Na hora de quebrar coco, o macaco-prego escolhe a pedra e o lugar que outros macacos já usaram, mostra teste feito na Serra da Capivara e em São Paulo
Pesquisadores espalharam pedras e comida no caminho de macacos-prego livres no Piauí e em São Paulo. Quando as pedras eram novas, os animais escolheram pela dureza. Quando havia pedras manchadas e cascas de coco deixadas por outros, a escolha mudou, e o estudo explica o motivo.
Filhote de macaco-prego usa uma pedra para abrir uma semente na Serra da Capivara. Foto: Tiago Falótico, coautor do estudo, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Na Serra da Capivara, no Piauí, é comum ver um macaco-prego sentado no chão, com uma pedra erguida nas mãos, batendo numa castanha apoiada em outra pedra. O que ninguém sabia era como ele escolhe essas pedras.
O macaco-prego prefere a pedra e o lugar que outros macacos já usaram, mesmo quando há material melhor por perto. É o que mostra um artigo na Proceedings of the Royal Society B, divulgado pelo Jornal da USP nesta terça, 29.
Como o macaco-prego usa pedras para comer?
A população da Serra da Capivara tem a maior diversidade de uso de ferramentas conhecida entre primatas não humanos. Os macacos usam pedras para quebrar frutos duros e para cavar atrás de raízes, tubérculos e bichos pequenos, e varetas para tirar presas de buracos.
Segundo o biólogo Tiago Falótico, um dos autores, só quatro grupos de primatas usam pedra como utensílio no dia a dia: o macaco-prego, o chimpanzé, o macaco-caranguejeiro da Ásia e o ser humano.
O experimento no caminho dos macacos
O estudo acompanhou duas populações livres: a do Parque Nacional da Serra da Capivara e a do Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo. Os pesquisadores já seguem esses grupos todos os dias, e o teste foi dividido em três etapas.
"Uma pessoa sempre ia um pouco à frente de onde os macacos estavam, montava a configuração do experimento e esperava algum deles se aproximar", contou Falótico ao Jornal da USP. "Era um processo totalmente voluntário."
Primeira etapa: a pedra mais dura vira martelo
Os macacos do Piauí receberam castanha de caju, e os de São Paulo, coquinho de Syagrus, junto com pedras artificiais de tamanho parecido e densidades diferentes.
As pedras mais duras viraram martelo, e as menos densas, bigorna, a base onde o alimento fica apoiado. Ou seja, os dois grupos sabiam diferenciar o material.
Segunda etapa: o lugar sujo de coco ganhou
Depois, a equipe montou dois sítios de quebra para cada animal, os dois com pedras de densidades diferentes. Um deles tinha restos de coco espalhados e pedras manchadas ou com marcas de uso.
Os sítios com esses sinais foram significativamente mais usados pelos macacos. É como escolher a mesa do restaurante que já tem prato sujo, porque ali alguém comeu bem.
Na terceira etapa, a marca de uso não pesou para o martelo
Na etapa final, as pedras usadas e as novas foram misturadas, sem restos de coco. Para martelo, os macacos não mostraram preferência por pedra gasta. Para bigorna, as já usadas foram as mais escolhidas.
Estudos anteriores já tinham mostrado que o macaco-prego observa os outros, mas não necessariamente repete os movimentos que vê. Neste teste, o que mudou a escolha foram os vestígios deixados no chão.
O macaco-prego aprende pelo rastro dos outros
Para os autores, o padrão confirma um tipo de aprendizagem social chamado realce de local, ou realce de estímulo. A atenção do animal vai para lugares e objetos que outros da mesma espécie já usaram, e ali ele aprende sozinho como o material funciona.
No resumo do artigo, os pesquisadores dizem que a escolha da ferramenta é moldada por pistas sociais indiretas, o que mostra o peso da informação transmitida culturalmente no aprendizado de técnicas.
O que isso diz sobre as ferramentas humanas
"As ferramentas de pedra são as mais antigas que identificamos na linhagem humana, mas essa prática já não é observada hoje", disse Falótico. Por isso, outros primatas servem de modelo para entender como o hábito evoluiu.
O pesquisador lembra que só usa pedra quem desce ao chão: "Animais que quase não descem para o solo não utilizam ferramentas de pedra, porque as pedras normalmente estão no chão."
Uma cultura que pode sumir antes da espécie
Falótico estuda os macacos da Serra da Capivara desde 2007. Lá, as fêmeas arremessam pedras nos machos para sinalizar o cio, comportamento de que a população local é a única conhecida.
O macaco-prego não está ameaçado de extinção, mas costumes de cada grupo podem acabar. "Se essas populações sumirem, a espécie vai continuar existindo, mas parte de sua diversidade comportamental será perdida para sempre", afirmou.
Quem fez o estudo
O artigo se chama Social cues on stone tools outweigh raw material properties in wild primates (pistas sociais nas ferramentas de pedra pesam mais que as propriedades do material em primatas selvagens).
O trabalho foi liderado por membros do Instituto Max Planck e do grupo de pesquisa Neoprego, com cientistas da USP e de instituições do Brasil, da Alemanha, dos Estados Unidos e de Portugal. O financiamento veio da Max Planck Society e da Fapesp.
O resumo pode ser lido no Europe PMC. Na seção de ciência há outras histórias da fauna brasileira, como a rã-de-vidro nova de Goiás, as abelhas sem ferrão de Vitória e o vírus que combate o cancro cítrico.



