Animais e natureza

Fósseis chineses de 518 milhões de anos indicam que os primeiros vertebrados tinham quatro olhos capazes de formar imagem, e não dois: o par extra virou, ao longo da evolução, a glândula pineal que hoje regula o sono

Pesquisadores da China e do Reino Unido acharam pigmento de retina e lente num segundo par de olhos, no alto da cabeça de peixes sem mandíbula do Cambriano. Veja as provas, a briga interna que quase mudou a conclusão e o réptil vivo que ainda guarda um resto desse olho.

Tuatara, réptil verde-oliva da Nova Zelândia, deitado na terra com a cabeça erguida; ele guarda o olho parietal, resto do segundo par dos primeiros vertebrados de quatro olhos

Tuatara no santuário Zealandia, em Wellington, na Nova Zelândia, em 2018. O ponto branco à direita é uma anilha de identificação. Foto: Judi Lapsley Miller, CC BY 4.0, Wikimedia Commons.

Os vertebrados mais antigos conhecidos, peixes sem mandíbula de cerca de 518 milhões de anos, provavelmente tinham quatro olhos que formavam imagem: os dois laterais e um par no alto da cabeça. É a conclusão de um estudo publicado na revista Nature em janeiro de 2026.

O artigo foi publicado na Nature por sete autores. Os líderes são Xu Xing, da Academia Chinesa de Ciências, e Cong Peiyun, da Universidade de Yunnan. Participaram Jakob Vinther, da Universidade de Bristol, e Sarah Gabbott, da Universidade de Leicester, no Reino Unido.

Quais animais tinham quatro olhos

São os mielocunmingídeos, pequenos peixes sem mandíbula da biota de Chengjiang, na província de Yunnan, no sul da China. Eles nadavam no mar durante a chamada explosão cambriana e são os vertebrados mais antigos que se conhecem em fóssil.

O grupo analisou fósseis de duas espécies. Uma é o Haikouichthys ercaicunensis; a outra ficou registrada no artigo só como mielocunmingídeo, sem nome de espécie.

Placa de rocha cinza com o fóssil de Haikouichthys, peixe sem mandíbula de Chengjiang, contornado a tinta e com etiquetas em chinês, em vitrine de museu
Fóssil de Haikouichthys ercaicunensis, uma das duas espécies analisadas no estudo, exposto no Museu Paleozoológico da China, em Pequim. Não é o exemplar do artigo. Foto: Morosaurus millenii, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

As duas provas: pigmento e lente

Entre os dois olhos laterais, os fósseis mostram duas manchas escuras. Dentro delas há melanossomos, as estruturas que fabricam e guardam melanina, idênticos aos do epitélio da retina dos olhos laterais. Só no Haikouichthys, a equipe mediu 549 deles nos olhos laterais e 250 nos olhos do alto da cabeça.

A assinatura química desses grãos bateu com a da melanina dos olhos de anfíbios vivos e não coincidiu com nenhuma fonte de contaminação testada, segundo a Universidade de Yunnan.

A segunda prova é uma estrutura oval e regular dentro de cada mancha. Pela forma, pelo tamanho e pela posição, os autores a interpretam como uma lente, igual às preservadas em olhos de outros vertebrados fósseis.

Pequena placa de rocha alaranjada com o fóssil de Myllokunmingia fengjiaoa sobre suporte de acrílico redondo, com etiqueta em chinês e inglês
Fóssil de Myllokunmingia fengjiaoa, o peixe que dá nome ao grupo dos mielocunmingídeos, no museu do sítio fossilífero de Chengjiang, em dezembro de 2025. Não é exemplar do estudo. Foto: Yumeto, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

A briga que quase mudou a conclusão

Os melanossomos foram achados em 2022 por Lei Xiangtong, um dos primeiros autores. Ele e o outro primeiro autor, Zhang Sihang, discordavam: as manchas seriam sacos nasais ou o complexo pineal? A equipe usou várias técnicas para testar as duas hipóteses.

O curioso é que ninguém procurava olhos. Segundo Cong Peiyun, o projeto começou para entender como o sistema nervoso se preserva em fósseis tão antigos. O segundo par de olhos apareceu por acaso.

Por que quatro olhos ajudavam

Cong lembra que os sentidos dos animais costumam evoluir sob pressão de predadores. Os mielocunmingídeos eram pequenos e não tinham defesa eficaz contra os grandes caçadores do Cambriano. Enxergar mais, e para cima, seria uma vantagem clara.

O terceiro olho virou glândula do sono

O par do alto da cabeça é o complexo pineal, que nasce no embrião da mesma região do cérebro que os olhos laterais. Ele já era chamado de "terceiro olho", mas, segundo o resumo do artigo, sua natureza nos primeiros vertebrados era desconhecida.

Zhang comparou o órgão ao longo da árvore dos vertebrados e viu uma especialização gradual: de órgão visual a glândula. Nos animais de hoje, inclusive em nós, a pineal regula o ritmo do dia e da noite e o sono.

O réptil que ainda tem o olho no alto da cabeça

Um resto desse sistema segue à vista. O tuatara, da Nova Zelândia, e muitos lagartos têm o olho parietal, derivado do complexo pineal, com lente e retina simplificada, segundo um estudo de 2025 sobre esse órgão. Ele fica numa abertura no topo do crânio.

A diferença está na imagem. O olho parietal dos répteis atuais não forma imagem; capta luz. Nos peixes de Chengjiang, segundo a nova análise, o par equivalente provavelmente formava.

O tuatara é o último sobrevivente de uma ordem de répteis que prosperou há cerca de 200 milhões de anos. Segundo o Departamento de Conservação da Nova Zelândia, hoje ele vive na natureza em só 32 ilhas e é classificado como em risco.

Os limites da conclusão

A conclusão é uma interpretação de fósseis achatados, e o próprio artigo fala que os olhos "provavelmente" funcionavam como câmeras. Ninguém viu esses animais enxergando. A nitidez da imagem que o segundo par formava segue em aberto.

Outros achados de fósseis e bichos curiosos no site: o fóssil de 309 milhões de anos batizado em homenagem às mães, a aranha-do-mar de olho vermelho e o peixe-elétrico de 860 volts da Amazônia.

Perguntas rápidas

Os primeiros vertebrados tinham quatro olhos?

É o que propõe o estudo publicado na Nature em janeiro de 2026. Em fósseis de cerca de 518 milhões de anos, os autores acharam, entre os dois olhos laterais, um segundo par com pigmento de retina e lente, que provavelmente formava imagem.

O que é o terceiro olho?

É o apelido do complexo pineal, que tem a mesma origem embrionária dos olhos. Em lagartos e no tuatara, ele aparece como olho parietal, no alto da cabeça, com lente e retina simplificada. Esse olho dos répteis atuais não forma imagem.

O ser humano tem terceiro olho?

Não como olho. Nos mamíferos, a estrutura virou a glândula pineal, dentro do crânio, que ajuda a regular o ritmo do dia e da noite e o sono. Segundo os autores, foi uma especialização gradual de órgão visual em glândula.

Onde vive o tuatara?

Só na Nova Zelândia. Segundo o Departamento de Conservação do país, ele é o último sobrevivente de uma ordem de répteis que prosperou há cerca de 200 milhões de anos e hoje vive na natureza em apenas 32 ilhas.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Animais e natureza →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.