Animais e natureza

Um estudo com as dez pegadas de um dinossauro carnívoro em Plagne, na França, estimou que ele andava a 6,3 km/h e era menor que o dono das pegadas usadas como padrão da espécie

As marcas ficam no mesmo sítio do Jura francês que guarda uma trilha de saurópode de 155 metros, cujo dono andava a 4 km/h. Veja como a velocidade é calculada, o que as pegadas dizem sobre o tamanho do bicho e por que a classificação ainda deixa uma ponta solta.

Grandes pegadas arredondadas de dinossauro saurópode marcadas no calcário claro do sítio de Plagne, na França, algumas com água no fundo

Pegadas de saurópode no sítio de Plagne, no Jura francês, fotografadas em 2011. Foto: Mfrays/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Dez pegadas em fila deixadas por um dinossauro carnívoro em Plagne, na França, indicam que ele caminhava a cerca de 6,3 km/h. No mesmo sítio, um saurópode de pelo menos 35 metros passou a 4 km/h. As marcas têm cerca de 150 milhões de anos.

A conta do carnívoro está num estudo publicado em 25 de agosto de 2026 no Journal of Vertebrate Paleontology, assinado por Vincenzo Gesualdi, Matteo Belvedere e mais seis pesquisadores da Itália, da França, da Suíça e da Espanha. O artigo é aberto, e os modelos 3D das pegadas estão disponíveis para download.

O que as 10 pegadas mostram

A trilha, chamada PGN02, é a única de carnívoro do sítio. As pegadas têm três dedos, de 30 a 33 centímetros de comprimento, com marcas das almofadas dos dedos e das garras. A preservação recebeu a nota máxima na escala usada pelos autores.

Por que só dez das 18 pegadas entraram

A escavação original revelou 18 pegadas, mas oito ficaram fora do abrigo de proteção e foram cobertas para conservação. Por isso o estudo trabalhou com as dez que seguem expostas, fotografadas de perto para montar um modelo 3D da trilha inteira.

Pegada de três dedos de dinossauro carnívoro contornada com giz branco numa laje de calcário rachada, no sítio de Plagne
Pegada de terópode, o grupo dos dinossauros carnívoros, contornada com giz no sítio de Plagne, em 2011. Foto: Mfrays/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Como se chega aos 6,3 km/h

A velocidade não é medida, é estimada. Os autores usaram a fórmula de Alexander, de 1976, que relaciona o comprimento da passada com a altura do quadril do animal. A altura do quadril é calculada a partir do tamanho da pegada.

Na trilha de Plagne, a passada, a distância entre duas pegadas do mesmo pé, ficou entre 2,18 e 2,22 metros. Com esses números, a estimativa é de 6,3 km/h.

Um carnívoro menor que o padrão da espécie

O objetivo principal do estudo era dar nome à pegada. Em 2017, a equipe que descreveu o sítio a pôs só no grupo Megalosauripus. Agora, com comparação em 3D e análise de forma de 79 pegadas de vários tipos, os autores a atribuíram ao Megalosauripus transjuranicus, descrito na Suíça.

Seis das dez pegadas se sobrepuseram quase por completo à pegada-padrão desse tipo. A diferença está no tamanho: média de 31,6 centímetros em Plagne contra 42,5 na Suíça, e passada mais curta. Para os autores, o animal de Plagne era menor, talvez mais jovem.

Laje de calcário escavada em Plagne com várias pegadas grandes e redondas de saurópode, cercada por fita de isolamento
Área escavada em Plagne com pegadas de saurópode, o grupo dos dinossauros de pescoço longo. Foto: Mfrays/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

O vizinho de 35 metros que andava a 4 km/h

Plagne ficou famosa por outra trilha. Pegadas achadas em 2009 por dois membros da sociedade de naturalistas de Oyonnax fazem parte de uma sequência de 110 passos em 155 metros, que o CNRS apontou em 2017 como a mais longa trilha de saurópode do mundo.

As pegadas dos pés desse saurópode medem de 94 a 103 centímetros. Os cálculos descrevem um animal de pelo menos 35 metros e 35 a 40 toneladas, com passadas médias de 2,80 metros e velocidade de 4 km/h. Ele deu nome a um tipo novo de pegada, o Brontopodus plagnensis.

Um mar raso cheio de ilhas

Há cerca de 150 milhões de anos, Plagne ficava numa grande plataforma de calcário coberta por mar quente e raso, segundo o CNRS. A presença de dinossauros tão grandes indica que a região tinha muitas ilhas, com vegetação suficiente para alimentá-los.

Conforme o nível do mar subia e descia, essas ilhas se ligavam, o que permitiria aos animais migrar a partir das terras emersas do Maciço Renano. O artigo de 2026 descreve o mesmo cenário para o Jura, com corredores de terra que se abriam nas fases de mar baixo.

A ponta solta da classificação

A análise de forma, sozinha, não fechou o caso. Nela, as pegadas de Plagne ficaram entre o Megalosauripus transjuranicus e o Asianopodus wangi, tipo de pegada achado só no Cretáceo da China.

O desempate veio de um detalhe: a posição da quarta almofada do dedo IV, assimétrica em relação ao dedo do meio, como no tipo suíço.

A idade e o lugar das rochas também pesaram, já que o tipo suíço aparece no Jurássico da Suíça, da Espanha, de Portugal e do Marrocos. Os autores pedem mais estudos sobre o parentesco entre os dois tipos.

Outros fósseis no site: o crânio de 9,5 milímetros do Triássico gaúcho, o fóssil de 309 milhões de anos batizado em homenagem às mães e os primeiros vertebrados, que tinham quatro olhos.

Perguntas rápidas

Onde ficam as pegadas de dinossauro de Plagne?

No município de Plagne, no departamento de Ain, no Jura francês, perto de Lyon. O sítio é administrado pelo museu Dinoplagne, e a parte principal das pegadas fica sob um abrigo de proteção.

Qual dinossauro deixou as pegadas de carnívoro?

O estudo classifica a pegada, não o animal. A trilha foi posta no tipo Megalosauripus transjuranicus, um grupo de pegadas ligado a grandes terópodes do Jurássico, os dinossauros carnívoros que andavam sobre duas patas.

Como se calcula a velocidade de um dinossauro pela pegada?

Com uma fórmula proposta pelo zoólogo britânico Robert McNeill Alexander em 1976, que usa o comprimento da passada e a altura do quadril do animal. A altura do quadril, por sua vez, é estimada a partir do tamanho da pegada.

Quantos anos têm as pegadas de Plagne?

Cerca de 150 milhões de anos, segundo o CNRS. Elas são do Tithoniano, a última idade do período Jurássico, quando a região era uma plataforma de calcário coberta por mar quente e raso, com muitas ilhas.

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