Ciência e tecnologia

Astronauta fotografa da ISS, no sul de Madagascar, um maciço de anortosito, o mesmo tipo de rocha das terras altas da Lua, com pelo menos 600 milhões de anos

Um astronauta da Estação Espacial Internacional fotografou, em 28 de agosto de 2026, uma mancha clara de rocha no sul de Madagascar. É o maciço de Saririaky, de anortosito, o mesmo tipo de pedra das terras altas brilhantes da Lua. A NASA divulgou a imagem nesta segunda-feira, 5 de outubro.

Mancha clara de anortosito em Madagascar vista da ISS, cercada por rochas laranja e marrons deformadas em faixas

O maciço de Saririaky, no sul de Madagascar, visto da Estação Espacial em 28 de agosto de 2026. Foto: NASA/ISS (foto de astronauta ISS075-E-85249), via NASA Earth Observatory. Domínio público, recortada em 16:9.

A mancha clara da foto é anortosito, a rocha que forma as terras altas da Lua e que também aparece em pontos da Terra. A imagem saiu na seção Imagem do Dia do NASA Earth Observatory, feita com uma Nikon Z9 e lente de 400 milímetros.

O que a foto da Estação Espacial mostra

Do alto, o sul de Madagascar parece uma colcha laranja e marrom, riscada por canais de drenagem. No meio dela, uma lente branca destoa. Para o astronauta, segundo a NASA, aquela mancha pareceria fora de lugar. Na Lua, não pareceria.

A foto, tirada por um membro da Expedição 75, está catalogada como ISS075-E-85249 pelo Centro Espacial Johnson. A NASA diz que a imagem foi cortada e realçada para ganhar contraste, e que artefatos da lente foram removidos.

Anortosito em Madagascar: uma lente de 100 km²

Zoom no maciço de anortosito de Saririaky, em Madagascar, com canais de drenagem recortando a rocha clara
Zoom no maciço de Saririaky, recortado da mesma foto. Canais de drenagem riscam a rocha clara. Foto: NASA/ISS (foto de astronauta ISS075-E-85249), via NASA Earth Observatory. Domínio público.

O anortosito é uma rocha ígnea intrusiva: nasce de magma que esfria debaixo da superfície e fica com cristais grandes de mineral. O afloramento de Saririaky cobre cerca de 100 km², ou 10 mil hectares. Pela conta da redação, dá uns 14 mil campos de futebol.

Os cientistas acham que o maciço se formou no fim do Pré-Cambriano, há pelo menos 600 milhões de anos. A NASA lembra que o anortosito também aparece no leste do Canadá, na Escandinávia e no sul da Índia.

A rocha que faz as terras altas da Lua brilharem

Quem olha a Lua a olho nu vê manchas claras e muito refletivas. São as terras altas lunares, e é o anortosito que dá a cor. Segundo a NASA, essas rochas têm mais de 4 bilhões de anos e se formaram quando o oceano de magma da Lua cristalizou e criou a crosta externa.

A comparação de idades é direta: o maciço de Madagascar é pelo menos 600 milhões de anos e o anortosito lunar passa de 4 bilhões. A pedra é do mesmo tipo, mas nasceu em outro mundo e em outra época.

RochaIdade e origemTamanho
Maciço de Saririaky (Madagascar)Pelo menos 600 milhões de anos, do fim do Pré-Cambriano. Magma que esfriou debaixo da superfícieCerca de 100 km² de afloramento
Terras altas da LuaMais de 4 bilhões de anos. Cristalizou do oceano de magma lunar e formou a crosta externaCobria toda a superfície da Lua jovem antes dos impactos
Complexo Stillwater (Montana, EUA)A página da NASA fala em rocha parecida com a lunar, com anortita quase puraCerca de 50 km na cordilheira Beartooth

Arte: Watts & Wild, com dados das páginas do NASA Earth Observatory de 5 de outubro de 2026 e de 4 de maio de 2020.

Uma rocha cercada de pedra espremida

O maciço não está sozinho no cenário. As rochas em volta mostram um capítulo agitado da geologia local. Pesquisadores concluíram que Saririaky fica dentro de uma zona de cisalhamento dúctil, onde calor e pressão altos metamorfosearam e remodelaram a rocha, e deixaram faixas no sentido norte-sul.

Os geólogos acham que a deformação veio quando pedaços do que hoje são África, Índia, Madagascar, Austrália e Antártida colidiam para formar o supercontinente Gondwana. As faixas norte-sul que cercam a mancha na foto vêm dessa deformação.

Um segundo maciço foi arrancado dali?

Alguns cientistas propõem que outro maciço de anortosito da mesma zona, a cerca de 60 quilômetros ao norte, tenha sido puxado para longe de Saririaky durante a deformação. Seria uma estrutura de boudinagem em grande escala, como uma salsicha esticada até partir em gomos.

É uma hipótese de alguns pesquisadores, não um fato fechado.

Por que cientistas procuram a Lua aqui embaixo

Os astronautas da Apollo trouxeram anortosito lunar para análise, mas a quantidade é limitada. Por isso os pesquisadores também estudam rochas parecidas da Terra, como análogos para entender a crosta da Lua e como ela se formou.

Sobre a Lua em si, o site já contou como a NASA procura um tubo de lava sob o buraco de Marius Hills e o que discos de detritos extremos dizem sobre os choques que criaram a Lua.

Montana tem a Lua mais bem copiada

Imagem de satélite de parte do Complexo Stillwater, na cordilheira Beartooth, em Montana, nos Estados Unidos
Parte do Complexo Stillwater, em Montana, no Landsat 8 de 10 de agosto de 2018, combinado com relevo do SRTM. Imagem: NASA Earth Observatory. Domínio público.

Segundo a NASA, os anortositos das montanhas Beartooth, em Montana, combinam de modo especial com a composição do anortosito lunar. O Complexo Stillwater se estende por cerca de 50 km e é minerado para cromo e metais do grupo da platina.

O geólogo Doug Rickman, do Centro Marshall, resume o ponto numa frase da página da agência de 2020: "Anortosito não é raro na Terra". O raro é o tipo quase puro, de anortita rica em cálcio, que lembra a química da Lua.

Rochas do Stillwater viram também poeira lunar de teste, o regolito simulado usado para ensaiar equipamentos e trajes antes de uma volta à Lua. É um uso prático, longe do laboratório de geologia.

Rocha parecida não é rocha da Lua

A mancha de Madagascar não veio de lá nem prova nada sobre a Lua sozinha. É um análogo: mesmo tipo de rocha, idade muito menor e outra história. Na página sobre Montana, a NASA diz que nem todo anortosito da Terra serve de modelo e que água, calor e pressão alteram o mineral.

A idade do maciço vem de estimativa dos cientistas (pelo menos 600 milhões de anos), e a ideia dos dois blocos separados é interpretação de geólogos. A foto é uma pista boa, mas ainda não é um laudo.

Onde conferir a foto original

A NASA diz que as imagens feitas por astronautas ficam abertas ao público. A foto ISS075-E-85249 está no Gateway to Astronaut Photography of Earth, o arquivo do Centro Espacial Johnson, e a página do Earth Observatory tem a versão em alta resolução para baixar.

Quem gosta de rocha pode ler também o que as rochas da Paraíba contam sobre o campo magnético da Terra.

Fontes: NASA Earth Observatory, Moon-Like Madagascar, 5 de outubro de 2026. NASA Earth Observatory, Montana's Moon-Like Rocks, 4 de maio de 2020. Gateway to Astronaut Photography of Earth, ISS075-E-85249.

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