A diferença de temperatura entre as folhas das plantas e o ar deve crescer cerca de 16% até o fim do século, e as savanas do Sudeste brasileiro estão entre as áreas de maior alta, aponta estudo
Hoje, a superfície das áreas com vegetação fica em média 0,70 °C acima do ar. No cenário de altas emissões, a diferença chega a 0,81 °C no fim do século. Veja por que o ar seco esquenta as folhas, onde o efeito é maior e por que os modelos de clima erram.
Cerrado na APA Morro da Pedreira, em Minas Gerais. O estudo põe as savanas do Sudeste brasileiro entre as áreas de maior alta. Foto: Arthur Bruck/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
As folhas das plantas vão esquentar mais que o ar à sua volta. A diferença entre a temperatura da superfície com vegetação e a do ar deve passar de 0,70 °C para 0,81 °C até 2085-2099, uma alta de cerca de 16%.
A conta está num estudo publicado em 11 de maio de 2026 na Nature Communications, liderado por Julia K. Green, professora assistente do Departamento de Ciência Ambiental da Universidade do Arizona, com Trevor F. Keenan, Xu Lian, David J. P. Moore e Philippe Ciais. A universidade divulgou o resultado em 20 de julho.
Para Green, quem estuda plantas olhando só a temperatura do ar vai subestimar o efeito do calor sobre elas.
Por que as folhas esquentam mais que o ar
Green compara a folha ao asfalto de um estacionamento num dia de sol. Quem põe a mão no chão sente que ele está muito mais quente que o ar. Com as plantas acontece o mesmo: as folhas recebem a radiação direta do sol e podem esquentar bem acima do ar em volta.
O suor das plantas
As plantas têm um jeito de se refrescar, a transpiração. Em dias quentes, elas levam água até a superfície da folha, onde ela evapora e esfria a folha. "É parecido com o que nós fazemos quando suamos", disse Green no comunicado da universidade.
O problema aparece quando o calor vem com ar seco. A planta perde água tentando se esfriar e não consegue repor. Nessa hora, muitas espécies fecham a fotossíntese e a transpiração, e a folha passa a esquentar bem mais rápido que o ar.
O ar seco é o que mais pesa
Com modelos de aprendizado de máquina, os autores procuraram o que explica onde a diferença mais cresce. Três fatores responderam por boa parte do padrão: a área de folhas, o déficit de pressão de vapor, que mede a secura do ar, e o calor gasto para evaporar água.
Onde o ar fica mais seco e a evaporação cai, a diferença sobe mais. O ar mais seco puxa mais água das folhas, a planta fecha os poros, transpira menos e esquenta, num ciclo que se realimenta. Mais folhas, ao contrário, ajudam a esfriar a superfície quando há água no solo.
Savanas do Sudeste do Brasil no mapa de risco
As maiores diferenças previstas aparecem em regiões áridas, sobretudo as que devem ficar mais secas. Também há alta forte em áreas de transição que caminham para a secura, como os campos do centro dos Estados Unidos e as savanas do Sudeste do Brasil, da Venezuela e da Colômbia.
Segundo os autores, essas regiões têm uma ligação forte entre solo e atmosfera: a seca reduz a evaporação, o que seca ainda mais o ar no local e nas áreas vizinhas. O estudo cita ainda a floresta tropical da Guiana, que outros trabalhos apontam como sob risco de virar savana.
Amazônia: alta pequena em graus, grande em proporção
Nas regiões úmidas perto do equador, a alta prevista é menor em graus, abaixo de 0,2 °C. Mas na Amazônia, na floresta do Congo e no leste da Ásia, isso representa cerca de 70% a mais que a diferença atual. Nas florestas tropicais de folhas largas, a alta média é de 37%.
"Os lugares que mais me preocuparam foram as regiões tropicais", disse Green. Segundo ela, as plantas tropicais estão pouco acostumadas a grandes variações de temperatura, e mudanças pequenas já podem pesar nesses ecossistemas.
Onde a diferença deve cair
A alta aparece em cerca de 81% das áreas com vegetação, mas há exceções. A diferença deve cair no Sahel e no leste da África, em partes da China e em áreas do extremo norte, como Alasca, leste da Rússia e norte da Noruega.
Nessas regiões, os modelos preveem mais umidade no solo, alta menor na secura do ar e aumento da área de folhas, o que deve aliviar o estresse das plantas.
Os modelos de clima erram para menos
A mediana dos modelos de clima subestima a diferença entre folhas e ar em 54% das áreas com vegetação no período atual. No fim do século, a subestimação chega a 60% das áreas. Quando se olha a mudança entre hoje e o futuro, sobe para 66%.
Na prática, os modelos tratam como se mais energia fosse gasta para evaporar água e menos para esquentar a superfície, o que distorce o balanço de energia do planeta.
Como a conta foi feita
Medir a temperatura das folhas no planeta inteiro é difícil. Os satélites de infravermelho só enxergam em céu limpo, o que pode superestimar a média mensal em até 5,6 °C. Já a temperatura do ar é medida por estações espalhadas pelo mundo.
A equipe usou a relação entre as duas temperaturas nos modelos da sexta fase do projeto internacional de comparação de modelos climáticos, o CMIP6. Com dados observados de 2000 a 2014, calibrou o presente e projetou o futuro num cenário de alto uso de combustíveis fósseis.
Os limites da conta
Os próprios autores dizem que as altas regionais de 0,25 a 0,5 °C até 2100 são estimativas conservadoras. Os dados são médias mensais em áreas de cerca de 1 grau de lado, que misturam folhas ao sol e à sombra e escondem os dias de seca e onda de calor.
Boa parte da alta acontece perto do meio-dia e no começo da tarde, e o dano por calor numa folha pode surgir em minutos. Os modelos também não incluem queda de folhas, morte de plantas, incêndios e pragas.
No sentido contrário, as plantas podem se aclimatar ao calor, algo que os modelos em geral não representam. Mas há debate sobre se as florestas tropicais conseguem fazer isso.
O que muda para a fotossíntese e a chuva
"As plantas têm uma temperatura ideal para a fotossíntese", disse Green. Acima dela, a planta tira menos gás carbônico do ar, e mais carbono na atmosfera acelera o aquecimento. Ela cita ainda mudanças na distribuição da vegetação e episódios de morte de plantas.
A transpiração também alimenta nuvens e chuva. Planta que fecha os poros manda menos vapor para o ar, o que pode mudar a chuva, a cobertura de nuvens e a radiação que chega ao solo.
Mais sobre clima e vegetação no site: os alertas de desmatamento no Cerrado em 2026, o limite de desmatamento da Amazônia segundo Carlos Nobre e o calor de 41 °C em Goiás.
Perguntas rápidas
O que é a temperatura do dossel?
É a temperatura que as plantas sentem na superfície das folhas. Em áreas com vegetação, ela é medida por satélite como temperatura da superfície terrestre, que pode ser bem diferente da temperatura do ar medida nas estações meteorológicas.
O que é déficit de pressão de vapor?
É a diferença entre a quantidade de vapor de água que o ar poderia conter e a que ele contém de fato. Quanto maior o déficit, mais seco está o ar e mais água ele puxa das folhas.
O Brasil aparece no estudo?
Sim. As savanas do Sudeste brasileiro estão entre as regiões com as maiores altas previstas na diferença entre folhas e ar. Na Amazônia, a alta em graus é pequena, mas chega a cerca de 70% em relação à diferença atual.
Por que folha quente importa para o clima?
Acima da temperatura ideal, a fotossíntese cai e a planta tira menos gás carbônico do ar. Segundo Julia K. Green, autora principal, mais carbono na atmosfera acelera o aquecimento.



