A quantidade de poeira suspensa na atmosfera da Terra caiu cerca de 10% entre 2003 e 2023, com recuo no norte da África e na Ásia, e essa queda pode ter ajudado um pouco a esquentar o planeta
O céu da Terra está ficando mais limpo de areia fina. Uma equipe dos Estados Unidos, da Grécia e da Espanha cruzou satélites, estações em solo e modelos de computador para medir 21 anos de poeira no ar, e a queda aparece nas sete bases de dados usadas.
Tempestade de poeira sobre o deserto do Saara em março de 2015, vista pelo sensor MODIS, da NASA. Imagem: Jeff Schmaltz, NASA/MODIS, domínio público.
A poeira suspensa na atmosfera da Terra diminuiu cerca de 10% entre 2003 e 2023, com margem de 8 pontos para mais ou para menos. A queda veio sobretudo do norte da África e da Ásia, segundo estudo publicado em 16 de setembro de 2026 na revista Science Advances.
Dez por cento menos poeira em vinte anos
A poeira mineral é o aerossol natural mais abundante do planeta, em peso. Ela pesa no balanço de energia da Terra, nas nuvens, na qualidade do ar e nos nutrientes que chegam ao mar e às florestas.
Mesmo assim, ninguém tinha um retrato firme de como ela mudou neste século. Cada satélite contava uma história um pouco diferente. O novo trabalho junta todas e chega a uma queda média de 5% por década, o que soma cerca de 10% em vinte anos.
Os próprios autores chamam o resultado de a evidência mais forte até agora de que o planeta ficou menos empoeirado no início do século 21.
Sete medições olhando para o mesmo céu
O artigo é liderado por Ashok Kumar Gupta, da Universidade Vanderbilt, e assinado também por Jasper Kok, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e por pesquisadores do Observatório Nacional de Atenas, da Universidade de Patras e do Centro de Supercomputação de Barcelona.
A equipe usou quatro produtos de satélite, que medem a poeira com laser, infravermelho e câmeras, mais três reanálises, que combinam observações com modelos do tempo. Também conferiu tudo com fotômetros em solo da rede AERONET.
As sete bases apontam queda da poeira no planeta. O tamanho da queda varia muito de uma para outra, mas o sinal é o mesmo. Para fechar a conta, os autores rodaram um modelo com mil versões, e mais de 90% delas deram queda global.
O Saara continua sendo a maior fonte de poeira
O norte da África segue de longe no primeiro lugar. A região solta entre 1,8 bilhão e 2,25 bilhões de toneladas de poeira por ano. Pela nossa conta, isso dá de 4,9 milhões a 6,2 milhões de toneladas por dia.
A maior fatia da poeira suspensa sobre a região fica no sul do Saara e no Sahel. Mesmo assim, a quantidade no ar sobre o norte da África caiu cerca de 10% no período, com o ponto mais baixo perto de 2019, uma alta em 2022 e nova baixa em 2023.
A Ásia acompanha a mesma descida
Na Ásia, que soma o Oriente Médio, a Ásia Central e o Leste Asiático, a queda também ficou perto de 10%, mas com incerteza maior, de 12 pontos. Juntas, África e Ásia guardam de 80% a 90% de toda a poeira suspensa no mundo, e por isso puxam a média do planeta.
Na América do Norte e na Austrália os números também caem, mas as margens são grandes demais para cravar uma tendência.
Na América do Sul, a poeira ficou quase igual
Para a América do Sul, a tendência calculada foi de alta de 1% por década, com margem de 11 pontos. Na prática, nenhuma mudança que se possa afirmar. Esse material tem peso pequeno no ar sul-americano, e os satélites medem mal regiões assim.
Há um detalhe curioso: alguns produtos de satélite mostram mais poeira sobre o Atlântico Norte tropical, o corredor por onde a nuvem do Saara viaja para o oeste. Os autores pedem cautela, porque essa faixa mistura terra e mar e confunde os sensores.
Menos poeira, um pouco mais de calor
Pelas estimativas usadas no estudo, a poeira, no saldo, ajuda a resfriar o planeta, porque barra parte da luz do Sol. Se há menos dela, sobra um pouco mais de energia. Os autores estimam esse efeito em 0,02 watt por metro quadrado entre 2003 e 2023, com margem de 0,05.
É pouco, e a margem é maior que o próprio número. Ainda assim, o efeito vai na mesma direção da queda dos poluentes humanos no ar, que também resfriavam o clima. Os dois juntos podem ter reforçado o aquecimento recente.
Os anos mais quentes tiveram pouca poeira no ar
A quantidade muda muito de um ano para outro. Os maiores valores do período ficaram em 2007, 2008 e 2017; os menores, em 2014, 2019 e 2023. Estendida até 2024, uma das bases manteve a queda, de 4% por década.
Os autores notam que 2023 e 2024, os anos mais quentes já medidos no planeta, coincidiram com pouca poeira no ar. Eles tratam isso como um fator a mais no calor desses anos, sem dizer quanto ele pesou.
O que a poeira do Saara leva até a Amazônia
Esse pó não é só sujeira. Ele é a principal fonte de ferro e fósforo que chega pelo ar ao oceano aberto, alimentando o plâncton. Os autores citam menos fósforo atravessando o Atlântico até a bacia amazônica como uma das consequências possíveis.
Também listam um oceano que pode absorver menos carbono em áreas pobres em ferro e menos escurecimento da neve, que acelera o derretimento das geleiras. Do lado bom, menos poeira melhora a qualidade do ar onde ela é mais pesada.
Para entender o peso da floresta nesse balanço, leia sobre o limite de desmatamento da Amazônia apontado por Carlos Nobre. Sobre o calor que fica nas plantas, veja por que as folhas vão esquentar mais que o ar.
Por que a poeira diminuiu
O estudo não fecha essa resposta, e diz isso com clareza: o foco foi medir, não explicar. Os autores listam as causas que outros trabalhos já propuseram para a queda depois de 2010.
Entre elas estão ventos mais fracos perto do solo, em parte porque a diferença de temperatura entre o equador e os polos diminuiu, o avanço da vegetação, solos mais úmidos e mudanças na circulação do ar que levam e trazem a areia.
O gelo também entra nessa conta da atmosfera: veja o gás que as geleiras do Ártico soltam de rochas antigas.
O que as contas ainda não garantem
O efeito no clima foi calculado de forma simples, supondo que ele cresce na mesma proporção da poeira. Os autores lembram que, na realidade, esse efeito costuma crescer menos que isso, sobretudo nas nuvens.
Eles também calculam que, se a queda seguir no mesmo ritmo, a carga no ar cairia de 15% a 30% até meados do século. Mas avisam que a conta é só uma ilustração, não uma previsão.
Perguntas rápidas
A poeira no ar está diminuindo?
Sim, segundo o estudo. A quantidade de poeira na atmosfera caiu cerca de 10% entre 2003 e 2023, em média para o planeta, com margem de 8 pontos para mais ou para menos.
De onde vem a maior parte da poeira?
Do norte da África, com o Saara e o Sahel à frente, e da Ásia. Juntas, essas regiões respondem por 80% a 90% da poeira suspensa no planeta.
Menos poeira esquenta a Terra?
Um pouco. A poeira, no saldo, esfria o clima. Com menos dela, os autores estimam um efeito de aquecimento pequeno, de 0,02 watt por metro quadrado, com incerteza grande.
Isso afeta o Brasil?
A poeira do Saara cruza o Atlântico e é a principal fonte de fósforo e ferro que chega pelo ar ao oceano aberto. Os autores citam menos fósforo para a bacia amazônica como uma consequência possível.
Quem fez o estudo?
Uma equipe liderada por Ashok Kumar Gupta, da Universidade Vanderbilt, com Jasper Kok, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e grupos da Grécia e da Espanha. Saiu em 16 de setembro de 2026 na Science Advances.



