A lava sozinha causou 241 das 83.959 mortes em erupções vulcânicas registradas desde 1900 no banco da NOAA, menos de 0,3% do total, enquanto as nuvens de gás quente e os rios de lama somaram 82%
A imagem clássica de um vulcão é a lava vermelha escorrendo morro abaixo. Os registros de mortes contam outra história. Somadas as erupções desde 1900, quem mais matou foram as nuvens de gás e rocha quentes e os rios de lama que descem pelos vales, às vezes longe da cratera.
A coluna de cinzas do Pinatubo em 12 de junho de 1991, vista da Base Aérea de Clark, nas Filipinas. Foto: Dave Harlow, USGS, domínio público, via Wikimedia Commons.
A lava quase nunca é o que mata numa erupção. No banco de erupções da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, a lava sozinha aparece ligada a 241 das 83.959 mortes registradas desde 1900. Os fluxos piroclásticos e os lahares, sozinhos, somam 68.708, ou 82%.
O que mais mata num vulcão, em números
A conta foi feita sobre as 791 erupções que o banco de erupções significativas da NOAA registra de 1600 a 2026. Desde 1900, 330 delas têm mortes anotadas, num total de 83.959. Cada erupção traz um código para a causa das mortes.
Quando a causa é uma só, a liderança é dos fluxos piroclásticos, com 35.349 mortes. Em seguida vêm os lahares, com 28.725, e os lahares que descem depois do fim da erupção, com 4.634. O gás aparece com 1.971, a cinza e os fragmentos lançados com 558, e a lava com 241.
Outras 11.206 mortes estão em erupções com mais de uma causa anotada, e 1.057 não têm causa registrada. Mesmo que toda a parte mista fosse jogada na conta da lava, ela não passaria dos fluxos piroclásticos.
A nuvem quente que desce a mais de 80 km/h
Fluxo piroclástico é uma avalanche de gás, cinza e pedaços de rocha que desce a encosta colada ao chão. Segundo o Programa de Riscos Vulcânicos do USGS, o serviço geológico dos Estados Unidos, ela costuma passar de 80 km/h, com temperaturas entre 200 °C e 700 °C.
O USGS descreve que as mortes vêm de queimaduras e da inalação de cinza e gases quentes. Não há como correr de uma nuvem dessas. Em maio de 1902, os fluxos do monte Pelée, na Martinica, deixaram 28.000 mortos, a erupção mais letal do banco desde 1900.
Rios de lama que chegam longe da cratera
Lahar é o nome indonésio para a mistura de água e fragmentos de rocha que escorre pelas encostas de um vulcão e entra nos vales dos rios. O USGS compara o material a concreto em movimento e diz que, em trechos íngremes, ele pode passar de 200 km/h.
A água pode vir de neve e gelo derretidos, de um lago na cratera ou de chuva forte sobre a cinza solta. Em novembro de 1985, os lahares do Nevado del Ruiz, na Colômbia, mataram 23.080 pessoas, segundo a NOAA. Em 1919, os do Kelud, na Indonésia, mataram 5.110.
O perigo continua depois que a erupção acaba. Em 2006, lahares no vulcão Mayon, nas Filipinas, deixaram 1.266 mortos, e o banco os classifica como lahares posteriores à erupção, quando a lama desce com material que já estava depositado nas encostas.
O gás que se acumula onde ninguém vê
O USGS explica que o gás carbônico frio é mais pesado que o ar e pode se acumular em baixadas, onde atinge concentrações muito altas. Acima de cerca de 15%, segundo o serviço, ele causa perda de consciência e morte em pouco tempo.
Em agosto de 1986, o gás liberado no campo vulcânico de Oku, em Camarões, onde fica o lago Nyos, matou 1.700 pessoas. Em escala bem menor, o USGS cita três membros da patrulha de esqui mortos em 2006 na estação de Mammoth Mountain, na Califórnia, ao cair numa cavidade de neve tomada pelo gás.
Por que a lava quase sempre dá tempo de fugir
O USGS resume assim: mortes causadas diretamente por fluxos de lava são incomuns porque a maioria anda devagar o bastante para as pessoas saírem do caminho. A frente de uma corrida de basalto pode chegar a 10 km/h em encosta íngreme.
Em terreno suave, porém, ela costuma avançar menos de 1 km/h, segundo o mesmo texto. É mais lento que uma caminhada. A lava destrói casas, estradas e plantações por onde passa, mas dá tempo para a retirada das pessoas.
As poucas vezes em que a lava matou
Desde 1900, só 10 erupções com mortes têm a lava como causa única no banco da NOAA. As duas maiores somam 100 mortes cada uma: Ambae, em Vanuatu, em 1914, e Nyiragongo, na República Democrática do Congo, em 2002. O mesmo Nyiragongo voltou a matar 32 pessoas em 2021, com lava, tremores e efeitos indiretos.
Nas 330 erupções com mortes desde 1900, a lava aparece em apenas 18, contando as que têm outras causas junto. Essas 18 somam 990 mortes, mas parte delas vem das outras causas anotadas. A cinza e os fragmentos lançados aparecem em 99 erupções, e os fluxos piroclásticos, em 57.
| Erupção | Ano | Causa principal registrada | Mortes |
|---|---|---|---|
| Pelée, Martinica | 1902 | fluxos piroclásticos | 28.000 |
| Nevado del Ruiz, Colômbia | 1985 | lahares | 23.080 |
| Kelud, Indonésia | 1919 | lahares | 5.110 |
| Lamington, Papua-Nova Guiné | 1951 | fluxos piroclásticos | 2.942 |
| Oku (lago Nyos), Camarões | 1986 | gás | 1.700 |
| Mayon, Filipinas | 2006 | lahares depois da erupção | 1.266 |
| Nyiragongo, Congo | 2002 | lava | 100 |
Algumas das erupções com mais mortes desde 1900 e o único caso de lava sozinha com 100 mortes ou mais desde 2000. Número de mortes do campo "deaths" do banco da NOAA, que não soma efeitos secundários.
Cinza que pesa e ondas que vêm do mar
A cinza e os fragmentos de rocha lançados pela explosão também matam, sobretudo perto da cratera. Como causa única, ela responde por 558 mortes desde 1900 no banco da NOAA, mais que o dobro das mortes pela lava.
Há ainda o mar. A erupção do Krakatoa, em agosto de 1883, tem 2.000 mortes atribuídas à própria erupção e 36.417 quando se somam os efeitos secundários, entre eles o tsunami. Como no tsunami meteorológico de Santa Catarina, a onda nem sempre nasce de um terremoto.
O tamanho da erupção não diz quantos morrem
A força de uma erupção é medida pelo Índice de Explosividade Vulcânica, que vai de 0 a 8. O Nevado del Ruiz de 1985 tem índice 3 no banco da NOAA e matou 23.080 pessoas. O Pinatubo de 1991 tem índice 6, três degraus acima, e 350 mortes diretas, ou 800 com os efeitos secundários.
O que separa uma tragédia da outra é quem está no caminho da lama, da nuvem quente ou do gás, e se houve tempo de sair. É a mesma lógica dos terremotos, em que a magnitude não mede o estrago.
E o Brasil, corre algum desses riscos?
O Brasil não tem vulcão ativo. O vulcanismo brasileiro ficou no passado geológico, e o exemplo mais conhecido está no meio do Atlântico: Fernando de Noronha é o topo de um vulcão extinto que começou a se formar há cerca de 12 milhões de anos, segundo o Serviço Geológico do Brasil.
Para quem viaja, a lição serve para destinos como Chile, Equador, Indonésia, Itália ou Havaí. O risco maior em volta de um vulcão está nos vales por onde descem a lama e as nuvens quentes, e nas baixadas onde o gás pode se juntar.
Os limites de uma conta feita com mortes registradas
O banco da NOAA reúne relatos históricos, e os números de erupções antigas são estimativas. Em 1.057 mortes desde 1900 a causa não foi anotada, e em 11.206 há mais de uma causa, sem divisão entre elas. A conta por causa única, portanto, mostra a tendência, não um placar exato.
O campo de mortes usado aqui não soma efeitos secundários, como fome e doença depois da erupção. Com eles, o total muda bastante em casos como Krakatoa e Pinatubo. Mesmo assim, em nenhum recorte a lava se aproxima dos fluxos piroclásticos e dos lahares.
Fontes: banco de erupções vulcânicas significativas da NOAA/NCEI (dados abertos pela API, 791 erupções de 1600 a 2026, lidos em 1º/10/2026), com contagem própria por causa e por ano. Páginas do Programa de Riscos Vulcânicos do USGS sobre lava, fluxos piroclásticos, lahares e gases.



