O climatologista brasileiro Carlos Nobre recebeu em Nova York o Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 e repetiu o alerta: o desmatamento da Amazônia chegou a 18%, e o limite que ele calcula é 20%
O prêmio foi entregue em 23 de setembro, em Nova York. No discurso, Nobre pôs números no risco: passado o ponto, mais de 70% da floresta pode ser degradada em 30 a 50 anos. Entenda a conta e o que ela tem a ver com a chuva no resto do Brasil.
Carlos Nobre discursa na entrega do Prêmio Thomas E. Lovejoy, em Nova York, em 23 de setembro de 2026. Foto: Terria Clay/WCS, divulgação.
Faltam 2 pontos percentuais, pela conta da Redação com os dois números que Carlos Nobre deu: o desmatamento está em 18% da área da floresta amazônica, e o ponto de não retorno chega se passar de 20% e o aquecimento global chegar a 2 °C.
Nobre deu os dois números ao receber o Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026, em Nova York, em 23 de setembro. O 18% é o desmatamento de hoje, segundo ele; o 20% é o limite.
O ponto de não retorno é o limite a partir do qual a floresta deixaria de fabricar a própria chuva. Nobre foi um dos primeiros cientistas a estudar e modelar esse limite, na década de 1990, segundo o comunicado das organizações que deram o prêmio.
O Jornal da USP noticiou o prêmio em 29 de setembro. Nobre é professor do Instituto de Estudos Avançados da universidade.
O que Nobre disse ao receber o prêmio
A frase dele está no comunicado oficial da Wildlife Conservation Society, que tem versão em português.
“A floresta amazônica está muito próxima de um ponto de não retorno que pode degradar mais de 70% da floresta em um período de 30 a 50 anos.”
Na sequência, ele deu as duas condições. A primeira é o desmatamento passar de 20% da área total da floresta, que hoje, segundo ele, está em 18%. A segunda é o aquecimento global chegar a 2 °C. Nobre projeta que o planeta chega a 1,5 °C até 2030.
Ele também listou o que considera urgente. A lista começa por abandonar os combustíveis fósseis no mundo até 2040, zerar desmatamento, degradação e incêndios até 2030, restaurar floresta em grande escala, valorizar o conhecimento dos povos indígenas e das comunidades locais e criar uma economia da floresta em pé.
“Todos queremos salvar a Amazônia e o nosso planeta”, terminou.
Que prêmio é esse?
O Prêmio Thomas E. Lovejoy foi criado por cinco organizações de conservação: Conservation International, Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), The Nature Conservancy, Wildlife Conservation Society e WWF. O nome homenageia o biólogo americano Thomas Lovejoy, morto em 2021.
Lovejoy passou a vida estudando a Amazônia. O Jornal da USP lembra que ele criou a expressão “diversidade biológica”, em 1980.
Antes de Nobre, o prêmio foi para três pessoas: Belén Páez, do Equador, Marc Dourojeanni, do Peru, e Martín von Hildebrand, da Colômbia. Nobre é o quarto premiado e o primeiro brasileiro da lista.
O troféu não é uma estatueta. Nas fotos oficiais da cerimônia, o prêmio aparece como uma gravata-borboleta colorida, emoldurada num quadro com o nome de Nobre e o ano.
A dupla que fez a conta do limite
Nobre e Lovejoy trabalharam juntos por anos. No comunicado, o presidente do WWF nos Estados Unidos, Carter Roberts, diz que alguns dos trabalhos mais influentes de Nobre saíram dessa relação próxima.
Os dois assinaram juntos os textos que popularizaram o número de 20%. O primeiro, Amazon Tipping Point (ponto de virada da Amazônia), saiu em fevereiro de 2018 na revista Science Advances. O segundo, com o subtítulo “última chance para agir”, saiu na mesma revista em dezembro de 2019 (leia aqui).
O interesse de Nobre pelo tema é bem mais antigo. Em 1991, ele publicou com os pesquisadores Piers Sellers e Jagadish Shukla o estudo Amazonian Deforestation and Regional Climate Change (desmatamento da Amazônia e mudança do clima na região), no Journal of Climate.
Como a Amazônia faz a própria chuva?
A conta começa com uma descoberta brasileira dos anos 1970. O cientista Eneas Salati analisou a água da chuva coletada do Atlântico até a fronteira com o Peru.
Ele mostrou que a Amazônia gera cerca de metade da própria chuva, reciclando a umidade de 5 a 6 vezes enquanto o ar atravessa a bacia rumo ao oeste. Nobre e Lovejoy contam essa história no texto de 2018.
O mecanismo é simples. Quando chove na floresta, pelo menos 75% da umidade volta para o ar, pelas folhas e pela evaporação. Quando a área é desmatada, mais da metade da água da chuva escorre e não volta a subir, segundo o texto de 2019.
Menos floresta, então, significa menos chuva lá na frente. A pergunta que os cientistas se fazem desde então é quanta floresta pode sumir antes que o ciclo quebre.
Por que o limite caiu de 40% para 20%
O primeiro modelo feito para responder a essa pergunta saiu em 2007, com a participação de Nobre. Ele apontou que, com cerca de 40% de desmatamento, o centro, o sul e o leste da Amazônia teriam menos chuva e seca mais longa, e a floresta viraria savana no leste.
Depois entraram na conta dois fatores. O aquecimento global sozinho, sem desmatamento, levaria a floresta a esse ponto com 4 °C a mais, segundo vários estudos citados pelos dois. E o fogo usado para limpar a terra resseca a mata em volta e a deixa mais fácil de queimar no ano seguinte.
Somando desmatamento, aquecimento e fogo, Nobre e Lovejoy estimaram em 2018 que o ponto de não retorno fica entre 20% e 25% de desmatamento. Por isso eles defendem voltar para menos de 20%, criando uma margem de segurança. “Não faz sentido descobrir o ponto exato de virada virando”, escreveram, em tradução livre.
Os sinais que já apareceram
Para os dois cientistas, as secas fortes de 2005, 2010 e 2015-16 podem ter sido os primeiros sinais do limite. Eles apontam também que a estação seca no sul e no leste da Amazônia vem ficando mais longa há duas décadas.
Em 2019, o texto registrou que a estação seca já estava mais quente e mais longa e que o desmatamento chegava a 17% da bacia inteira e perto de 20% na parte brasileira.
Naquele ano, a fumaça das queimadas chegou a São Paulo e, misturada ao ar úmido do mar, escureceu a tarde a ponto de as luzes da rua serem acesas 3 horas mais cedo, lembram os autores. Aqui no site, a seca deste ano no Amazonas aparece na emergência de Maués e Tefé.
O que isso tem a ver com quem mora longe da floresta?
A umidade da Amazônia não fica na Amazônia. Segundo o texto de 2018, ela ajuda a formar a chuva de inverno em partes da bacia do Prata: sul do Paraguai, Sul do Brasil, Uruguai e centro-leste da Argentina.
No Sudeste a parte é menor, mas os autores dizem que até uma quantidade pequena ajuda a encher os reservatórios das cidades. O texto de 2019 vai além: todos os países da América do Sul, menos o Chile, que fica atrás dos Andes, se beneficiam dessa umidade.
Também pesa na lavoura ao sul da floresta. A mata transpira o ano inteiro, e o pasto transpira muito menos na seca. Por isso os modelos indicam uma estação seca mais longa depois do desmatamento.
Quem é Carlos Nobre
Formado em engenharia eletrônica, o cientista fez doutorado em meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), segundo o Jornal da USP. Começou como pesquisador no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e trabalhou 30 anos no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde se aposentou em 2012.
No caminho, fundou o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), o Centro de Ciência do Sistema Terrestre e o Cemaden, o centro nacional de alertas de desastres naturais. Também ajudou a desenhar o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) e presidiu a Capes.
O climatologista fez parte do IPCC, o painel do clima da ONU, que dividiu o Nobel da Paz de 2007 com Al Gore.
Ele é membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Segundo o comunicado do prêmio, foi o primeiro cientista brasileiro em mais de um século eleito para a Royal Society, a academia de ciências britânica.
Hoje ele copreside o Painel Científico para a Amazônia e toca a iniciativa Amazônia 4.0, que busca gerar renda com a floresta em pé, junto com povos indígenas e comunidades locais.
Quer ver outro lado da mesma floresta e do mesmo país? Aqui no site tem os alertas de desmatamento no Cerrado em 2026 e por que o Brasil é campeão em orquídeas.
Perguntas rápidas
Quem é Carlos Nobre?
É um climatologista brasileiro que trabalhou 30 anos no Inpe e hoje é professor do Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi um dos primeiros cientistas a estudar o ponto de não retorno da Amazônia, na década de 1990.
O que é o ponto de não retorno da Amazônia?
É o limite a partir do qual a floresta perderia a capacidade de manter a própria chuva. Passado esse ponto, grandes áreas no sul, no leste e no centro da Amazônia virariam uma vegetação mais seca e pobre, parecida com savana.
Quanto da Amazônia já foi desmatado?
Carlos Nobre disse em 23 de setembro de 2026 que o desmatamento está em 18% da área total da floresta. Pelas contas dele, o ponto de não retorno chega se passar de 20% e o aquecimento global chegar a 2 °C.
Que prêmio Carlos Nobre ganhou?
O Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026, criado por cinco organizações de conservação em homenagem ao biólogo americano Thomas Lovejoy, morto em 2021. Nobre é o quarto premiado e o primeiro brasileiro.



