Ciência e tecnologia

Só 36% dos 749 preprints de saúde postados no medRxiv em janeiro de 2023 tinham chegado a uma revista até outubro de 2026, e os que chegaram levaram em mediana 202 dias

Quando uma manchete diz que um estudo provou algo, o trabalho original pode falar só em associação, numa amostra pequena, ainda sem revisão. Quatro perguntas separam o achado do exagero: onde o trabalho saiu, quantos foram estudados, qual é a margem de incerteza e quanto o efeito muda de verdade.

Dois pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos EUA analisam gráficos num monitor, a etapa de dados que sustenta cada estudo científico

Pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos EUA revisam dados num laboratório. Foto: Rhoda Baer, Instituto Nacional do Câncer dos EUA (NCI), domínio público, via Wikimedia Commons.

Antes de acreditar na manchete, vale checar quatro coisas no estudo científico. Se ele já passou por revisão por pares ou ainda é preprint, o tamanho da amostra, a largura do intervalo de confiança e se o efeito anunciado é relativo ou absoluto. Cada uma muda o peso da notícia.

Preprint é estudo que ainda não passou por revisão

Preprint é a versão de um trabalho que os autores põem na internet antes da avaliação de uma revista. O servidor de preprints de saúde medRxiv avisa no próprio site que esses textos são relatos preliminares, sem certificação por revisão por pares.

O mesmo aviso diz que preprints não devem orientar a prática clínica nem decisões de saúde, e não devem ser noticiados como informação estabelecida. A triagem básica feita pelo servidor, segundo ele, não significa aval aos métodos, às conclusões nem à qualidade do trabalho.

Quantos preprints chegam a uma revista

O Watts & Wild baixou pela API pública do medRxiv os 749 preprints postados pela primeira vez em janeiro de 2023. O servidor registra quando um deles sai numa revista. Até 1º de outubro de 2026, 271 tinham esse registro, ou 36%.

Quase dois em cada três não aparecem como publicados, mais de três anos e meio depois. Entre os que chegaram, a demora mediana foi de 202 dias. Em seis meses, 15% do grupo tinha revista registrada. Em um ano, 28%, e em dois anos, 34%.

Gráfico de linha com a parcela dos preprints do medRxiv de janeiro de 2023 que chegaram a uma revista, de 15% em seis meses a 36% em 2026
Parcela dos 749 preprints postados no medRxiv em janeiro de 2023 com publicação em revista registrada, mês a mês. Arte: Watts & Wild, com dados da API do medRxiv.

A falta de registro não prova que o trabalho estava errado, e o sistema de ligação do medRxiv pode deixar de captar alguns casos. Ainda assim, a conta mostra que, no dia em que vira notícia, um preprint pode estar longe da forma final.

Gráfico de barras com o tempo que os preprints do medRxiv de janeiro de 2023 levaram até a revista, com 478 sem revista registrada
Destino dos 749 preprints de janeiro de 2023, pelo tempo até a publicação em revista. A barra vermelha mostra os que seguem sem registro. Arte: Watts & Wild, com dados da API do medRxiv.

As áreas variam. Em epidemiologia, 48 dos 108 preprints de janeiro de 2023 chegaram a uma revista, ou 44%. Em informática em saúde, foram 6 de 31, ou 19%. Entre as revistas que mais receberam esses trabalhos estão PLOS ONE, com 21, eLife, com 13, e Nature Communications, com 8.

O que a revisão por pares acrescenta

Na revisão por pares, a revista envia o manuscrito a outros pesquisadores da área, que avaliam métodos e conclusões e podem pedir mudanças antes da publicação. É uma etapa de controle, mas o resultado continua sendo um estudo, com os limites do seu desenho e da sua amostra.

Por isso existem as revisões sistemáticas, que juntam vários trabalhos sobre a mesma pergunta. O Manual Cochrane, guia usado por quem faz esse tipo de revisão em saúde, dedica um capítulo inteiro a como interpretar resultados sem tirar deles mais do que mostram.

Amostra pequena deixa a resposta mais incerta

Segundo o Manual Cochrane, a largura do intervalo de confiança de um estudo depende em grande parte do tamanho da amostra. Estudos maiores tendem a dar estimativas mais precisas, com intervalos mais estreitos. Em medidas contínuas, como pressão ou peso, conta também o quanto as pessoas variam entre si.

Por isso a segunda pergunta diante de um estudo científico é quantas pessoas, animais ou amostras foram analisados. Um efeito grande numa amostra pequena tende a vir com uma margem de incerteza enorme, e essa margem precisa aparecer junto com o número principal.

O intervalo de confiança mostra o quanto se sabe

O resultado de um estudo vem com uma estimativa e um intervalo em volta dela. O manual dá o exemplo de uma razão de chances de 0,75, com intervalo de confiança de 95% entre 0,70 e 0,80. O número central é a melhor estimativa, e o intervalo descreve a incerteza.

Um intervalo de 0,60 a 0,93 traz mais incerteza, mas ainda pode bastar para uma decisão, diz o texto. Já um intervalo muito largo, como 0,50 a 1,10, indica que se sabe pouco sobre o efeito. Nesse caso, a faixa inclui o valor 1, que significa nenhuma diferença.

Menos 25% pode ser só 1 ponto percentual

O Manual Cochrane lembra que médicos podem se inclinar mais a receitar algo que reduz em 25% o risco relativo de morte do que algo que reduz o risco em 1 ponto percentual. As duas frases podem descrever o mesmo benefício: um risco que cai de 4% para 3%.

Quando a notícia trouxer uma porcentagem de redução, vale procurar o risco de partida. Cair 25% num risco de 4% é bem diferente de cair 25% num risco de 40%. No primeiro caso, uma pessoa em cada 100 deixa de ter o problema. No segundo, dez.

P pequeno não quer dizer efeito importante

O valor P, o famoso P menor que 0,05, responde se o efeito do tratamento é exatamente zero. Segundo o Cochrane, ele não examina se o efeito tem um tamanho que importe para quem o recebe. Num estudo grande, um P pequeno pode indicar um efeito trivial.

O manual recomenda não chamar resultados de estatisticamente significativos ou não significativos e não depender de limites para o valor P. O caminho indicado é relatar o intervalo de confiança junto com o valor P exato, para que se veja o tamanho do efeito e a incerteza.

Sem evidência de efeito não é prova de que não há efeito

O Cochrane aponta como erro comum confundir as duas ideias. Quando o intervalo de confiança é largo demais e inclui a ausência de efeito, é errado dizer que o tratamento não funciona ou que não é diferente do comparado. O que dá para dizer é que a dúvida continua.

Como ler um estudo científico em quatro perguntas

Ao ler uma notícia de ciência, como a de que os primeiros vertebrados tinham quatro olhos, a primeira pergunta é onde o trabalho saiu. As outras três se respondem no resumo e nos resultados do próprio artigo.

PerguntaOnde olharSinal de cuidado
Já passou por revisão por pares?Nome da revista ou do servidor de preprintsPreprint tratado como resultado fechado
Quantos foram estudados?Resumo e seção de métodosAmostra pequena com efeito grande
Qual é a incerteza?Intervalo de confiançaIntervalo largo, que inclui o efeito nulo
Quanto muda de verdade?Risco de partida e diferença absolutaSó a redução relativa, em porcentagem

Cada linha resume um ponto do aviso do medRxiv ou do capítulo 15 do Manual Cochrane.

Um dado isolado não é tendência

A lógica vale também fora da medicina. Um dia de calor não prova nada, mas 30 anos de noites provam, porque a série longa reduz o peso do acaso. E um número grande chama atenção sem dizer tudo, como mostra a diferença entre magnitude e estrago nos terremotos.

Os limites da conta com os preprints do medRxiv

A ligação entre preprint e revista é feita pelo próprio medRxiv, e alguns casos podem escapar. Por isso os 36% são o que foi detectado pelo servidor, e a taxa real de publicação pode ser um pouco maior.

Comparar anos pede cuidado. Dos 1.072 preprints postados em janeiro de 2025, 419 já tinham revista registrada em outubro de 2026, ou 39%, mais que o grupo de 2023 em menos tempo. A mistura de temas mudou: em 2023, 210 dos 749 citavam covid no título ou no resumo, contra 78 dos 1.072 em 2025.

A conta não separa o efeito do tema, da detecção ou de outras mudanças no servidor. Ela mostra o caminho de dois grupos de preprints, não a qualidade de cada trabalho.

Fontes: página de apresentação do medRxiv (aviso sobre preprints, lido em 1º/10/2026). Dados da API pública do medRxiv (preprints postados em janeiro de 2023 e janeiro de 2025, com o campo de publicação em revista e as datas, lidos em 1º/10/2026), com contagem própria. Capítulo 15 do Manual Cochrane de Revisões Sistemáticas.

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