Hubble acha o 1º buraco negro que faltava no aglomerado Omega Centauri
Os modelos dizem que Omega Centauri esconde cerca de 10 mil buracos negros. Em décadas de busca, ninguém tinha confirmado nenhum. Agora astrônomos seguiram uma única estrela nas fotos do Hubble por mais de 20 anos e viram que ela gira em torno de algo invisível, pesado e escuro.
Omega Centauri em imagem da descoberta. O quadro ampliado marca a estrela que orbita o buraco negro. Foto: ESA/Hubble e NASA, M. Häberle (MPIA) (CC BY 4.0), ESA/Hubble.
O Hubble achou o primeiro buraco negro de massa estelar de Omega Centauri, um aglomerado de 10 milhões de estrelas onde os modelos preveem cerca de 10 mil. O objeto se chama oMEGACat BH-2 e foi descoberto pelo movimento de uma estrela vizinha, segundo o comunicado da ESA/Hubble de 13 de julho de 2026.
Dez mil buracos negros, nenhum achado
Omega Centauri tem 10 milhões de estrelas presas umas às outras pela gravidade. É um aglomerado globular, um bolo apertado de estrelas muito velhas, e o da descoberta tem cerca de 12 bilhões de anos.
Quando uma estrela grande explode, o núcleo pode virar um buraco negro. Num aglomerado com tantas estrelas, os modelos preveem cerca de 10 mil buracos negros pequenos, os de massa estelar. A ESA/Hubble resume o problema: essa população nunca foi detectada nos estudos anteriores.
Por que o método antigo não vê o que está lá
Buraco negro não emite luz. Ele só aparece quando puxa gás, que esquenta e brilha em raios X e em ondas de rádio, ou quando bagunça o movimento de uma estrela perto dele.
Os estudos anteriores usaram a velocidade radial, que mede se a estrela se afasta ou se aproxima de nós pelo desvio da luz, e procuraram emissão de rádio e de raios X do gás que cai nos buracos. Nenhum caminho entregou um buraco negro de massa estelar em Omega Centauri.
A dança de uma estrela entre milhões
A equipe trocou o método. Usou a astrometria, que mede com precisão a posição de cada estrela e como ela se move no céu ao longo do tempo. Uma estrela que gira em torno de algo invisível balança, e esse balanço aparece nas fotos.
O grupo vasculhou mais de 20 anos de dados de arquivo do Hubble e juntou observações recentes do Webb para refinar as medidas. Achou uma estrela orbitando um objeto invisível pesado demais para ser outra coisa que não um buraco negro.
Medidas de uma fração de pixel
A estrela visível está a cerca de 18 mil anos-luz, no meio do aglomerado denso. Matthew Whitaker, da Universidade de Utah (EUA) e primeiro autor do estudo, disse que a precisão chega a uma fração de pixel nos detectores do Hubble e do Webb.
Ele afirmou que não teria sido possível achar o buraco negro sem os dois telescópios. O estudo saiu no periódico The Astrophysical Journal Letters, e o artigo está aberto pelo DOI.
Quanto pesa o buraco negro em Omega Centauri?
A estrela visível já era conhecida e tem 0,78 massa solar. Com os dados novos, a equipe calculou a massa do companheiro escuro: 4,46 massas solares, ou cerca de 5,7 vezes a massa da estrela que gira em volta dele. A conta é da redação, a partir dos dois números do comunicado.
Um estudo anterior, de outro grupo, sugeria que o par incluía uma estrela de nêutrons. Ao ampliar os dados do Hubble para o período de 2002 a 2023 e juntar o infravermelho do Webb, o grupo de Utah descartou essa possibilidade.
Os números do achado, lado a lado
| O que se esperava | O que o Hubble achou |
|---|---|
| Cerca de 10.000 buracos negros de massa estelar no aglomerado (previsão de modelos) | 1 buraco negro confirmado, o oMEGACat BH-2 |
| Companheiro de 0,78 massa solar com um objeto escuro ainda sem definição (estudo anterior sugeria estrela de nêutrons) | Objeto escuro de 4,46 massas solares, pesado demais para ser estrela de nêutrons |
| Buraco negro mais pesado, por causa do ambiente pobre em metais | Massa mais baixa que a esperada para esse ambiente |
| Binários com buraco negro de períodos mais curtos | Período de 94 anos, o mais longo já visto em um binário com buraco negro |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado heic2610 da ESA/Hubble, de 13 de julho de 2026.
94 anos para uma volta completa
Com os dados do Hubble e do Webb, a equipe traçou o caminho da estrela por mais de 20 anos. Por sorte, esse intervalo pegou a fase de maior aproximação do buraco negro, quando a estrela se move mais rápido no céu.
A estrela orbita o oMEGACat BH-2 uma vez a cada 94 anos, o maior período já visto em um binário com buraco negro. Pela conta da redação, de 2002 a 2023 o Hubble acompanhou cerca de um quinto dessa volta.
Uma massa baixa demais para o lugar
Anil Seth, também da Universidade de Utah e coautor, diz que a massa é bem menor do que se esperaria num ambiente pobre em metais como Omega Centauri. Ele chamou o resultado de surpreendente e empolgante.
Segundo Seth, a descoberta mostra que uma estrela pobre em metais pode formar um buraco negro assim, e agora falta entender como. O achado entrega dados a quem faz esse tipo de modelagem.
Duas estrelas que se encontraram no meio do caminho
O período longo dá uma pista da origem do par. A equipe acha provável que ele tenha se formado por encontro dinâmico: estrela e buraco negro não nasceram juntos, mas se acharam dentro do aglomerado.
E a história tem prazo. Os pesquisadores calcularam que um sistema como o oMEGACat BH-2 sobrevive por menos de 1 bilhão de anos até ser desfeito por encontros com estrelas vizinhas. Isso é menos de um doze avos da idade do aglomerado, de cerca de 12 bilhões de anos.
O que isso tem a ver com ondas gravitacionais
Seth explica que entender como os buracos negros se formam e como montam binários nesses aglomerados é vital para interpretar eventos de ondas gravitacionais. Lugares como Omega Centauri são, segundo ele, os principais candidatos a abrigar fusões de binários.
Cada buraco negro achado vira um ponto de comparação para as teorias. Um só ainda é pouco, mas é o primeiro dado real onde antes só existia previsão.
O segundo golpe da mesma garimpagem
A descoberta vem do projeto oMEGACat, que reanalisa com astrometria as imagens de arquivo do Hubble. Maximilian Häberle, do Observatório Europeu do Sul (ESO), que liderou a redução dos dados, chamou o achado de segundo avanço do projeto.
O primeiro foi a confirmação do buraco negro de massa intermediária no centro de Omega Centauri, divulgada pela ESA/Hubble em 10 de julho de 2024. Naquele trabalho, o grupo usou mais de 500 imagens do Hubble de duas décadas e mediu a velocidade de 1,4 milhão de estrelas.
Häberle destacou o valor do arquivo do telescópio. Segundo a ESA/Hubble, a maioria daquelas observações servia para calibrar instrumentos, não para ciência, e virou a base de duas descobertas.
Um aglomerado que se vê a olho nu
Omega Centauri está a cerca de 17.700 anos-luz, logo acima do plano da Via Láctea. Em local escuro e afastado da cidade, aparece quase do tamanho da Lua cheia e é um dos objetos favoritos de quem observa o céu no Hemisfério Sul.
A ESA/Hubble lembra que o aglomerado já constava no catálogo de Ptolomeu, há cerca de dois mil anos, como uma única estrela. Edmond Halley o descreveu como nebulosa em 1677, e John Herschel o reconheceu como aglomerado globular na década de 1830.
Ele também destoa dos vizinhos. Gira mais rápido que um aglomerado típico, tem forma achatada e é cerca de 10 vezes mais massivo que outros aglomerados grandes, quase uma galáxia pequena, segundo o comunicado de 2024.
Outras pistas que o Hubble tirou do arquivo
O telescópio rende descobertas mesmo anos depois das observações. O Hubble também rende pauta fora dos aglomerados: a redação contou como ele e um arquivo de 1999 apontam um planeta que pode ter nascido da própria estrela morta, e o que o telescópio viu de novo em o decágono do polo sul de Saturno.
O Webb, que ajudou a refinar as medidas desta vez, também é o telescópio por trás de o sinal de rádio mais distante, que vem de uma galáxia anã.
O que um buraco negro ainda não prova
É um achado, não o censo. O número de 10 mil é previsão de modelos, e um objeto confirmado não diz quantos existem nem onde estão os outros. A equipe descreve a descoberta como o começo da busca por essas populações em aglomerados globulares.
O próprio comunicado usa o termo provável para a origem do par por encontro dinâmico, então essa parte é inferência da equipe. A massa de 4,46 massas solares e a exclusão da estrela de nêutrons vêm da análise das medidas.
Fontes: ESA/Hubble, comunicado heic2610, 13 de julho de 2026. The Astrophysical Journal Letters, DOI 10.3847/2041-8213/ae7a5c. ESA/Hubble, comunicado heic2409, 10 de julho de 2024.



