Ciência

Hubble e um arquivo de 1999 apontam planeta que pode ter nascido da própria estrela morta

Astrônomos encontraram um sinal químico inédito numa anã branca chamada HS 0209+0832, e o mais provável é que ele venha de um planeta gigante formado depois da morte da estrela. A pista estava há mais de 25 anos num arquivo do Hubble.

Concepção artística de um planeta gigante escuro com cauda de material, orbitando perto de uma anã branca, um planeta de segunda geração

Concepção artística do possível planeta em órbita da anã branca HS 0209+0832, com a cauda de material que ele perde. Ilustração: NASA, ESA e Leah Hustak (STScI), NASA.

A anã branca HS 0209+0832 pode ter um planeta de segunda geração, um mundo formado do material que a própria estrela expulsou ao morrer. O estudo saiu na segunda-feira (5) na revista Nature Astronomy e foi divulgado pela NASA. A equipe é liderada por Jamie Williams, doutorando da Universidade de Warwick, no Reino Unido.

O que é um planeta de segunda geração

Uma anã branca é o núcleo que sobra de uma estrela de massa baixa depois que ela queima todo o combustível nuclear e perde as camadas externas de gás e poeira. Um planeta de segunda geração é um mundo que se forma ao redor desse resto, a partir do material jogado fora.

A Terra e os outros planetas do Sistema Solar são de primeira geração: nasceram do que sobrou do nascimento do Sol. A diferença está em quando e de que material o planeta se forma.

Como um arquivo de 1999 virou pista

O Hubble observou essa estrela em 1999. Os dados traziam cerca de 100 características químicas que ninguém tinha conseguido identificar. Williams voltou a esses registros com um banco de dados químicos atualizado e viu que o nióbio explicava muitas delas.

O nióbio é um metal conhecido na Terra, usado em joias e em aparelhos de imagem médica. O que chamou a atenção foi a quantidade. Boris Gänsicke, coautor em Warwick, disse que o elemento nunca tinha sido registrado em outra anã branca analisada até hoje.

Por que o nióbio aponta para um planeta de segunda geração

Elementos mais pesados que o ferro, como o nióbio, não nascem na fusão nuclear no centro das estrelas. Segundo Nicholas Stone, astrofísico teórico da Universidade de Wisconsin-Madison e membro da equipe, eles só se formam nas condições extremas dos últimos momentos de uma estrela.

O artigo na Nature Astronomy completa o quadro: a atmosfera da estrela é rica em zinco, cobre e nióbio e pobre em silício e ferro, os elementos que formam rochas. Isso afasta a hipótese de um asteroide ou planeta rochoso comum caindo na estrela.

Gráfico do espectro da anã branca HS 0209+0832 com três quedas de brilho marcadas como nióbio, níquel e cálcio
Espectro da HS 0209+0832 medido pelo Hubble (branco) contra o melhor modelo (vermelho). As quedas mostram onde nióbio, níquel e cálcio absorvem luz. Rótulos em inglês, do original. Ilustração: NASA, ESA e Leah Hustak (STScI), NASA.

O satélite FUSE, da NASA, hoje aposentado, também registrou sinais fortes de nióbio no sistema, o que confirma a leitura do Hubble.

O que o TESS mediu no sistema

O telescópio espacial TESS observou a anã branca por quatro meses e detectou variações regulares de brilho. A NASA conclui que elas indicam um planeta a cerca de 6 milhões de quilômetros da estrela. O artigo na Nature Astronomy dá o período da variação: 4,399 dias, com amplitude de 0,12%.

Para comparar: Mercúrio fica, em média, a 58 milhões de quilômetros do Sol, segundo a NASA. O candidato a planeta orbita quase dez vezes mais perto da sua estrela do que Mercúrio do Sol.

A equipe estima que seja um gigante gasoso do tamanho de Júpiter, em rápida perda de atmosfera. A anã branca é jovem, ainda muito quente, e provavelmente arranca o gás do planeta com energia. Esse gás formaria uma cauda de cometa e um disco que cai na estrela, e daí vem o nióbio que o Hubble enxerga.

O planeta tende a durar

Williams acha provável que o planeta sobreviva, apesar de perder massa. Segundo ele, a anã branca vai esfriar e manter uma temperatura constante, com o planeta numa zona habitável estável por milhões de anos.

Sobre outro olhar do Hubble no Sistema Solar, veja a matéria sobre o decágono no polo sul de Saturno.

O que ainda não está provado

A NASA fala em estrela que "pode abrigar" um planeta de segunda geração, e o artigo trata o objeto como candidato. O sinal de 4,399 dias pode vir do ciclo de dia e noite do planeta ou da cauda de material passando na frente da estrela. Os autores não cravam qual das duas.

Também não se sabe como esses planetas se formam, se são comuns ou raros e como evoluem em volta de uma estrela morta. Williams diz que vai usar o Hubble nos próximos anos para reunir dados e estatística sobre esse tipo de corpo. O estudo completo está na Nature Astronomy.

Fontes: NASA, Hubble: planeta de segunda geração suspeito resolve caso arquivado, 5 de outubro de 2026. Nature Astronomy: Discovery of a second-generation planet candidate accreting onto a white dwarf, 5 de outubro de 2026 (DOI 10.1038/s41550-026-02983-7). NASA: fatos sobre Mercúrio.

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