Todas as 19 geleiras estudadas em Svalbard, no Ártico, soltam água de degelo carregada de metano, um gás de efeito estufa que vem de rochas antigas sob o gelo e pode escapar mais enquanto elas derretem
Debaixo das geleiras de Svalbard, arquipélago norueguês no Ártico, há rochas que guardam gás antigo. Uma equipe da Noruega e da Alemanha mediu 148 amostras de rios de degelo e mostrou como o gelo que derrete ajuda esse gás a chegar ao ar, e quais geleiras soltam mais.
Geleiras de Wedel Jarlsberg Land, no sudoeste de Spitsbergen, entre elas a Finsterwalderbreen e a Penckbreen, vistas do avião em setembro de 2012. Foto: Bjoertvedt/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
A água que sai de 19 geleiras de Svalbard carrega metano acima do equilíbrio com o ar em todas as amostras, até 425 vezes mais. O gás vem sobretudo de rochas ricas em matéria orgânica sob o gelo, segundo estudo publicado em 8 de setembro de 2026 na Nature Communications.
O que a equipe mediu nos rios de degelo
O artigo, liderado por Gabrielle Kleber, da Universidade do Ártico da Noruega (UiT), em Tromsø, reúne pesquisadores do Centro Universitário de Svalbard (UNIS), da Universidade de Oslo e do instituto federal alemão de geociências (BGR), em Hannover.
A equipe coletou 148 amostras de água em 19 rios que nascem de geleiras de vale no centro de Svalbard, com duas ou três réplicas por ponto. A coleta começava o mais perto possível da frente do gelo e seguia rio abaixo, às vezes até a foz no fiorde.
Em parte das geleiras, os pesquisadores usaram também radar de penetração no solo, que mostra a espessura do gelo e se a base está congelada ou com água. Foi essa combinação que permitiu explicar as diferenças entre um rio e outro.
Quanto metano sai de cada geleira
Na frente das geleiras, a concentração variou de 9 a 1.700 nanomols por litro, com média de 244 e mediana de 46. Em água a cerca de 0 °C, qualquer valor acima de uns 4 nanomols já faz o gás escapar para o ar.
Ou seja, até a geleira mais pobre do grupo solta gás. O valor mais alto ficou com a Ragna Mariebreen, com 1.700. Na ponta de baixo aparecem geleiras como a Renardbreen, com 17.
Em quantidade levada por ano, a primeira foi a Penckbreen, com cerca de 5.130 quilos, e a última, a Bessemerbreen, com perto de 1 quilo. Pela nossa conta, a Penckbreen manda uns 14 quilos por dia, em média, ao longo do ano.
De onde vem o gás: rochas, e não pântanos
A química do gás, com etano e propano junto e isótopos de carbono entre −56,4 e −34,4 por mil, indica origem termogênica: gás formado por calor e pressão dentro de rochas, como o das jazidas de gás natural.
Isso pesa porque, em Svalbard, solos encharcados e áreas alagadas que produzem gás por ação de micróbios são pouco extensos. Já as rochas ricas em gás ocupam quase metade da superfície do arquipélago, e as geleiras cobrem perto de 60% dele.
A base descongelada é a porta de saída
O radar mostrou o que separa um rio rico de um pobre. Quando a base da geleira tem gelo temperado, no ponto de derretimento, a água circula por baixo e lava o gás das rochas. Quando a base está congelada, o gás fica preso.
O exemplo dos autores: a Ragna Mariebreen, sobre rochas ricas em xisto e com base descongelada, chegou a 1.700. A Gløttfjellbreen, também sobre xisto, mas com pouco gelo temperado, ficou em 35.
A rocha conta tanto quanto o gelo. A Von Postbreen e a Renardbreen têm a base quase toda ativa, mas ficam sobre rochas metamórficas antigas, pobres em gás. Resultado: 72 e 17 nanomols, bem abaixo das vizinhas sobre xisto.
Geleiras em avanço súbito lideram
Três dos rios mais carregados vinham de geleiras em surge, um avanço súbito e rápido do gelo, ou que tinham acabado de passar por um: Penckbreen (825), Vallåkrabreen (477) e Bakaninbreen (857). Os autores dizem que esses eventos estão ficando mais frequentes em Svalbard.
A explicação proposta é que o surge aumenta a pressão da água na base e amplia a área molhada sob o gelo. Com mais água passando por mais rocha, sai mais gás guardado.
Svalbard inteiro: de 182 a 368 toneladas por ano
Para todo o arquipélago, os autores fizeram duas estimativas. Pela área das geleiras, deu 182 toneladas de metano em 2023 e 219 em 2024. Pelo volume de água de degelo, 368 toneladas em 2023 e 364 em 2024.
Eles chamam os números de conservadores. As coletas foram no meio do verão e não pegaram o pulso do início da temporada, quando sai de uma vez o gás acumulado sob o gelo no inverno. E nem sempre o ponto de coleta ficava colado na geleira.
Pela nossa conta, 368 toneladas por ano dão cerca de 1 tonelada por dia. Os autores avaliam que a maior parte desse gás vai para a atmosfera, porque rios rasos e agitados soltam o gás mais rápido do que os micróbios conseguem consumi-lo.
Svalbard e Groenlândia, lado a lado
A comparação com a Groenlândia mostra o peso do achado. Os rios glaciais groenlandeses soltam de 918 a 2.110 toneladas por ano, na estimativa mais baixa citada pelos autores. Svalbard fica na mesma ordem de grandeza com uma cobertura de gelo mais de 55 vezes menor.
Por área de gelo, portanto, Svalbard solta bem mais. Os autores atribuem a diferença à origem: na Groenlândia, o gás sob o gelo é feito por micróbios; em Svalbard, vem de rochas. Um estudo anterior, citado no artigo, achou na Vallåkrabreen até seis vezes mais gás por área que na geleira Leverett, na Groenlândia.
Derreter solta mais, mas não para sempre
Com o aquecimento, mais água de degelo chega à base e lava mais rocha. Por isso os autores esperam que o fluxo cresça por um tempo. Svalbard é um bom laboratório: suas geleiras são baixas e estão num estágio de recuo mais avançado que muitas outras.
Só que, ao afinar, as geleiras de Svalbard tendem a passar de uma base parcialmente descongelada para uma base toda congelada. Aí perdem a capacidade de lavar o gás das rochas. Sagabreen e Bessemerbreen já parecem ter chegado a esse ponto, e a Gløttfjellbreen estaria perto.
Mesmo assim, há outra porta: a água subterrânea que corre dentro do permafrost. Em quase todos os rios, a concentração subia de repente rio abaixo da geleira, sinal de nascentes trazendo mais gás.
Por que isso importa fora do Ártico
O metano é um gás de efeito estufa potente, e o IPCC aponta grande incerteza sobre quanto o Ártico contribui para a alta do gás na atmosfera. Medições diretas como estas são raras, porque o acesso é difícil.
Os autores dizem que o mecanismo vale para qualquer região com geleiras sobre rochas ricas em matéria orgânica, como o xisto, comum em várias partes do Ártico. Para ver o que o gelo esconde, leia sobre os vales que a NASA achou sob o gelo da Groenlândia.
O aquecimento também mexe com o calendário do calor: veja por que as ondas de calor começam mais cedo. E entenda por que as folhas vão esquentar mais que o ar.
O que as estimativas ainda não alcançam
O estudo cobre 19 geleiras que terminam em terra, todas no centro de Svalbard, medidas sobretudo no meio do verão. A conta para o arquipélago usa só a água das geleiras que terminam em terra.
Os próprios autores tratam o total de Svalbard como uma primeira aproximação. Ele mostra a escala do fenômeno, mas não diz quanto o gás dessas geleiras pesa no total de metano do planeta.
Perguntas rápidas
O que o estudo descobriu?
Que a água de degelo das 19 geleiras analisadas no centro de Svalbard tinha metano acima do equilíbrio com o ar em todos os casos, com picos de até 425 vezes esse nível.
De onde vem esse gás?
Sobretudo de rochas ricas em matéria orgânica sob o gelo. Etano, propano e a assinatura dos isótopos de carbono indicam origem termogênica, formada por calor e pressão.
Quanto Svalbard solta por ano?
Os autores estimam de 182 a 368 toneladas por ano, conforme o método, e dizem que os números são conservadores.
O derretimento vai aumentar essas emissões?
Por um tempo, sim, segundo os autores. Mas geleiras que afinam tendem a congelar na base, e aí perdem a capacidade de lavar o gás das rochas.
Por que Svalbard solta mais que a Groenlândia por área?
Porque lá o gás vem de rochas cheias de gás antigo. Na Groenlândia, o gás sob o gelo é feito por micróbios, e satura menos a água.



