Animais e natureza

O Cerrado teve 3.811 km² de alertas de desmatamento do DETER entre janeiro e agosto de 2026, queda de 7,4% frente ao mesmo período de 2025, mas com alta em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, segundo o INPE

O INPE monitora o Cerrado pelo DETER, sistema de alerta de desmatamento quase em tempo real. Um cálculo sobre os dados abertos da plataforma TerraBrasilis mostra queda geral na área desmatada em 2026, mas com alta forte em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, enquanto Piauí e Bahia puxaram a queda.

Imagem de satélite em falsa cor mostra, em rosa, área de desmatamento recente dentro do Cerrado, no Maranhão, detectada pelo alerta DETER Cerrado do INPE

Satélite CBERS-4 (falsa cor) mostra em rosa o desmatamento recente detectado pelo alerta DETER Cerrado em São Félix de Balsas (MA), no Matopiba, em junho de 2018 (imagem de arquivo, ilustrativa do método do INPE). Imagem: Coordenação-Geral de Observação da Terra/INPE via Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0. Capa recortada para 16:9.

O Cerrado registrou 3.811,12 km² em alertas de desmatamento do sistema DETER entre 1º de janeiro e 31 de agosto de 2026, segundo levantamento sobre os dados abertos do INPE. O total é 7,4% menor que os 4.115,57 km² do mesmo período de 2025.

O cálculo soma a área de cada alerta recortada pelo limite do município, por estado, e compara sempre o mesmo intervalo de datas nos dois anos. Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás tiveram alta na área desmatada, enquanto Piauí e Bahia registraram as maiores quedas.

A queda geral do desmatamento no Cerrado não é uniforme. O Piauí derrubou o alerta em mais da metade e a Bahia em um terço, enquanto Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás tiveram alta de dois dígitos na área apontada pelo DETER entre janeiro e agosto de 2026.

Os estados que mais desmataram o Cerrado até agora em 2026

Maranhão e Tocantins concentraram quase metade da área de alertas do Cerrado em 2026: 1.026 km² no Maranhão e 934 km² no Tocantins. Os dois estados também já lideravam o ranking em 2025.

O Piauí vem em seguida, com 420 km², mas é o estado que mais reduziu a área desmatada frente ao ano passado. Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais completam a lista dos cinco estados com mais alertas em 2026.

Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás lideram a alta do desmatamento

Minas Gerais teve o maior salto entre os estados com área relevante. A área foi de 211 km² para 297 km², alta de 40,6% na comparação com o mesmo período de 2025.

Mato Grosso subiu de 339 km² para 415 km², alta de 22,2%. Goiás passou de 80 km² para 136 km², a maior alta percentual entre os estados com área expressiva nos dois anos, de 69,6%.

Piauí e Bahia puxam a queda geral do desmatamento

O Piauí teve a maior queda entre todos os estados do Cerrado. A área foi de 882 km² em 2025 para 420 km² em 2026, recuo de 52,3%. A Bahia caiu de 561 km² para 371 km², queda de 33,9%.

Pará e Mato Grosso do Sul também reduziram a área desmatada no período, em ritmo mais discreto que Piauí e Bahia. Nenhuma fonte consultada explica sozinha por que a queda foi tão desigual entre estados vizinhos.

Gráfico de barras comparando a área de alertas de desmatamento do DETER no Cerrado por estado, entre janeiro e agosto de 2026 e o mesmo período de 2025
Área dos alertas de desmatamento do DETER no Cerrado, por estado, em jan-ago de 2026 contra jan-ago de 2025 (os sete estados com mais área no período; a lista completa está no texto). Arte: Watts & Wild, com dados do INPE (TerraBrasilis).

Os números batem com o total que o próprio INPE divulga

O total de cada ano soma a área de cada alerta recortada pelo limite do município, o mesmo critério usado no Dashboard de Avisos do TerraBrasilis para o bioma Cerrado. A diferença entre essa conta e o painel oficial do INPE ficou abaixo de 0,1% nos dois anos comparados.

O número de alertas também foi conferido: 17.267 em 2026 e 10.859 em 2025, iguais ao total que o próprio serviço de mapas do INPE devolve para o mesmo filtro de datas. A conta soma só a classe de desmatamento por corte raso, a única presente nessa camada do Cerrado.

O que é o DETER e por que ele não é a taxa oficial de desmatamento?

O DETER é um sistema de alerta rápido do INPE, criado para apontar áreas de desmatamento recente e orientar a fiscalização do Ibama e do ICMBio, com atualização quase diária a partir de imagens de satélite de resolução moderada.

Ele não é a taxa oficial de desmatamento do Brasil, medida pelo PRODES, que usa imagens de resolução mais fina, tem apuração anual e passa por checagem mais rigorosa antes de ser publicada. Os números do DETER também podem mudar quando o INPE revisa um alerta.

A fronteira agrícola do Matopiba explica boa parte do desmatamento

Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia formam o Matopiba, uma das principais fronteiras agrícolas do país nas últimas décadas. A soja avança sobre a vegetação nativa do Cerrado nessa região, como mostram imagens de satélite.

É justamente esse bloco de quatro estados que concentra a maior área de alertas do DETER em 2026, o que aponta para a mesma frente de expansão agrícola que já vem sendo registrada por satélite na região há anos.

Imagem de satélite mostra o padrão geométrico de lavouras avançando sobre a vegetação nativa do Cerrado na região do Matopiba, no oeste da Bahia
Imagem de satélite da Nasa (MODIS/Aqua, 1º de setembro de 2018) mostra o padrão de lavouras avançando sobre a vegetação nativa na fronteira oeste da Bahia, dentro do Matopiba, região que concentra hoje os alertas de desmatamento do Cerrado. Imagem: Nasa Earth Observatory, imagem de Lauren Dauphin, via Wikimedia Commons, domínio público. Recorte da imagem original, sem alteração do conteúdo.

Fogo caiu no Cerrado em 2026, mas o desmatamento seguiu outro ritmo

Os focos de calor do Cerrado caíram 23% em 2026 ante 2025, segundo levantamento sobre focos de calor no bioma, que apontou queda de 42% frente à média dos cinco anos anteriores. A área de desmatamento medida pelo DETER caiu bem menos no mesmo intervalo, só 7,4%.

Fogo e desmatamento são fenômenos diferentes: um queima vegetação já existente, muitas vezes por manejo ou acidente, e o outro remove a vegetação por completo, geralmente para abrir espaço a lavoura ou pasto. Os dois indicadores nem sempre se movem juntos.

O que a perda de vegetação nativa significa para a fauna do Cerrado?

Menos vegetação nativa reduz o habitat de espécies que já enfrentam outras ameaças no bioma. É o caso do lobo-guará, que depende do fruto da lobeira para se alimentar e espalhar a planta pelo Cerrado.

A perda de vegetação também pressiona o tamanduá-bandeira nas rodovias do Cerrado paulista, que passa a cruzar mais estradas em busca de alimento e território quando a mata nativa ao redor encolhe.

Paisagem do Cerrado na Chapada dos Veadeiros, com campo de vegetação rasteira, palmeiras e serra ao fundo, sob céu azul com nuvens
Paisagem de Cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO), em maio de 2018: o tipo de vegetação nativa que perde área para a agropecuária em boa parte do bioma (imagem de arquivo, ilustrativa do bioma). Foto: Gil df/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem original, sem recorte.

O que vem a seguir para o monitoramento do desmatamento no Cerrado

O INPE atualiza a base do DETER quase todos os dias, e o resultado consolidado de 2026 só fica completo com a divulgação da taxa anual do PRODES, esperada para os primeiros meses do ano seguinte.

Enquanto isso, a fiscalização do Ibama e do ICMBio usa esses alertas para agir ainda durante o desmatamento em curso, antes que a vegetação nativa desapareça por completo. Você já visitou alguma unidade de conservação do Cerrado? Conte nos comentários.

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