Tempo e clima

As ondas de calor estão chegando duas semanas mais cedo e indo embora 24 dias mais tarde em boa parte do planeta, mostra estudo com 45 anos de dados, e a primeira onda da estação ficou mais rápida

Um estudo publicado na Nature Climate Change mediu não só se as ondas de calor ficaram mais fortes, mas quando elas chegam. De 1979 a 2023, a temporada de calor extremo ganhou mais de cinco semanas na média do planeta. No Brasil, onda adiantada cai no começo da primavera.

Mapa da NASA da América do Sul em vermelho escuro, com o calor mais forte sobre o Paraguai e partes do Brasil em 17 de fevereiro de 2025, um dos dias das ondas de calor daquele verão

Temperatura do ar a 2 metros do chão na América do Sul em 17 de fevereiro de 2025, no modelo GEOS da NASA; o vermelho mais escuro marca 38 °C ou mais. Imagem: NASA Earth Observatory.

A temporada de ondas de calor ficou cerca de 39 dias mais longa entre 1979 e 2023. A primeira onda do ano passou a chegar duas semanas antes, e a última, 24 dias depois, segundo estudo da Academia Chinesa de Ciências.

O que o estudo mediu

A pesquisa foi liderada por Xu Wenfang, do Jardim Botânico do Sul da China, ligado à Academia Chinesa de Ciências, com colegas como o francês Philippe Ciais. O artigo saiu em 23 de setembro de 2026 na revista Nature Climate Change.

A equipe analisou dados climáticos globais de 1979 a 2023. Em vez de olhar só para a força e a duração do calor, mediu a data da primeira e da última onda de calor de cada estação, o tamanho dessa temporada e a velocidade com que a primeira onda chega ao pico.

Duas semanas mais cedo, 24 dias mais tarde

Na média do planeta, a primeira onda de calor chegou 3,29 dias mais cedo a cada década, e a última terminou 5,41 dias mais tarde. Somando as duas pontas, a temporada cresceu 8,71 dias por década, informou a Academia Chinesa de Ciências em comunicado.

Pela nossa conta, nos 45 anos do estudo isso dá cerca de 15 dias de antecipação e 24 dias de atraso. São uns 39 dias a mais de temporada, mais de cinco semanas em que uma onda de calor pode aparecer.

Onde as ondas de calor mudaram mais

A antecipação apareceu em 72% das terras do planeta, o atraso em 79,6% e a temporada mais longa em 92,1%. Nem toda essa área tem tendência estatisticamente firme: o número cai para 13,4%, 20,3% e 34,4%, respectivamente, segundo o resumo do artigo.

As regiões secas tiveram mudanças mais fortes do que as úmidas, escrevem os autores. O semiárido nordestino é uma zona seca desse tipo, embora o resumo do estudo não traga números por país.

A primeira onda está chegando mais depressa

Os pesquisadores também classificaram a primeira onda de calor de cada estação em início rápido, moderado ou lento, conforme o momento em que a temperatura chega ao pico dentro do evento.

De 2001 a 2023, a parcela de primeiras ondas de início rápido cresceu de forma significativa. "Se as ondas de calor chegam mais cedo e se desenvolvem mais rápido, o tempo para a sociedade e os ecossistemas se prepararem pode ficar ainda menor", disse Xu Wenfang no comunicado.

A Europa de 2026 como exemplo

Mapa de temperatura da Europa Ocidental em 25 de maio de 2026, com França, Reino Unido e Hungria em vermelho escuro
A Europa Ocidental ao meio-dia de 25 de maio de 2026, no modelo GEOS da NASA: a primeira onda de calor da estação chegou ainda na primavera. Imagem: NASA Earth Observatory/Lauren Dauphin.

O verão europeu de 2026 mostra o padrão na prática. Segundo o NASA Earth Observatory, a Europa Ocidental teve o primeiro sinal de um verão fora do comum ainda em maio, com uma cúpula de calor que levou Londres a 35,1 °C em 26 de maio.

Não parou aí. Bordeaux, na França, chegou a 42,5 °C em 24 de junho, e em meados de agosto os europeus já enfrentavam a quinta onda de calor da estação, com temperaturas bem acima de 40 °C em uma área extensa.

Mapa de temperatura da Europa em 19 de agosto de 2026, com Espanha, Itália e Bálcãs em vermelho escuro
O mesmo mapa em 19 de agosto de 2026, durante a quinta onda de calor da estação. Imagem: NASA Earth Observatory/Lauren Dauphin.

Calor de primavera no Brasil

Aqui, onda de calor adiantada cai no fim do inverno e no começo da primavera. Foi assim em setembro de 2023, quando o centro e o norte do Brasil passaram de 40 °C na virada do inverno para a primavera, segundo a World Weather Attribution, em estudo com cientistas do Brasil e da Argentina.

A análise concluiu que, sem o aquecimento causado pelo homem, aquele calor de dez dias teria sido de 1,4 °C a 4,3 °C mais fraco, e que ficou pelo menos 100 vezes mais provável. No clima atual, é um evento esperado uma vez a cada 30 anos.

O mesmo grupo alertou que calor forte no começo da primavera costuma pesar mais, porque a população ainda não se acostumou às altas temperaturas. Com o planeta 2 °C mais quente, um evento assim seria cerca de cinco vezes mais provável e até 1,6 °C mais quente.

O calor também atinge as lavouras

A temporada mais longa também pesa no campo. De 2001 a 2023, a parcela de lavouras expostas a ondas de calor em fases críticas, como a floração e o embonecamento do milho, subiu de 1,6% a 13,3% em várias culturas importantes, na comparação com 1979 a 2000.

O que muda nos alertas

Os autores defendem que a data de chegada das ondas de calor entre nos sistemas de alerta e nos planos de adaptação, ao lado da intensidade e da duração. Em 2023, a World Weather Attribution não encontrou planos de ação contra o calor na área atingida da América do Sul.

No Brasil, o alerta oficial é do Inmet. Veja a regra que o instituto usa para declarar onda de calor, a previsão do Inmet para esta primavera em cada região e o que fazer num calor de 41 °C.

Perguntas rápidas

O que o estudo descobriu?

Que, de 1979 a 2023, a primeira onda de calor de cada estação passou a chegar 3,29 dias mais cedo por década e a última, 5,41 dias mais tarde. A temporada cresceu cerca de 39 dias.

Isso vale para o mundo inteiro?

Para a maior parte das terras. A temporada ficou mais longa em 92,1% da área, mas a tendência é estatisticamente firme em 34,4% dela. As zonas secas mudaram mais.

O que é uma onda de calor de início rápido?

É aquela em que a temperatura chega ao pico logo no começo do evento. De 2001 a 2023, a parcela de primeiras ondas de calor desse tipo cresceu, segundo os autores.

Por que a chegada mais cedo preocupa?

Porque sobra menos tempo para se preparar. Em 2023, no Brasil, cientistas lembraram que calor forte no começo da primavera pega a população ainda não acostumada às altas temperaturas.

Quem fez o estudo?

Uma equipe liderada por Xu Wenfang, do Jardim Botânico do Sul da China, da Academia Chinesa de Ciências, publicada em 23 de setembro de 2026 na Nature Climate Change.

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