Mapa-múndi que a ONU recomenda mostra o Brasil e a África no tamanho real, e o de Mercator, das escolas, estica o sul do país
A Assembleia Geral da ONU aprovou em setembro um texto que pede mais uso do mapa Equal Earth, que desenha cada país com a área certa. A conta feita pelo Watts & Wild com dados do IBGE mostra o que o mapa antigo faz com o próprio Brasil.
América do Sul e África no mapa Equal Earth. Ilustração: mapa de Tom Patterson, via Wikimedia Commons (domínio público, CC0).
Quase todo mundo aprendeu geografia olhando para o mesmo mapa pendurado na parede da escola. Nele, a Groenlândia parece do tamanho da África, e o Brasil parece bem menor do que é.
O mapa que a ONU passou a recomendar é o Equal Earth, que desenha cada país com a área proporcional à real. A resolução foi aprovada pela Assembleia Geral em 4 de setembro, e a professora Fernanda Padovesi, da USP, explicou a mudança ao Jornal da USP nesta terça, 29.
O que a ONU aprovou?
O texto se chama "Corrigir o mapa" e tem o número A/80/L.104. Segundo o comunicado oficial da ONU, ele foi aprovado por 164 votos a favor, 1 contra, dos Estados Unidos, e 6 abstenções: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia.
A resolução pede o uso mais amplo de mapas de área igual, em especial o Equal Earth, nos casos em que o tamanho dos continentes importa. Ela foi apresentada pelo Togo em nome do grupo de países africanos, e a União Africana já tinha escolhido esse mapa.
O que muda no mapa Equal Earth
"Se uma área na superfície terrestre é quatro vezes maior do que outra área, no mapa, ela vai ser quatro vezes maior, mantendo os traçados dos continentes", explicou Fernanda, professora de Cartografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
O Equal Earth foi criado em 2018. Tem formato oval, com as bordas arredondadas, e por isso as formas dos países perto dos polos ficam um pouco tortas. Em troca, nenhum território ganha nem perde tamanho.
O mapa de Mercator foi feito para navegar
A projeção de Mercator é de 1569 e foi feita para navegar. A grande vantagem, segundo a professora, era desenhar as linhas de rumo como retas, o que deixava o navegador cruzar o oceano mantendo a mesma direção na bússola.
O preço disso é o tamanho. Quanto mais longe do Equador, mais o mapa estica. Pela fórmula da projeção, uma área a 60 graus de latitude aparece 4 vezes maior do que é, e a 80 graus, mais de 33 vezes.
A conta do Brasil no mapa das escolas
O Brasil tem 8.510.417 quilômetros quadrados, segundo o IBGE. O ponto mais ao norte fica a 5,27 graus norte, em Roraima, e o mais ao sul, a 33,75 graus sul, no Rio Grande do Sul.
Aplicando a fórmula de Mercator nessas duas latitudes, um quilômetro quadrado no extremo sul do Brasil é desenhado 43% maior do que um no extremo norte. No centro do país, a 10,8 graus sul, o aumento é de só 4%.
O Brasil parece pequeno por causa dos vizinhos do norte
O Brasil está quase todo perto do Equador, onde o Mercator mexe pouco, enquanto a Europa, o Canadá e a Rússia ficam em latitudes altas, onde o mapa estica muito.
O resultado é que o Brasil sai do tamanho quase certo, mas os países do norte saem inflados ao lado dele. O mesmo acontece com a África, cortada ao meio pela linha do Equador, e esse foi o argumento dos países africanos na ONU.
O mapa também é política
Para Fernanda, como a maioria dos países de latitude alta fica no Hemisfério Norte e participou de processos coloniais, a distorção técnica ganhou peso político. "A URSS gostava de utilizar a projeção de Mercator em seus mapas por conta da ampliação das áreas nas altas latitudes", lembrou.
Na ONU, o representante do Togo resumiu a proposta assim: "um mapa justo não muda a geografia do mundo; muda como vemos o mundo". A representante dos Estados Unidos votou contra e chamou esse tipo de resolução de "cracas" no trabalho da Assembleia.
A ONU não proibiu o mapa antigo
A resolução não proíbe o uso de outras projeções, só incentiva alternativas ao Mercator. A União Europeia apoiou o texto e registrou que ele vale para educação e conhecimento geográfico, sem efeito sobre fronteiras ou soberania.
Fernanda lembra que o Equal Earth não resolve tudo. Continua havendo a escolha de quem fica no centro do mapa e de quem fica em cima, e países muito pequenos, como algumas ilhas, seguem quase invisíveis no mapa-múndi.
Onde ver o mapa novo
O mapa da capa, feito pelo cartógrafo Tom Patterson, está em domínio público e pode ser baixado em alta resolução no Wikimedia Commons. A entrevista completa com a professora está no Jornal da USP.
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