Ciência e tecnologia

Um satélite europeu que mede nuvens viu, a 200 km do vulcão Anak Krakatau, uma camada que vai do chão a 6 km de altura e que pode ser cinza grossa em queda, sinal de que ela viaja mais longe do que se imagina

O vulcão Anak Krakatau, no Estreito de Sunda, entrou em erupção em 4 de setembro e deixou milhares de voos no chão. O satélite europeu EarthCARE mediu a pluma por cima e achou, a 200 km do cone, uma camada que pode ser cinza grossa, mais longe do que o previsto.

Imagem do satélite Sentinel-3 com a pluma branca da cinza do Anak Krakatau saindo do vulcão no Estreito de Sunda, entre Sumatra e Java

Pluma do Anak Krakatau no Estreito de Sunda, vista pelo satélite Sentinel-3. Imagem: ESA, contém dados modificados do Copernicus Sentinel (2026), processados pela ESA, licença CC BY-SA 3.0 IGO. Página da imagem na ESA.

O satélite EarthCARE, da Agência Espacial Europeia (ESA), detectou a 200 km do Anak Krakatau uma camada que vai do chão a cerca de 6 km de altura e que os cientistas acreditam ser cinza grossa em queda. A leitura ainda precisa ser confirmada, segundo o artigo da ESA de 1º de outubro de 2026.

Uma erupção que parou milhares de voos

O Anak Krakatau, que significa "Filho do Krakatoa", fica no Estreito de Sunda, entre Sumatra e Java, na Indonésia. Ele nasceu do mar no começo do século passado, dentro da caldeira aberta pela erupção do Krakatoa em 1883, e entra em atividade de tempos em tempos.

A erupção de setembro não teve a força do Krakatoa, que provocou um tsunami devastador. Mesmo assim, segundo a ESA, ela deixou milhares de voos em terra e centenas de milhares de passageiros retidos.

Pluma branca saindo do Anak Krakatau no Estreito de Sunda, vista do espaço pelo satélite Sentinel-3, com Sumatra e Java ao fundo
Detalhe da imagem do Sentinel-3 com a pluma do Anak Krakatau soprada para o oeste. Imagem: ESA, contém dados modificados do Copernicus Sentinel (2026), processados pela ESA. Recorte nosso, página na ESA.

Por que a cinza vulcânica derruba avião

A cinza pode danificar motores de avião e até fazê-los parar. Ela também arranha os vidros da cabine e reduz a visão dos pilotos. Gases tóxicos, como o dióxido de enxofre, ainda podem contaminar o ar que circula lá dentro.

Para reduzir esses riscos, existe uma rede mundial de nove centros de aviso de cinzas vulcânicas, cada um responsável por uma parte do globo. O Anak Krakatau cabe ao centro de Darwin, operado pelo Bureau de Meteorologia da Austrália (BOM). A maioria dos aviões cruza em torno do nível de voo FL350, ou 10.700 m de altura.

Quem quiser entender por que a cinza é só um dos perigos de uma erupção, e quase nunca o principal em terra, pode ler o que mais mata num vulcão.

Um laser e um radar olhando a mesma pluma

O EarthCARE foi feito para estudar como nuvens e aerossóis, as partículas suspensas no ar, mexem com o clima. Ele leva quatro instrumentos que trabalham juntos: o lidar ATLID, o radar de nuvens CPR, o imageador MSI e o radiômetro BBR.

O ATLID dispara pulsos de laser ultravioleta e mede a luz que volta, o que dá o perfil vertical dos aerossóis. Com algoritmos, ele também estima o tipo de partícula. Os três instrumentos usados na análise aparecem na tabela.

Instrumento do EarthCAREComo medeO que enxerga melhorLimite
ATLID (lidar)Pulsos de laser ultravioleta; mede a luz que voltaAltura e concentração dos aerossóis, e o tipo: cinza, fumaça, sulfato, sal marinho, poeiraO laser não atravessa uma camada espessa de sulfato
CPR (radar de nuvens)Onda longa de radarPartículas grandesQuase não sente partículas pequenas, como a cinza fina
MSI (imageador)Imagem em várias faixas de corA faixa da pluma em cor falsa: cinza em roxo, dióxido de enxofre em verdeMostra o plano de cima, sem altura

Arte: Watts & Wild, com dados do artigo da ESA de 1º de outubro de 2026.

O centro de Darwin foi rápido em pôr os dados do laser entre as ferramentas que usa para monitorar a pluma, informa a ESA. Para quem acompanha satélites do mesmo tipo, vale ver a câmera do Smile, que filmou a aurora boreal por 45 horas.

Como ler as cores da imagem da ESA

Ilustração em 3D da ESA com a faixa do satélite sobre Sumatra e Java: camadas coloridas de aerossóis acima do Anak Krakatau, com as alturas FL200, FL350 e FL500
Imagem: ESA, com dados modificados do Copernicus Sentinel (2026). A legenda do canto mostra os tipos de aerossol e a altura dos voos. Página da imagem na ESA, licença ESA Standard.

A ESA montou a ilustração sobre uma foto do Sentinel-3 de 5 de setembro. Na faixa do imageador, o roxo marca a cinza e o verde marca o dióxido de enxofre. Acima dela, uma cortina vertical mostra o que o laser e o radar mediram em cada altura.

As camadas são de sulfato fino e espesso, cinza fina e um detalhe em marrom-escuro: o que se acredita ser cinza grossa. A área cinza do desenho é a zona onde o laser não passa pelo sulfato espesso de cima e o radar não sente a cinza fina.

A cinza do Anak Krakatau que o radar não costuma ver

Robin Hogan, do Centro Europeu de Previsão do Tempo (ECMWF), explicou que o radar CPR sente muito mais as partículas grandes e muito menos as pequenas. "Normalmente esperaríamos que as partículas numa pluma a 200 km da fonte fossem pequenas demais para um radar detectá-las", disse.

Mas o CPR, de sensibilidade inédita, achou uma feição que vai da superfície até uns 6 km de altura. Segundo Hogan, acredita-se que ela corresponda a agregados grandes de cinza que se separam da pluma e caem.

Cinza grossa chega mais longe do que se pensa?

Helen Dacre, da Universidade de Reading, no Reino Unido, disse que, se isso se confirmar, será uma evidência útil de que partículas grandes de cinza podem ficar mais tempo no ar e ir mais longe do que se costuma supor.

Segundo ela, a medição dá aos cientistas uma chance de ajustar, nos modelos de dispersão de cinza, duas coisas: a velocidade com que a cinza cai e o transporte a longa distância.

O que os dados já fizeram pelo aviso aos pilotos

Andy Prata, do BOM, contou que, com os previsores do centro de Darwin, a equipe conseguiu conferir a previsão de uma pluma que se movia para o oeste a FL500, cerca de 15 km de altura. O ATLID foi essencial para confirmar a altura da parte alta da pluma, disse ele.

Sobre a área cinza do desenho, a ESA resume: ainda há especulação sobre o que existe ali e isso exige novos estudos, mas a mensagem para as autoridades de aviação é simples, não voar com aeronaves nesse ponto.

Shannon Mason, também do ECMWF, afirmou que a observação em tempo quase real permitiu entender a estrutura vertical do evento e apoiar o aviso à aviação.

O clima também entra na conta

Alex Hoffmann, da ESA, lembrou que erupções grandes têm efeito longo. Os aerossóis de sulfato lançados na estratosfera pelo Krakatoa em 1883 ficaram mais de um ano no ar, refletiram luz solar e causaram um resfriamento global passageiro.

Por isso importa saber a que altura o material vulcânico sobe e como ele reflete a luz, informação que o lidar do EarthCARE consegue dar. Em 2024, os dados do ATLID já ajudaram a entender o transporte global de aerossóis da erupção do monte Ruang.

No Brasil, Fernando de Noronha é o topo de um vulcão extinto há milhões de anos, como conta a matéria sobre o arquipélago.

O que ainda falta provar sobre a camada de cinza

A ESA escreve que a camada é "o que se acredita" ser cinza grossa e que Dacre falou em "se confirmado". Ainda é uma hipótese, apoiada numa passagem do satélite a 200 km do vulcão.

O artigo também não traz um número oficial de voos cancelados, só "milhares". Os cientistas, diz a ESA, seguem usando as medições do EarthCARE para entender como a cinza e outros aerossóis se comportam nas horas e dias depois de uma erupção.

Fontes: ESA, EarthCARE’s view of volcanic plume boosts air safety, 1º de outubro de 2026. ESA, EarthCARE distinguishes volcanic aerosols. ESA, Anak Krakatau eruption by Sentinel-3.

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