Ciência e tecnologia

A missão Smile, da agência espacial europeia e da Academia Chinesa de Ciências, começou a ciência para medir o escudo magnético da Terra, e quer descobrir por que tempestades solares ainda pegam satélites, rádios e redes elétricas de surpresa

A Terra tem um escudo magnético que segura o vento de partículas do Sol, mas ninguém nunca o viu inteiro. A Smile, parceria da ESA com a China, ganhou aval em 23 de setembro para tentar. São quatro instrumentos e três perguntas que mexem com satélites, rádio e rede elétrica.

Satélite da missão Smile, dourado, ao lado de dois técnicos de roupa branca numa sala limpa, antes do lançamento

A Smile (à direita, coberta de manta dourada) numa sala limpa do Centro Espacial Guianense, durante o abastecimento de combustível, em março de 2026. Foto: ESA/CNES/Avio/Optique vidéo du CSG, J. Georget, ESA, licença ESA Standard, recortada.

A missão Smile vai medir como o vento solar bate no escudo magnético da Terra e como isso acende as auroras. A meta final, segundo a ESA, é prever tempestades solares com dias de antecedência, e não com cerca de uma hora, como hoje.

O que é o escudo que a Smile vai olhar

O Sol solta sem parar um fluxo de partículas com carga elétrica, o vento solar. A Terra se defende com a magnetosfera, uma bolha de linhas de campo magnético que vem, em boa parte, de dentro do planeta.

Desde os anos 1950 se sabe que essa bolha existe. O problema, diz a ESA, é que ela é invisível, enorme e a gente vive dentro dela. Até hoje, as naves só mediram o campo no ponto onde estavam, o que dá um retrato aos pedaços.

Quatro instrumentos, uma imagem só

Infográfico da ESA com o satélite Smile no centro e os quatro instrumentos de ciência ao redor, cada um com uma legenda curta em inglês
Os quatro instrumentos da Smile em infográfico da ESA (textos em inglês). Ilustração: ESA, licença CC BY-SA 3.0 IGO.

A Smile é a sigla de Solar wind Magnetosphere Ionosphere Link Explorer, uma missão da ESA com a Academia Chinesa de Ciências. Ela decolou em 19 de maio de 2026 e chegou à órbita de trabalho em 20 de junho.

Dois instrumentos olham de longe, como câmeras. Os outros dois medem no local, em volta do satélite. Juntos, segundo a ESA, cada um traz uma peça do quebra-cabeça que só se encaixa com as outras três.

O que a missão Smile vai medir, instrumento por instrumento

InstrumentoQuem lideraO que medeComo mede
Câmera de raio X (SXI)ESA (feita pela Universidade de Leicester, no Reino Unido)Posição, forma e movimento da fronteira do escudo magnéticoDe longe, em imagens de campo largo
Câmera ultravioleta (UVI)Academia Chinesa de Ciências, com contribuições da ESAO anel de aurora em volta do Polo Norte, de dia e de noiteDe longe, em fotos e vídeos
Magnetômetro (MAG)Academia Chinesa de CiênciasForça e direção do campo magnético que o vento solar carregaNo local, com dois sensores a 80 cm um do outro, na ponta de uma haste de 3 metros
Analisador de íons leves (LIA)Academia Chinesa de CiênciasAs partículas do vento solar que chegam ao satéliteNo local, com dois sensores na plataforma

Arte: Watts & Wild, com dados das páginas da ESA sobre a caixa de ferramentas da Smile e as câmeras de raio X e ultravioleta.

Os dois sensores de partículas e de campo magnético usam o que as missões europeias Cluster e Double Star ensinaram. A novidade está nas duas câmeras, que juntas dão a primeira visão simultânea de causa e efeito: o escudo sendo empurrado e a aurora acendendo.

Primeira pergunta: o que acontece onde o vento bate

Do lado do Sol, o vento aperta a borda da magnetosfera. Em cerca de 50% do tempo, as linhas do campo solar apontam no sentido contrário às da Terra. Quando o Sol está agitado, elas podem se ligar e estalar como elásticos esticados demais.

Esse estalo, a reconexão magnética, joga partículas em alta velocidade rumo aos polos, onde acendem as auroras. A ESA diz que a Smile deve mostrar por que às vezes isso é um processo estável e às vezes é uma explosão rápida.

Infográfico da ESA mostrando a câmera de raio X da Smile olhando a fronteira do campo magnético da Terra, com a Terra e linhas de campo ao centro
Como a câmera de raio X da Smile enxerga a fronteira do escudo magnético, em infográfico da ESA (textos em inglês). Ilustração: ESA, licença CC BY-SA 3.0 IGO.

É aí que entra a câmera de raio X. Quando partículas do vento solar esbarram em átomos neutros da alta atmosfera, elas emitem raios X, um efeito descoberto em 1996 num cometa. A câmera da Smile vai acompanhar a borda do escudo por vários anos, a primeira a fazer isso.

Segunda pergunta: por que a noite do planeta também sofre

O escudo tem cauda, esticada para o lado sem Sol como a biruta de um aeroporto. Ali, as linhas de campo às vezes se apertam e se religam perto da Terra. Cada episódio, chamado subtempestade, lança uma rajada de partículas aos polos.

Subtempestades acontecem quase todo dia. Mesmo assim, a ESA lembra que o gatilho do aperto das linhas segue em disputa entre os cientistas. A Smile vai medir quantas ocorrem, quão fortes são e quanto mexem no campo da Terra. A agência espera cerca de 300 em três anos.

Terceira pergunta: como avisar a tempestade grande mais cedo

Em 1859, o astrônomo Richard Carrington viu um clarão no Sol e, nos dias seguintes, os telégrafos da Terra enlouqueceram e a aurora apareceu até nos trópicos. A causa foi uma ejeção de massa coronal, uma bolha de plasma que o Sol lança no espaço.

Hoje, as naves existentes avisam uma tempestade geomagnética com cerca de uma hora de antecedência. Com modelos melhores do sistema Sol-Terra, a Smile deve ajudar a prever com alguns dias, segundo a ESA, o que daria tempo de tomar medidas antes de a ejeção chegar.

Por que isso importa para rede elétrica, satélite e rádio

As correntes elétricas criadas por esses distúrbios podem sobrecarregar redes de energia e satélites. A ESA lista ainda o risco para as comunicações por rádio e para astronautas em órbita. Como cada efeito pesa em cada tecnologia, veja a matéria sobre o que uma erupção solar derruba.

A Smile também quer descobrir como uma tempestade termina. Essa resposta ajuda a dar o sinal de que é seguro religar as redes elétricas, segundo a agência. Nos polos, o efeito mais visível é a aurora, assunto da matéria sobre as 45 horas seguidas de filmagem do anel de aurora.

O que a missão Smile já mostrou e o que vem a seguir

A câmera ultravioleta já filmou o anel de aurora do Polo Norte por 45 horas seguidas, contra cerca de 15 horas de missões anteriores. A de raio X fez testes e ainda capta luz indesejada demais quando olha para a Terra.

Segundo a ESA, essa luz deve chegar ao mínimo em meados de outubro. Aí a câmera poderá fazer a primeira boa imagem da magnetopausa, a fronteira do escudo, ou da cúspide polar, um buraco no campo sobre o Polo Norte. Quem acompanha aurora no Sul pode ler também sobre a anomalia do Atlântico Sul.

Promessa de agência, não resultado em mãos

Quase tudo acima é objetivo declarado pela ESA, no futuro do verbo: a Smile vai medir, deve ajudar, pode melhorar. O que já saiu são as primeiras imagens e dados de teste dos instrumentos e a aprovação de 23 de setembro para começar a ciência.

A previsão com dias de antecedência depende de modelos que ainda não existem. As 300 subtempestades são estimativa para três anos de operação. A câmera de raio X ainda precisa vencer a luz indesejada. E o efeito no Brasil não aparece nas páginas da ESA, então a matéria não o trata.

Fontes: ESA, Science begins for Smile, 30 de setembro de 2026. ESA, Top three mysteries Smile will solve. ESA, Smile science toolbox. ESA, Smile X-ray vision. ESA, Smile ultraviolet vision.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.