Campo magnético da Terra ficou até 5 vezes mais fraco que hoje durante a explosão da vida, e a prova está em rochas de 525 milhões de anos no interior da Paraíba
Um estudo da USP com a Universidade de Liverpool mediu o campo magnético guardado em rochas do agreste paraibano e de uma ilha do Canadá. O resultado mostra um planeta com a proteção magnética lá embaixo justamente quando os primeiros animais complexos se espalhavam pelos oceanos, e por dezenas de milhões de anos.
Rio Paraíba no trecho de Itabaiana (PB), município onde ficam as rochas do estudo. Foto: Geovani.s, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.
Sim, e por muito tempo. Rochas de Itabaiana, na Paraíba, formadas há cerca de 525 milhões de anos, guardaram um campo magnético de 3,7 a 5,1 vezes mais fraco que o da Terra hoje. Rochas do Canadá, 20 milhões de anos mais novas, mostram um campo ainda menor.
O trabalho foi publicado em julho na revista Science Advances, com acesso aberto no PubMed Central, e ganhou divulgação no Brasil nesta quarta-feira (30), em reportagem do Jornal da USP.
As comparações com o campo de hoje são contas do Watts & Wild com a tabela de resultados do próprio artigo e com o IGRF-14, o modelo oficial do campo magnético da Terra mantido pela Associação Internacional de Geomagnetismo e Aeronomia (Iaga).
Onde ficam as rochas da Paraíba e o que elas guardam?
As amostras vêm do enxame de diques de Itabaiana, no agreste da Paraíba. Diques são faixas de rocha vulcânica, aqui basalto e dolerito, que subiram derretidas por rachaduras e endureceram dentro de rochas muito mais antigas da Província Borborema.
Quando essa rocha derretida esfria, grãos minúsculos de magnetita se alinham com o campo magnético do momento e ficam travados. O Jornal da USP chama isso de fóssil magnético: a rocha vira uma bússola congelada no tempo.
Duas datações por argônio, citadas no artigo, põem a formação dos diques em 525 e 526 milhões de anos, com margem de 4 a 5 milhões para mais ou para menos.
O grupo do professor Ricardo Trindade, do IAG da USP, já tinha estudado essas rochas em um trabalho de 2006, que virou referência para reconstruir a posição do antigo supercontinente Gondwana. O novo estudo usou quatro pontos de coleta nesses diques e mediu a força do campo, não só a direção.
Quão fraco era o campo magnético naquela época?
Nos quatro pontos de Itabaiana, as médias ficaram entre 8 e 12,3 microteslas, a partir de 60 medições aprovadas feitas com cinco métodos de laboratório diferentes, que chegaram a valores parecidos entre si.
Na ilha Long Island, na Nova Escócia, no Canadá, as rochas vulcânicas de cerca de 505 milhões de anos deram entre 0,6 e 1,7 microtesla por ponto, com medições isoladas que chegaram a 0,4.
Para ter uma ideia, o campo na superfície da Terra hoje varia de 25 a 65 microteslas, segundo o Jornal da USP. Pelo IGRF-14, no ponto de coleta de Itabaiana ele marca 26,1 microteslas hoje, e no da Nova Escócia, 51,2.
Até 5 vezes mais fraco: como dá para comparar com hoje?
Comparar só o valor local engana, porque o campo muda com a latitude, e há 525 milhões de anos a Paraíba estava em outro lugar do globo. Por isso os geofísicos convertem cada medida no momento de dipolo, que é a força do ímã do planeta inteiro.
Na tabela do estudo, o momento de dipolo de Itabaiana vai de 1,5 a 2,1, em unidades de 10²² ampères metro quadrado. Pelos coeficientes do IGRF-14 para 2025, o da Terra hoje é de 7,7.
Na conta do Watts & Wild, o campo de Itabaiana era de 3,7 a 5,1 vezes mais fraco que o atual, algo entre um quinto e pouco mais de um quarto da força de hoje. Nas rochas da Nova Escócia, com momento entre 0,1 e 0,4, o campo era pelo menos 19 vezes mais fraco.
É verdade que o campo fraco causou a explosão da vida?
Não dá para dizer isso, e os próprios autores avisam. A chamada explosão cambriana foi o período em que surgiu, em pouco tempo, uma enorme variedade de animais complexos nos oceanos, e o estudo mostra que o escudo magnético seguiu fraco durante essa fase.
Segundo o artigo, a coincidência não prova causa, porque a oferta de nutrientes, as mudanças na química dos oceanos e as inovações dos próprios animais continuam sendo explicações possíveis. Segundo o Jornal da USP, Simon Lloyd, geofísico da Universidade de Liverpool que liderou a pesquisa, afirma que o resultado dá uma base física mais firme para investigar essas ligações.
Existe uma hipótese recente, citada no estudo, de que o escudo fraco teria deixado mais hidrogênio escapar da atmosfera e ajudado a aumentar o oxigênio do planeta. O novo trabalho não testa isso diretamente.
O que isso muda na história do núcleo da Terra?
O campo magnético nasce do ferro líquido que se move no núcleo externo, como um dínamo. Alguns estudos recentes propõem que, por volta de 550 milhões de anos atrás, o núcleo interno começou a se solidificar e deu um tranco nesse dínamo, fortalecendo o campo logo depois.
Se fosse assim, as rochas de 525 e 505 milhões de anos deveriam mostrar um campo já recuperado. Não mostram. Os autores também reanalisaram, com os mesmos critérios, medições já publicadas de outras rochas, com 532 a 565 milhões de anos, e não acharam sinal de fortalecimento rápido e duradouro por volta de 550 milhões de anos.
O estudo não descarta que o núcleo interno tenha começado a se formar nessa época. Ele só mostra que, se isso aconteceu, o efeito não apareceu como um salto de força no campo.
Os polos magnéticos trocavam de lugar?
Tudo indica que sim, e com frequência. As rochas de Itabaiana e da Nova Escócia registram as duas polaridades: em parte delas, o norte magnético apontava para onde hoje fica o sul. Em Itabaiana, um dos quatro pontos, o IT1, está na polaridade oposta à dos outros três.
Para os autores, o quadro é de um dínamo fraco e instável, que ficou assim por dezenas de milhões de anos, bem diferente do campo forte da maior parte da história mais recente da Terra.
Por que é tão difícil medir o campo magnético do passado?
Segundo Trindade, só cerca de 20% dos estudos de paleointensidade, a força do campo antigo, conseguem resultados aproveitáveis. A rocha precisa ter guardado o sinal sem alteração por centenas de milhões de anos.
Por isso a escolha de Itabaiana pesou: o grupo já sabia, pelo estudo de 20 anos atrás, que essas rochas tinham um registro magnético estável. No artigo, os autores dizem que a confiança no resultado brasileiro é especialmente alta, porque métodos e tipos de rocha diferentes, incluindo a rocha vizinha aquecida pelo dique, deram resultados coerentes.
E o campo magnético sobre o Brasil hoje?
Mesmo hoje, o campo em Itabaiana está perto do piso da faixa de 25 a 65 microteslas: os 26,1 da cidade paraibana são metade dos 51,2 da Nova Escócia. Boa parte do Brasil fica sob a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, uma região onde o escudo é mais fino.
Outra curiosidade que o IGRF-14 mostra: em Itabaiana, a agulha da bússola aponta hoje 20,9 graus a oeste do norte verdadeiro. Quem se orienta só pela bússola na região precisa descontar esse desvio.
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Perguntas rápidas
O campo magnético da Terra já foi mais fraco?
Sim. Rochas de Itabaiana, na Paraíba, com cerca de 525 milhões de anos, mostram um momento magnético de 1,5 a 2,1 (em 10²² A·m²). O da Terra hoje é de 7,7, ou seja, o campo daquela época era de 3,7 a 5,1 vezes mais fraco.
Onde ficam as rochas da Paraíba do estudo?
No enxame de diques de Itabaiana, no agreste da Paraíba: faixas de basalto e dolerito que cortam rochas muito mais antigas da Província Borborema. Os pontos de coleta ficam perto da margem de um rio, na divisa do município.
O campo magnético fraco causou a explosão cambriana?
O estudo diz que não dá para afirmar isso. Os autores lembram que nutrientes, mudanças na química dos oceanos e inovações dos próprios animais também podem explicar o salto da vida. O que o trabalho mostra é que a proteção magnética seguiu fraca nesse período.
Quem fez o estudo das rochas de Itabaiana?
Pesquisadores da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, liderados pelo geofísico Simon Lloyd, com Ricardo Trindade, do IAG da USP. O artigo saiu em julho de 2026 na revista Science Advances, com acesso aberto.



