripulação e a poeira do chão viram cadeira, chave e suporte, sem esperar foguete de carga. Você confiaria numa ferramenta feita de plástico de bactéria com poeira da Lua?
Aqui no site, tem também a nova cratera que apareceu na Lua, os jatos de gelo de Encélado, lua de Saturno e a viagem de 7 horas e 50 minutos da Crew-13 até a estação espacial.
Perguntas rápidas
O que a NASA fez com a poeira da Lua?
Uma equipe do Centro de Pesquisa Glenn, em Cleveland, misturou poeira que imita o solo lunar com um plástico biodegradável. A poeira deixou o material mais forte e mais fácil de moldar. Também foi testada uma versão com poeira que imita o solo de Marte.
Como uma bactéria fabrica plástico?
Segundo a NASA, esse plástico pode ser produzido por bactérias alimentadas com resíduos da tripulação ou com gás carbônico. O plástico se forma dentro do corpo das próprias bactérias, nas palavras da engenheira química Allison Christy.
Para que serviria esse material?
A ideia é fabricar, dentro das futuras bases na Lua ou em Marte, peças como suportes, chaves de ferramenta e cadeiras, e reciclar o material quando a peça quebrar, sem depender de carga vinda da Terra.



