Erupção solar pode derrubar internet, celular ou Pix? Pela escala da NOAA, o estrago maior fica no GPS, no rádio de ondas curtas e, nos casos extremos, na rede elétrica
O Sol solta clarões e nuvens de matéria o tempo todo, e o centro de clima espacial da NOAA, a agência americana de oceano e atmosfera, mede cada golpe numa escala de 1 a 5. A gente traduziu essa tabela para quem usa celular, GPS e Pix no Brasil.
Erupção solar de classe X1.1 registrada pelo Observatório de Dinâmica Solar (SDO) em 19 de outubro de 2014, vista em ultravioleta extremo. Imagem: NASA/SDO, NASA Image Library, domínio público, recortada.
Pela escala oficial da NOAA, internet de celular e Pix não estão na lista do que uma erupção solar derruba. O que ela atinge é o rádio de ondas curtas, a precisão do GPS, os satélites e, nos casos extremos, a rede elétrica.
E nesta sexta-feira (2) o Sol estava quieto. O painel do Centro de Previsão do Clima Espacial (SWPC) marcava zero nas três escalas às 21h27 de Brasília. Nenhuma erupção forte atingiu a Terra hoje.
Na erupção solar, primeiro vem o clarão e depois a nuvem
Erupção solar é um clarão de radiação que dura de minutos a horas. A NASA compara com a escala de terremoto: cada classe tem dez vezes a energia da anterior. As maiores, diz a agência, soltam a energia de um bilhão de bombas de hidrogênio.
Esse clarão viaja na velocidade da luz. Quando a gente vê a erupção, o efeito no lado da Terra que está de dia já começou, segundo o SWPC. Não dá tempo de avisar ninguém.
Muitas vezes vem junto uma ejeção de massa coronal, uma nuvem de material solar que sai a mais de 1,6 milhão de km/h. As mais rápidas chegam aqui em 15 a 18 horas; as lentas levam dias. Essa dá tempo de prever.
Agora, o alívio. A NASA lembra que nada disso faz mal direto a quem está no chão, porque o campo magnético e a atmosfera seguram o pior. O alvo é a tecnologia.
As três letras que a NOAA usa
O SWPC separa o problema em três escalas, todas de 1 (fraco) a 5 (extremo). R é o apagão de rádio, que vem do raio X do clarão. S é a tempestade de radiação, feita de prótons. G é a tempestade geomagnética, o tranco da nuvem no campo magnético da Terra.
Pense assim: a letra diz de onde vem o golpe, e o número diz o tamanho dele. Um G5 é a tempestade geomagnética no volume máximo.
O que cada nível faz com o GPS, o rádio e a luz de casa
| Nível | GPS e navegação | Rádio de ondas curtas | Rede elétrica | Vezes por ciclo |
|---|---|---|---|---|
| R3 | Sinais de navegação de baixa frequência pioram por cerca de 1 hora | Perda de contato por cerca de 1 hora no lado de dia | Não listado | 175 |
| R5 | Erro de posição por satélite por horas no lado de dia | Apagão total no lado de dia por horas | Não listado | Menos de 1 |
| S3 | Erros de posição prováveis | Piora nas regiões polares | Não listado | 10 |
| S5 | Navegação extremamente difícil | Apagão possível nas regiões polares | Não listado | Menos de 1 |
| G1 | Não listado | Não listado | Flutuações fracas | 1.700 |
| G3 | Problemas intermitentes | Sinal intermitente | Correção de tensão e alarmes falsos | 200 |
| G5 | Navegação por satélite degradada por dias | Impossível em muitas áreas por 1 a 2 dias | Algumas redes podem entrar em colapso, com apagão; transformadores podem ser danificados | 4 |
Tradução da redação da tabela oficial de escalas da NOAA/SWPC. Ciclo solar: cerca de 11 anos.
Faça a conta com a gente. A rede elétrica só ganha risco sério no G4 e no G5, que a NOAA estima em 60 e 4 dias por ciclo. São 64 dias em 11 anos, menos de seis por ano. E o G5, o do apagão, fica em quatro dias.
E o celular?
O SWPC escreve que há receptor de GPS em quase todo celular. Em dia calmo, o GPS mais simples, de uma frequência só, erra a posição em um metro ou menos. Numa tempestade forte, o erro pode passar de dezenas de metros.
Na vida real, seria o mapa do aplicativo te pondo na rua de trás. Chato, mas passa. Já a ligação e a internet do celular correm por antenas e cabos aqui embaixo, e não aparecem na lista de impactos das três escalas.
O Pix na conta da redação
Aqui vai uma leitura da redação, porque nenhuma das fontes oficiais fala de Pix. O pagamento depende de internet, dos sistemas dos bancos e de energia elétrica. Desses três, só a energia aparece na tabela da NOAA.
Então o risco para o Pix seria indireto, por falta de luz, e num nível que a agência espera cerca de quatro vezes a cada 11 anos. Não existe na escala um degrau em que a erupção, sozinha, desliga o Pix.
O Brasil tem uma pedra no sapato só sua
Perto do equador magnético, que cruza o norte do Brasil, o céu tem um problema que nem precisa de tempestade. Depois do pôr do sol, nascem bolhas de plasma na ionosfera, a camada por onde passa o sinal do GPS.
O sinal treme ao atravessar essas bolhas, como a luz que dança no fundo de uma piscina. O SWPC diz que, perto do equador, até o GPS de duas frequências perde o sinal com frequência, e que isso faz parte do ciclo natural do dia e da noite.
Quem vigia isso aqui é o Inpe. O programa Embrace, criado em 2007, publica o mapa de cintilação S4. Segundo o instituto, a tremedeira pode deixar satélites de navegação indisponíveis e afetar até o transporte aéreo.
O lado bonito da história está aí em cima. Em janeiro, a NASA fotografou da estação espacial uma aurora em vermelho e roxo, cores que a agência chama de raras. No Sul do Brasil, a Serra Gaúcha também registrou um brilho parecido com aurora no mesmo mês.
Como saber se vem tempestade
O próprio painel do SWPC dá a previsão de três dias. Na consulta desta sexta, a chance de apagão de rádio fraco (R1 ou R2) era de 5% ao dia, e de 1% para R3 ou mais. A radiação S1 tinha 1%.
Para domingo (4), o painel prevê G1, o degrau mais baixo da escala geomagnética. É o nível de flutuação fraca na rede, que a NOAA conta em 1.700 vezes por ciclo. Quem gosta de aurora pode rever o satélite que filmou a aurora boreal por 45 horas.
E o próximo show do Sol visível daqui já tem data: o eclipse anular do sábado de Carnaval de 2027, com o anel de fogo completo no extremo sul do Rio Grande do Sul.
Até onde vai esta tradução
A tabela da NOAA descreve efeitos típicos, e os exemplos de aurora são de latitudes dos Estados Unidos. A frequência por ciclo é uma média.
A parte do Pix é leitura da redação, não de uma fonte oficial, e a conta de dias soma G4 e G5. Para a escala G, a NOAA dá dois números por nível, vezes e dias por ciclo, e a conta aqui usa os dias.
Fontes: NOAA/SWPC, escalas; NOAA/SWPC, GPS; NOAA/SWPC, erupções; NOAA/SWPC, ejeções de massa coronal; NOAA/SWPC, painel de 3/10/2026, 00h27 UTC; NASA; Inpe/Embrace, mapa S4.



