Ciência

Usinas eólicas e solares mudaram o uso da terra em municípios brasileiros, com cidades crescendo na Caatinga e lavouras avançando no Cerrado e perto dos parques de vento, mostra estudo com imagens de satélite

Em uma década, o Brasil passou a gerar energia do vento e do sol em grande escala, além das hidrelétricas e térmicas. Pesquisadores do Inpe e de universidades daqui e do Reino Unido mediram o que essas usinas fizeram com a paisagem ao redor, município por município, antes e depois da obra.

Aerogeradores do parque eólico Cutia entre a vegetação, ligados por estrada de terra, mudança no uso da terra no Rio Grande do Norte

Parque eólico Cutia, entre São Bento do Norte e Pedra Grande, no litoral do Rio Grande do Norte, em 2019. Foto: Copel, Wikimedia Commons, domínio público (CC0), recortada.

As usinas eólicas e solares mudaram o uso da terra nos municípios que as receberam. A chegada delas acompanhou a expansão urbana em cidades pequenas e médias da Caatinga e o avanço da agropecuária no Cerrado e em municípios com parques de vento, segundo estudo publicado em 25 de setembro na Regional Environmental Change.

A virada da matriz elétrica brasileira

Até pouco tempo atrás, a eletricidade brasileira vinha só de hidrelétricas e térmicas. Na última década, o país passou a produzir energia eólica e solar em grande escala, em sintonia com a pressão mundial para cortar a emissão de gases de efeito estufa.

O que é mudança no uso da terra

É quando um pedaço de chão troca de função ou de cobertura: mata que vira pasto, pasto que vira lavoura, roça que vira bairro. Os autores lembram que essas mudanças causadas pelas grandes usinas ainda precisavam ser avaliadas em detalhe na escala do município.

Satélite antes e depois da obra

A equipe usou dados de sensoriamento remoto, as imagens de satélite que o Inpe também usa para contar focos de calor, em mais de 120 municípios que ganharam usinas eólicas ou solares.

Mapa do Brasil com os municípios estudados pintados: roxo para usinas eólicas, laranja para solares e verde para os dois tipos, concentrados no Nordeste
Os municípios da pesquisa: roxo para eólica, laranja para solar e verde para os dois. Legenda original em inglês. Imagem: Poyer e outros, Regional Environmental Change, 2026, licença CC BY 4.0.

Repare no desenho. O roxo das eólicas se amontoa no litoral potiguar e no sertão da Bahia e do Piauí; o laranja das solares desce pelo interior baiano até Minas. No Sul, só umas poucas manchas roxas soltas.

As mudanças foram medidas antes e depois da instalação, para ver como a paisagem evoluiu com o tempo.

O uso da terra grupo por grupo

Grupo de municípiosO que mudou no uso da terra com as usinas
Pequenos e médios da CaatingaExpansão urbana ligada ao calendário das usinas
Do CerradoAvanço da agropecuária ligado ao calendário das usinas
Com parques eólicosAvanço da agropecuária ligado ao calendário das usinas
Agrupados por estadoSem resposta estatística significativa
Agrupados por situação econômicaSem resposta estatística significativa

Poyer e outros, Regional Environmental Change, 25/9/2026, com dados de sensoriamento remoto de mais de 120 municípios.

A ligação apareceu como correlação e também como causalidade estatística, sempre acompanhando o calendário de instalação das usinas, segundo os autores.

Dois gráficos, de Pedra Grande (RN) e de Juazeiro (BA), com a linha da área urbana subindo de 2000 a 2022 e barras da potência instalada das usinas aparecendo a partir de 2014 e de 2018
Área urbana (linha laranja, em hectares) e potência das usinas (barras, em MW) em Pedra Grande (RN) e Juazeiro (BA), de 2000 a 2022. Legenda original em inglês. Imagem: Poyer e outros, Regional Environmental Change, 2026, licença CC BY 4.0.

Onde o efeito não apareceu

Quando os municípios foram agrupados por estado ou por situação econômica, a análise não encontrou resposta estatística significativa. Ou seja, o recorte que importou foi o do bioma e o do tipo de projeto, e não a divisão por estado ou por renda.

Vento no litoral e no sertão

Aerogeradores enfileirados atrás das dunas na praia de Enxu Queimado, em Pedra Grande, no Rio Grande do Norte
Aerogeradores atrás da praia de Enxu Queimado, em Pedra Grande (RN), em julho de 2017. Foto: Andréa Luiza Tavares, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.

A foto acima e a da capa mostram dois parques do Rio Grande do Norte, um atrás da praia e outro no meio da vegetação. É no entorno de usinas assim que a pesquisa mediu a transformação da paisagem.

O Cerrado, um dos biomas onde a agropecuária avançou, também aparece nos alertas de desmatamento de 2026 e no fogo deste ano.

Inpe, UFRJ e Manchester

O trabalho reúne pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre eles estão Felipe Husadel Poyer, Polyanna da Conceição Bispo e Ênio Bueno Pereira.

O que os autores recomendam

Para os pesquisadores, o planejamento precisa nascer de baixo para cima, levando em conta a fragilidade ecológica e a realidade social de cada lugar, e não só métricas administrativas ou econômicas amplas. A meta é que a energia renovável apoie, e não prejudique, o desenvolvimento da região.

O que o estudo ainda não mostra

O mapa mostra onde ficam os municípios, mas o resumo publicado não diz quantos hectares mudaram em cada grupo. A ligação estatística com as usinas também não diz, sozinha, se a mudança foi boa ou ruim para quem mora perto.

Fontes: Poyer, Bispo, Borba, Cumplido, Leite-Filho, Lemes, Cunha, Lucena e Pereira, Land transformation driven by wind and solar development in Brazilian municipalities, Regional Environmental Change, 2026, doi:10.1007/s10113-026-02694-9.

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