Ciência e tecnologia

Duas estudantes do Field Museum, em Chicago, descreveram um parente dos anfíbios de 309 milhões de anos que estava guardado com o nome errado e batizaram a espécie de Jeanerpeton em homenagem às mães, que se chamam Jean

Um fóssil de 309 milhões de anos, doado por um colecionador e guardado por anos com o nome de outra espécie, virou uma espécie nova. As estagiárias Allison Sefcovic e Payton Kohlberg, do Field Museum, o descreveram e o chamaram de Jeanerpeton, porque as mães das duas se chamam Jean.

Fóssil de 309 milhões de anos: as estudantes Allison Sefcovic e Payton Kohlberg seguram esculturas do Jeanerpeton mazonensis ao lado da foto do fóssil avermelhado e do desenho do animal

Allison Sefcovic e Payton Kohlberg com esculturas de resina do Jeanerpeton; à direita, o fóssil e o desenho do animal. Fotos: Arjan Mann e Allison Sefcovic / Field Museum (divulgação).

O Field Museum, museu de história natural de Chicago, nos Estados Unidos, anunciou em 24 de setembro de 2026 uma espécie nova de parente antigo dos anfíbios. O artigo saiu no mesmo dia no Journal of Vertebrate Paleontology.

O animal se chama Jeanerpeton mazonensis, que quer dizer "rastejador de Jean, de Mazon Creek". O nome homenageia as mães das duas autoras principais, que por coincidência têm o mesmo nome: Jean.

Fóssil de 309 milhões de anos: quem é o Jeanerpeton

Segundo o comunicado do museu, o Jeanerpeton é um ancestral antigo dos anfíbios de hoje. O museu o descreve como uma salamandra, só que atarracada e gordinha como um sapo.

O fóssil guarda detalhes que quase nunca sobrevivem: escamas nas costas, as "costelas da barriga", chamadas gastrálias, e até a marca dos olhos. Para os pesquisadores, isso aponta uma origem de 309 milhões de anos para traços que ainda se veem em sapos e salamandras.

Fóssil do Jeanerpeton mazonensis em rocha avermelhada ao lado do desenho do esqueleto, com a cabeça, as patas e a fileira de ossos das costas
O fóssil em rocha de Mazon Creek e a interpretação desenhada do esqueleto. Foto e desenho: Allison Sefcovic / Field Museum (divulgação).

Guardado por anos com o nome de outra espécie

O fóssil foi achado há muitos anos por um colecionador amador e doado ao museu. À primeira vista, foi classificado como Amphibamus grandiceps, uma espécie bem conhecida na mesma região.

Pela Paleobiology Database, o Amphibamus grandiceps foi descrito pelo paleontólogo Edward Cope em 1865 e tem registros entre 309,8 e 307,4 milhões de anos atrás. O Jeanerpeton passou todo esse tempo no museu escondido sob esse nome.

O "táxon lixeira" que esconde espécies novas

Os cientistas chamam de "táxon lixeira" o nome que vira depósito de fósseis parecidos, mas pouco estudados. Segundo o pós-doutorando Cam So, coautor do estudo, vários exemplares do museu foram agrupados assim sob o Amphibamus grandiceps.

"Agora encontramos evidência suficiente de que ele é um animal anatomicamente diferente", disse So ao museu. Com a publicação, o Jeanerpeton sai oficialmente dessa lixeira e ganha nome próprio.

Mazon Creek, o pântano de 309 milhões de anos perto de Chicago

Há 309 milhões de anos, muito antes dos dinossauros, a região de Chicago era um delta de rio pantanoso, cheio de animais que começavam a viver em terra, insetos gigantes e bichos nadadores estranhos, segundo o museu.

Como o delta despejava sedimento rápido sobre plantas e animais mortos, o lugar virou um dos melhores sítios de fósseis do mundo. Mazon Creek preserva partes moles, almofadas dos dedos e o contorno do corpo, detalhes que costumam se perder.

Linha do tempo de 360 milhões de anos até hoje com o Carbonífero destacado e uma marca vermelha em 309 milhões de anos, onde viveu o Jeanerpeton
O Jeanerpeton viveu no fim do Carbonífero, muito antes do Mesozoico. Arte: Watts & Wild com a escala do tempo da Paleobiology Database.

As duas estudantes que descreveram a espécie

As autoras principais do artigo são Allison Sefcovic e Payton Kohlberg, que fizeram parte da turma de 2025 do programa de estágio Women in Science do Field Museum. Assinam também Calvin So e Arjan Mann, curador de peixes fósseis e dos primeiros tetrápodes do museu.

"Minha experiência no museu e no programa Women in Science me deixou mais confiante para tentar algo novo", disse Kohlberg ao museu. "É assustador pegar um projeto quando você sente que não sabe tanto quanto deveria", completou, dizendo que aprendeu na prática a vencer esse medo com trabalho duro.

Por que o museu tem um programa só para mulheres

O grupo Field Museum Women in Science existe para aumentar a presença de mulheres na ciência. Na página do programa, o museu cita que, há mais de 30 anos, as mulheres que seguem carreira em ciências da vida são só 14,8% dos professores titulares nas principais instituições de pesquisa.

O programa trabalha com mentoria e oportunidades para cientistas em início de carreira, como Sefcovic e Kohlberg eram quando começaram a estudar o fóssil.

Uma peça só num quebra-cabeça de 309 milhões de anos

A espécie nova parte do fóssil doado ao museu, que o próprio Field Museum apresenta como uma peça de um mosaico maior. O que ele mostra é que traços típicos de sapos e salamandras já existiam no fim do Carbonífero.

Segundo o museu, a descrição abre uma porta para os pesquisadores que seguem registrando a biodiversidade de Mazon Creek. Juntas, essas descobertas montam um mosaico detalhado de como era a vida em Illinois há mais de 300 milhões de anos.

Outras espécies novas que já passaram por aqui

Descrições de espécies novas acontecem o tempo todo, e muitas saem de coleções antigas. Foi assim com o tilcayo, o felino novo identificado por análise genética, e com a rã descrita numa floresta alagada do Acre.

Os anfíbios de hoje seguem rendendo descobertas, como a busca do Butantan por moléculas com cara de antibiótico na secreção do sapo-cururu da Amazônia.

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