Um único dia de calor não prova nada sobre o clima, mas três décadas de noites mais quentes provam: nas normais do Inmet, a temperatura mínima média subiu em 118 de 126 estações do Brasil
Um dia de 40 °C vira manchete e uma madrugada gelada vira piada sobre aquecimento global. Nenhum dos dois prova nada. O que mostra se o clima mudou é a média de 30 anos, e as tabelas do Inmet contam uma história clara sobre as noites do Brasil.
Estação meteorológica do Inmet no câmpus da UFRN, em Natal (RN), em setembro de 2021. Foto: Marcos Elias de Oliveira Júnior/Wikimedia Commons (CC0).
Um único dia de calor não prova que o clima mudou, porque clima é a média de 30 anos. E, quando se comparam duas médias de 30 anos do Inmet, a temperatura mínima anual subiu em 118 de 126 estações.
A conta parte das normais climatológicas do Instituto Nacional de Meteorologia: a média anual da mínima nos períodos 1961-1990 e 1991-2020, em todas as estações que têm esse dado nas duas tabelas.
Por que um dia de calor não prova nada
Tempo é o que acontece hoje: uma tarde abafada, uma frente fria, uma madrugada gelada. Clima é o comportamento médio desse tempo ao longo de décadas. Um dia fora da curva, para cima ou para baixo, acontece em qualquer clima.
O termômetro de rua piora a confusão. Ele mede o ponto onde está, muitas vezes exposto ao sol e perto do asfalto, e pode simplesmente errar. Um painel na praia de Botafogo, no Rio, já marcou 75 graus.
O inverso também vale. Em 2025, o leste da América do Sul ficou mais frio que a média, segundo o serviço europeu Copernicus. O fim de junho e o começo de julho tiveram frio marcante no Sul do Brasil, no Uruguai e na Argentina. No mesmo ano, o planeta teve o terceiro ano mais quente da série.
O que é uma normal climatológica
Para separar tempo de clima, a meteorologia usa médias de 30 anos, as normais climatológicas. O Inmet publica tabelas para 1961-1990, 1981-2010 e 1991-2020, estação por estação, com temperatura média, máxima e mínima, chuva, umidade, vento e outros dados.
Em 30 anos, verões muito quentes e invernos muito frios se compensam na média. Por isso, quando a média de um período inteiro sobe, não foi um ano atípico: o patamar mudou.
Quanto a temperatura mínima subiu no Brasil
A mínima é a temperatura mais baixa do dia, que em geral ocorre à noite ou de madrugada. Entre 1961-1990 e 1991-2020, a média anual da mínima subiu em 118 das 126 estações com dado nos dois períodos. Ficou igual em 2 e caiu em 6.
A alta média foi de 0,77 °C, e a mediana, de 0,7 °C. Parece pouco, mas é a média de um ano inteiro, com dias de verão e de inverno, ao longo de três décadas. Para a média subir quase um grau, muitas noites precisam ter ficado mais quentes.
As capitais onde as noites mais esquentaram
Entre as capitais com dado nos dois períodos, Rio Branco lidera: a mínima média anual passou de 19,8 °C para 21,4 °C. Depois vem João Pessoa, de 22,5 °C para 23,9 °C. Belo Horizonte foi de 16,7 °C para 18 °C, e Curitiba, de 12,5 °C para 13,8 °C.
Belém subiu 1 °C, de 22,1 °C para 23,1 °C. Brasília, Goiânia e São Paulo, na estação do Mirante de Santana, subiram 0,9 °C. Em Manaus e em Natal, a alta foi de 0,7 °C.
No interior, altas maiores
As maiores altas ficaram fora das capitais. Em Conceição do Araguaia, no Pará, a mínima média anual subiu de 19,8 °C para 22,4 °C, alta de 2,6 °C. Alagoinhas, na Bahia, subiu 1,9 °C, e Santa Rita de Cássia, também na Bahia, 1,8 °C. Itacoatiara (AM), Carolina (MA), Pelotas (RS) e Franca (SP) subiram 1,6 °C.
Uma alta tão grande em uma só estação pede cuidado. Pode ser clima, mas também pode ser mudança no local do aparelho ou no entorno, como mata derrubada ou bairro novo em volta. As tabelas das normais não dizem qual foi o caso.
Onde quase nada mudou
Nem toda estação esquentou. Em Salvador, na estação de Ondina, e em Caravelas (BA), a mínima ficou igual. Em Aracaju, caiu 0,1 °C. Sobral (CE), Uruguaiana (RS), Lençóis (BA), Bom Jesus (RS) e Rio Grande (RS) também tiveram queda, que chegou a 0,8 °C em Rio Grande.
Fortaleza, Porto Alegre e Florianópolis subiram pouco, entre 0,1 °C e 0,3 °C. As exceções existem, mas são minoria: 6 quedas contra 118 altas.
E as máximas, também subiram?
Sim. Na temperatura máxima, a comparação vale para 115 estações com média anual nos dois períodos. A máxima subiu em 108, ficou igual em 2 e caiu em 5. A alta média da máxima foi de 0,81 °C, parecida com a da mínima.
O planeta segue na mesma direção
O relatório Global Climate Highlights 2025, do Copernicus, o serviço de clima da União Europeia, aponta 2025 como o terceiro ano mais quente da série: 0,59 °C acima da média de 1991-2020 e 1,47 °C acima do nível pré-industrial.
A média de 2023 a 2025 passou de 1,5 °C acima do pré-industrial, a primeira média de três anos a fazer isso desde o início das medições com instrumentos. Os 11 anos de 2015 a 2025 são os 11 mais quentes já medidos.
O relatório também calcula que o ritmo de aquecimento de fundo acelerou de 0,18 °C por década, no meio do período 1979-2008, para 0,25 °C por década no fim de 2025.
Onde a conta das normais tem limite
As normais são médias, não extremos. Elas não dizem quantas noites passaram de certo valor nem se as ondas de calor ficaram mais longas. Para isso, seria preciso olhar a série diária de cada estação.
Em 60 anos, uma estação pode ter mudado de lugar, de equipamento ou de vizinhança, e as tabelas não trazem esse histórico. O crescimento da cidade em volta do aparelho, a chamada ilha de calor urbana, também pode subir a mínima por conta própria.
Ainda assim, o sinal aparece na grande maioria das estações e bate com o aquecimento medido no planeta.
Para entender os alertas do dia a dia, veja a regra que o Inmet usa para onda de calor, o que significam os avisos coloridos do Inmet e o El Niño que pode ser o mais forte desde 1950.
Perguntas rápidas
Um dia muito quente prova o aquecimento global?
Não. Um dia é tempo, não clima. O clima se mede em médias de 30 anos, as normais climatológicas. O que pesa é a média de décadas subir, como aconteceu com a mínima em 118 de 126 estações do Inmet.
O que é normal climatológica?
É a média de 30 anos de dados de uma estação, como temperatura, chuva e umidade. O Inmet publica normais para 1961-1990, 1981-2010 e 1991-2020.
Qual capital teve a maior alta da temperatura mínima?
Entre as capitais com dado nos dois períodos, Rio Branco: a mínima média anual passou de 19,8 °C, em 1961-1990, para 21,4 °C, em 1991-2020.
Um inverno frio desmente o aquecimento?
Não. Em 2025, o leste da América do Sul ficou mais frio que a média e o Sul do Brasil teve frio marcante, e mesmo assim o planeta teve o terceiro ano mais quente da série, segundo o Copernicus.



