A Anomalia Magnética do Atlântico Sul enfraquece o campo magnético sobre o Rio Grande do Sul e ajuda a explicar por que a Serra Gaúcha já registrou um fenômeno raro parecido com aurora austral, em janeiro de 2026
O Rio Grande do Sul fica dentro da Anomalia Magnética do Atlântico Sul, área onde o campo magnético da Terra perde força. Essa fresta já permitiu, ao menos uma vez, o registro de um clarão raro no céu da Serra Gaúcha, ligado a uma tempestade solar intensa no início de 2026.
Aurora austral fotografada em George Town, na Tasmânia (esta imagem não é do Brasil; ela ilustra como o fenômeno aparece quando é visível). Foto: Chuq/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é uma região onde o escudo magnético da Terra perde força, sobre o centro-sul do Brasil. Em 20 de janeiro de 2026, essa fragilidade coincidiu com uma tempestade solar forte, e um fotógrafo registrou um clarão roxo no céu de Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul.
O fotógrafo Egon Filter, que já viajou seis vezes à Escandinávia para fotografar auroras boreais, capturou o clarão roxo em Cambará do Sul por volta das 21h de 20 de janeiro de 2026, segundo reportagem da Olhar Digital.
Fica na posição certa porque, sobre o Rio Grande do Sul, o campo magnético que normalmente barra partículas vindas do espaço é mais fraco. Essa fresta é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul.
Ela abre uma chance rara de ver luzes no céu que, em outras partes do planeta, só aparecem perto dos polos.
A anomalia é uma brecha onde o campo magnético protetor da Terra é mais fraco
O campo magnético da Terra funciona como um escudo contra partículas de radiação vindas do Sol e do espaço. Sobre uma faixa que cobre o centro-sul do Brasil, esse escudo é mais fino que no resto do planeta.
Segundo reportagem da NSC Total, o Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, mantém um pesquisador dedicado só a acompanhar essa área, hoje chamada de Anomalia Magnética do Atlântico Sul.
A anomalia cresce e já ocupa boa parte do centro-sul do Brasil
A área da anomalia não é fixa. Segundo a mesma reportagem, ela cresceu cerca de 7% entre 2020 e 2024 e vem se expandindo em direção ao oeste do continente.
A NASA e a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial dos Estados Unidos monitoram esse avanço porque satélites que cruzam a região precisam desligar componentes sensíveis para não serem danificados pela radiação.
A tempestade solar por trás do fenômeno foi uma das mais fortes em duas décadas
O clarão em Cambará do Sul aconteceu depois de uma explosão solar classificada como X1,9, seguida de uma tempestade geomagnética de categoria G4, considerada a mais intensa desde 2003, segundo a CNN Brasil.
O índice Kp, que mede a intensidade da perturbação magnética, chegou a 7,6 em uma escala que vai até 9. É esse tipo de tempestade que empurra partículas solares para mais perto da atmosfera nas regiões de campo mais fraco.
O INPE descartou a aurora clássica e apontou outra explicação possível
José Valentin Bageston, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais em Santa Maria (RS), descartou que o clarão fosse uma aurora clássica, já que os detectores de partículas do observatório não registraram nada naquela noite, segundo reportagem da Olhar Digital.
Para o pesquisador, a hipótese mais provável é a de um arco SAR, um fenômeno luminoso diferente, também ligado a tempestades geomagnéticas fortes.
O que é um arco SAR, a explicação alternativa dos cientistas?
Um arco SAR, ou arco vermelho estável, costuma aparecer como uma faixa avermelhada bem definida no céu, distinta da cortina colorida de uma aurora comum. Ele nasce de outro processo na alta atmosfera, também disparado por tempestades solares intensas.
É justamente por não deixar essa faixa vermelha bem definida na foto de Cambará do Sul que os cientistas consultados pela Olhar Digital ainda tratam o caso como um mistério em aberto.
O único registro científico publicado de aurora no Brasil aconteceu no Rio, não no Sul
O caso mais citado pela ciência não é o de Cambará do Sul. Em 17 de fevereiro de 1875, às 19h45, o astrônomo francês Emmanuel Liais, diretor do Observatório Imperial no Rio de Janeiro, observou raios de luz no céu com um espectroscópio.
As cores eram vermelhas embaixo e esverdeadas em cima, segundo o estudo do pesquisador Denny M. Oliveira, da Nasa, citado pela CNN Brasil.
O estudo, publicado em 2024, chama esse episódio de primeiro relato de uma aurora esporádica na América do Sul. Foi no Rio de Janeiro, não no Rio Grande do Sul, mas mostra que o fenômeno já tem raízes históricas no país.
Por que o Rio Grande do Sul é o ponto mais provável dentro da anomalia
Cássio Leandro Barbosa, professor de astrofísica do Centro Universitário FEI, afirmou à CNN Brasil que a anomalia, centrada perto da longitude 60º oeste, torna o extremo sul do Brasil um ponto favorável para esse tipo de observação em tempestades de alta intensidade.
Segundo ele, mesmo assim, ainda havia incerteza sobre se o clarão fotografado era mesmo um fenômeno natural de luminescência atmosférica ou outra coisa, o que reforça que nenhum cientista cravou uma resposta única até agora.
Ver aurora no Rio Grande do Sul continua sendo raro, mesmo dentro da anomalia
Estar dentro da anomalia não garante nada sozinho. É preciso também uma tempestade solar rara, céu limpo e, no caso de Cambará do Sul, uma câmera sensível o bastante para captar uma luz que nem sequer era visível a olho nu.
Comparações com o brilho contínuo da aurora boreal escandinava, por exemplo, como as previsões para o próximo eclipse solar mais longo do século, ajudam a lembrar que fenômenos astronômicos raros exigem sempre uma combinação exata de fatores.
O episódio de Cambará do Sul entra para a mesma lista de fenômenos que intrigam quem estuda o espaço perto da Terra, ao lado de casos como a nova cratera encontrada na Lua e o mistério sobre por que Vênus não tem lua própria.
Cientistas do INPE e da Nasa seguem observando a anomalia sobre o Brasil, e um novo evento solar forte pode esclarecer se o clarão gaúcho era mesmo parente da aurora austral. Você já ouviu falar dessa anomalia sobre o Brasil? Conte o que acha nos comentários.



