Animais e natureza

Nova espécie de espinossauro achada no meio do Saara tinha uma crista em forma de sabre mais alta que o próprio crânio e caçava peixes em rios a centenas de quilômetros do mar, descreve estudo na Science

O Spinosaurus mirabilis viveu há cerca de 95 milhões de anos no atual Níger, perto de rios e de dinossauros de pescoço longo. O estudo também conta como o grupo terminou só na África e na América do Sul, e põe três parentes brasileiros na mesma árvore.

Ilustração de espinossauro com crista alta em forma de sabre sobre a cabeça, segurando um peixe celacanto na boca, contra o céu nublado

Reconstrução artística do Spinosaurus mirabilis com um celacanto na boca. Ilustração: Dani Navarro/Divulgação Universidade de Chicago.

O Spinosaurus mirabilis é uma nova espécie de espinossauro achada no Saara, no Níger. Sua crista óssea em forma de sabre era, em proporção, mais alta que a de qualquer outro dinossauro não aviano conhecido.

A descrição saiu em 19 de fevereiro de 2026 na revista Science. A equipe de 20 pessoas foi liderada por Paul Sereno, professor de biologia e anatomia de organismos da Universidade de Chicago, que divulgou a descoberta no mesmo dia. Segundo a universidade, é a primeira espécie nova de Spinosaurus em mais de um século.

Como a crista apareceu no deserto

A primeira crista e pedaços de mandíbula foram recolhidos na superfície do deserto em novembro de 2019. A peça era tão inesperada que a equipe não entendeu de cara o que tinha nas mãos. Em 2022, um grupo maior voltou ao local, achou mais duas cristas e percebeu que era uma espécie nova.

O exemplar principal foi achado em Sirig Taghat, que no idioma tamaxeque quer dizer "sem água, sem cabra", na área de Jenguebi, região de Agadez. Ele está catalogado no Museu Nacional Boubou Hama, em Niamey, capital do Níger.

Cristas fósseis do espinossauro, em forma de lâmina curva, colocadas sobre a areia do deserto
Cristas fósseis de Spinosaurus mirabilis, entre os primeiros achados da equipe na área de Jenguebi, no Níger. Foto: Daniel Vidal/Divulgação Universidade de Chicago.

Uma pista perdida havia 70 anos

Nos anos 1950, o geólogo francês H. Faure achou dentes em forma de sabre num ponto isolado do deserto chamado Akarazeras. Ninguém voltou lá, e os dentes se perderam. Quase 70 anos depois, a equipe reencontrou Akarazeras e, avançando mais pelo mar de areia, chegou a Jenguebi.

"Ninguém tinha voltado àquele sítio de dentes em mais de 70 anos", disse Sereno. Segundo a universidade, um morador tuaregue levou o grupo de moto até o centro do Saara, onde ele tinha visto ossos enormes.

Uma crista mais alta que o crânio

A crista do Spinosaurus mirabilis passava da altura do resto do crânio na linha dos olhos. Se o animal chegasse ao tamanho do Spinosaurus aegyptiacus, o parente famoso do Egito, a crista óssea teria uns 40 centímetros e talvez mais de 50 centímetros em vida, com a capa de queratina.

As três cristas encontradas são tortas para um dos lados, e a do exemplar principal é a mais desviada. Pela textura e pelos canais de vasos sanguíneos, a equipe acredita que a crista era coberta de queratina e tinha cores fortes. A comparação dos autores é com a galinha-d'angola, que tem um capacete parecido.

Pra que servia a crista

Para os autores, a função mais provável era de exibição visual, como acontece com a galinha-d'angola e outras aves com crista. É uma interpretação feita a partir de parentes vivos, e não algo que os fósseis mostram diretamente.

Qual era o tamanho do novo espinossauro

O exemplar principal ainda era jovem. Os autores estimam cerca de 8 metros de comprimento para ele. Ele é uns 15% menor que o esqueleto jovem de referência do Spinosaurus aegyptiacus e tem cerca de 61% do tamanho do maior exemplar conhecido da espécie egípcia.

Longe do mar, perto dos rios

Até agora, os ossos e dentes de espinossaurídeos vinham sobretudo de rochas formadas em costas marinhas. Os animais de Jenguebi viviam de 500 a 1.000 quilômetros da costa mais próxima, numa região de floresta cortada por rios, segundo a universidade.

Perto do Spinosaurus mirabilis apareceram esqueletos de dois saurópodes, os dinossauros de pescoço longo, ainda sem nome. No mesmo lugar havia fósseis de Carcharodontosaurus, um grande predador, e o crânio de um peixe grande da família dos bichires.

A garça do inferno

Uma velha discussão divide os especialistas: o espinossauro caçava na beira da água, como uma garça, ou mergulhava atrás das presas? Na análise das proporções do corpo, os espinossaurídeos ficaram entre as garças e as aves mergulhadoras, longe de todos os outros dinossauros predadores.

"Imagino esse dinossauro como uma espécie de garça do inferno, que não tinha problema em entrar com suas pernas fortes em dois metros de água", disse Sereno. Para ele, o animal passava a maior parte do tempo em águas mais rasas, à espreita dos peixes grandes da época.

Os dentes de cima e de baixo se encaixavam, uma armadilha para peixes escorregadios. Para os autores, o Spinosaurus mirabilis caçava de tocaia, na água rasa. Como ele é muito parecido com o Spinosaurus aegyptiacus, o estudo conclui que é improvável que o parente egípcio fosse um caçador mergulhador.

As três fases dos espinossaurídeos

A árvore da família feita pela equipe mostra três fases. Na primeira, no Jurássico, surgiu o focinho longo de pegar peixe. Na segunda, de 20 milhões de anos no começo do Cretáceo, o grupo se espalhou pela beira do antigo mar de Tétis e reinou entre os predadores.

A fase final durou 15 milhões de anos. Os espinossauros dessa fase só sobreviveram na América do Sul e na África, que por volta de 110 milhões de anos atrás já estavam separadas por um braço de mar com mais de 500 metros de profundidade.

Os parentes do espinossauro no Brasil

O Brasil tem peso nessa última fase. O representante mais antigo é um gênero ainda sem nome da Bacia do Parnaíba, segundo o estudo. A árvore da família inclui ainda um espinossaurino brasileiro catalogado como UFMA ITA1, um esqueleto parcial em estudo na Universidade Federal do Maranhão, em São Luís.

O Oxalaia quilombensis, achado na ilha do Cajual, no litoral brasileiro, é conhecido pela ponta do focinho e por dentes e ossos soltos. O Irritator challengeri, da Bacia do Araripe, foi usado pela equipe para completar a parte de trás do crânio e da mandíbula na reconstrução do Spinosaurus mirabilis.

O fim do grupo

Há cerca de 95 milhões de anos, no fim do período chamado Cenomaniano, uma subida brusca do nível do mar e a mudança de clima que veio junto encerraram a história dos espinossaurídeos, segundo os autores.

Os limites da descoberta

Todos os exemplares conhecidos do Spinosaurus mirabilis eram jovens, e por isso o tamanho do adulto segue incerto. A equipe tem só três cristas, e as medidas da crista adulta são uma projeção feita a partir do parente egípcio. A cor da crista também é uma dedução, não algo preservado no fóssil.

Do deserto para o museu

"Essa descoberta foi tão repentina e incrível que emocionou de verdade a nossa equipe", disse Sereno. Ele lembra o momento em que todos viram o crânio montado num notebook, a partir de modelos 3D feitos com energia solar no meio do Saara.

Com base no crânio digital montado pela equipe, o paleoartista Dani Navarro, de Madri, criou a cena de dois animais disputando a carcaça de um celacanto. Uma réplica do crânio e um modelo da crista foram para o Museu da Criança de Chicago a partir de 1º de março.

Mais sobre dinossauros no site: o Diplodocus achado na Espanha, as pegadas na França e o Dasosaurus do Maranhão.

Recriação pintada do crânio do espinossauro, à esquerda, e modelo colorido da crista coberta de queratina, à direita
Peças feitas para o Museu da Criança de Chicago: recriação pintada do crânio (à esquerda) e modelo da crista coberta de queratina (à direita). Foto: UChicago Fossil Lab/Divulgação.

Perguntas rápidas

O que é o Spinosaurus mirabilis?

É uma nova espécie de espinossauro descrita em 19 de fevereiro de 2026 na revista Science. Os fósseis vêm da área de Jenguebi, no Níger, em rochas de cerca de 95 milhões de anos. O nome mirabilis quer dizer "surpreendente" em latim.

Qual era o tamanho do Spinosaurus mirabilis?

O exemplar principal ainda não era adulto e teria cerca de 8 metros de comprimento. Os autores dizem que o tamanho do adulto é incerto.

Para que servia a crista?

Os autores apontam como função mais provável a exibição visual, como nas galinhas-d'angola. A crista seria coberta de queratina e, segundo a equipe, provavelmente tinha cores fortes.

Há espinossauros no Brasil?

Sim. O estudo cita o Irritator, da Bacia do Araripe, o Oxalaia, da ilha do Cajual, e um espinossaurino ainda em estudo na Universidade Federal do Maranhão.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Animais e natureza →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.