Ciência e tecnologia

Manuscrito Voynich pode ter sido encadernado fora de ordem, aponta estudo que reúne pistas na escrita e nas ilustrações

O manuscrito Voynich pode ter sido encadernado com suas folhas fora da organização originalmente prevista, segundo um estudo que combina análise da escrita, continuidade das ilustrações e comparação estatística do texto. Conforme reportagem da Live Science, a hipótese ajuda a explicar inconsistências físicas do documento medieval, mas não representa uma tradução de seu conteúdo.

Imagem de divulgação: Manuscrito Voynich pode ter sido encadernado fora de ordem, aponta estudo que reúne pistas na escrita e nas ilustrações

Imagem: Divulgação/Live Science. Origem: livescience.com.

O que aconteceu: Lisa Fagin Davis e Colin Layfield propuseram que o manuscrito teria sido concebido como um conjunto de folhas dobradas independentes, posteriormente reunidas de maneira inadequada.

Por que importa: a sequência das páginas influencia quais trechos são comparados e interpretados como partes de um mesmo assunto. O documento está integralmente digitalizado pela Universidade Yale, o que permite examinar essas relações sem manusear o original, cujo acesso é restrito para preservação.

O que muda para você: quem acompanha o mistério ganha uma hipótese sobre a organização do manuscrito, não uma solução para sua escrita. As imagens disponíveis no acervo digital permitem observar os desenhos e a disposição das páginas, mas o significado do texto continua desconhecido.

Escritas alternadas e desenhos interrompidos motivaram a investigação

O estudo foi publicado em 19 de outubro na revista Digital Medievalist. Seus autores são Lisa Fagin Davis, diretora-executiva da Medieval Academy of America, e Colin Layfield, pesquisador de sistemas de informação da Universidade de Malta.

Ao investigar quantas pessoas haviam copiado o documento, Davis identificou mudanças de caligrafia em uma sequência que considerou difícil de explicar.

Outra pista aparece nas ilustrações. Há desenhos que chegam à margem interna de uma página e parecem continuar em outra, embora várias páginas estejam posicionadas entre elas.

Essas características levaram os pesquisadores a questionar a montagem do volume. A hipótese é que alguém tenha encadernado folhas cuja organização não compreendia, possivelmente por não conseguir ler o conteúdo.

Manuscrito Voynich pode ter sido encadernado fora de ordem, aponta estudo que reúne pistas na escrita e nas ilustrações
Divulgação/Live Science. [Fonte original](https://www.livescience.com/archaeology/undeciphered-voynich-manuscript-may-have-been-bound-out-of-order-study-finds)
Imagem de divulgação: Manuscrito Voynich pode ter sido encadernado fora de ordem, aponta estudo que reúne pistas na escrita e nas ilustrações
Imagem: Divulgação/Live Science. Origem: livescience.com.

Folhas dobradas podem ter sido reunidas como um livro

Manuscritos medievais costumavam ser produzidos com folhas de pergaminho, material feito de pele animal. Uma folha dobrada ao meio forma um bifólio: duas folhas do livro, com quatro faces disponíveis para escrita.

Na montagem tradicional, vários bifólios são encaixados uns dentro dos outros para formar um caderno. Depois, os cadernos são unidos pela lombada.

Davis e Layfield sugerem outra estrutura para o Voynich. Em vez de cadernos compostos por várias folhas encaixadas, o material teria sido organizado em unidades independentes, cada uma formada por um único bifólio. Essas unidades são chamadas de “singulions”.

A diferença altera a sequência de leitura. Quando folhas independentes são encaixadas como se pertencessem a um mesmo caderno, trechos originalmente próximos podem acabar separados por várias páginas.

Segundo os autores, essa proposta ajuda a explicar tanto a distribuição das caligrafias quanto a continuidade de imagens que hoje parecem interrompidas.

Análise estatística busca relações sem traduzir o texto

Para testar a hipótese, Layfield empregou a análise semântica latente, conhecida pela sigla LSA. A técnica compara padrões de ocorrência dos elementos de um texto para identificar semelhanças entre blocos.

No caso do Voynich, isso permite procurar relações estatísticas sem conhecer o significado das palavras. Algumas páginas apresentaram baixa similaridade entre si, enquanto outras mostraram maior proximidade, reforçando a possibilidade de agrupamentos diferentes dos atuais.

O resultado exige uma distinção: semelhança estatística não equivale a tradução. O método pode indicar que dois trechos compartilham padrões, mas não revela, por si só, o assunto tratado.

A interpretação também parte da hipótese de que existe uma mensagem no documento. Os pesquisadores ainda não estabeleceram uma leitura definitiva nem determinaram se a escrita corresponde a um código.

Quadro de serviço: o que se sabe e o que falta descobrir

Reordenar as páginas e decifrar a escrita são problemas diferentes

A contribuição do estudo está em questionar uma premissa: a de que a ordem atual corresponde à organização pretendida por quem produziu o documento.

Se essa premissa estiver errada, análises que procuram continuidade entre páginas consecutivas podem estar comparando trechos que originalmente não eram vizinhos. Por outro lado, passagens relacionadas podem ter sido separadas durante a encadernação.

Corrigir a sequência poderia melhorar as condições para novas investigações. Ainda assim, não resolveria automaticamente o sistema de escrita, o vocabulário ou o conteúdo.

A proposta também não significa que todo trabalho anterior perdeu validade. A necessidade de revisão recairia especialmente sobre interpretações que dependem da ordem atual das páginas.

Manchas de água podem fornecer uma pista física adicional

Os pesquisadores pretendem investigar uma mancha de água presente na margem superior de algumas páginas. Segundo Davis, sua distribuição não apresenta a correspondência esperada entre folhas vizinhas.

Comparar o formato dessas marcas pode ajudar a identificar quais partes estiveram próximas em outro momento da história do manuscrito.

Essa etapa permitiria confrontar os agrupamentos sugeridos pelo texto com vestígios materiais. Por enquanto, a análise das manchas é uma linha de investigação proposta, não uma reconstrução concluída.

Fonte: livescience.com.

Leia também: Folhas vão esquentar mais que o ar, aponta estudo · Creatina sem academia dá músculo? O que mostra o estudo · Como ler um estudo científico sem cair no exagero

Fonte: livescience.com.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.