O Cerrado teve 25.632 focos de calor entre 1º de janeiro e 23 de setembro de 2026, queda de 42% frente à média dos cinco anos anteriores, com Mato Grosso como único estado em alta, segundo o INPE
Um levantamento próprio do Watts & Wild sobre os dados abertos do INPE mostra que o Cerrado somou 25.632 focos de calor entre 1º de janeiro e 23 de setembro de 2026, o segundo total mais baixo da série desde 2021. A queda não foi igual em todos os estados: o Mato Grosso subiu.
Incêndio consome vegetação seca do Cerrado no Distrito Federal, em setembro de 2015, durante período de estiagem (imagem de arquivo, ilustrativa do tipo de foco medido pelo INPE). Foto: José Cruz/Agência Brasil via Wikimedia Commons, CC BY 3.0 BR. Capa recortada para 16:9, sem alteração do conteúdo.
O Cerrado somou 25.632 focos de calor detectados pelo satélite de referência do INPE entre 1º de janeiro e 23 de setembro de 2026. O número é 23% menor que o registrado no mesmo intervalo de 2025 e 42% abaixo da média dos cinco anos anteriores.
O levantamento é um cálculo próprio do Watts & Wild sobre a base de dados abertos do Programa Queimadas do INPE, feito com o satélite AQUA_M-T, usado oficialmente como referência para comparar anos diferentes. O resultado bate, foco a foco, com o painel público do instituto para o bioma.
O que ninguém tinha contado até agora: ao cruzar a base bruta do INPE por bioma e por estado, o Watts & Wild descobriu que a queda do fogo no Cerrado em 2026 não é generalizada. Dez estados reduziram os focos de calor, alguns em mais de 80%, mas o Mato Grosso teve alta de 16% no mesmo recorte.
O Cerrado tem o segundo ano mais fraco de fogo desde 2021
Entre os seis anos analisados, só 2023 teve menos fogo que 2026 no Cerrado, com 35.005 focos contra 25.632 neste ano. Depois do pico de 66.118 focos em 2024, o bioma vem em queda constante.
A comparação usa sempre o mesmo recorte, de 1º de janeiro a 23 de setembro, para não misturar ano fechado com ano em andamento. É a mesma regra que o próprio INPE aplica no seu painel público de estatísticas.
Os seis anos de focos de calor no Cerrado, ano a ano
Em 2021 o Cerrado somou 49.755 focos no mesmo intervalo, caiu para 39.026 em 2022 e para 35.005 em 2023. Em 2024 o número disparou para 66.118 focos, o maior da série, antes de recuar para 33.318 em 2025.
O gráfico abaixo mostra essa oscilação: alta forte em 2024, seguida de dois anos de queda seguidos, até o resultado parcial de 25.632 focos registrado neste ano de 2026.
Os estados do Cerrado onde o fogo mais caiu em 2026
No Paraná, os focos de calor no Cerrado caíram de 37 para 5, queda de 86%. Em São Paulo a redução foi de 63%, de 680 para 250 focos, e em Mato Grosso do Sul, de 48%, de 974 para 509.
Minas Gerais, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Piauí, Bahia e Tocantins também tiveram queda, em ritmos diferentes. Tocantins foi o mais estável entre os dez estados que reduziram: só 1% a menos que em 2025.
Por que o Mato Grosso foge da queda geral do Cerrado?
Enquanto os outros dez estados reduziram o fogo, o Mato Grosso somou 3.865 focos de calor no Cerrado até 23 de setembro de 2026, alta de 16% sobre os 3.335 registrados no mesmo período de 2025.
O estado é o único, entre os que tiveram foco no bioma nos dois anos, com o sinal invertido. O satélite detecta o calor do fogo, mas não atribui a causa a cada ocorrência, o que deixa em aberto o peso do manejo controlado, do clima local e da fiscalização.
O que o boletim de Mato Grosso do Sul já mostrava sobre o Cerrado
Um informativo do Centro Integrado de Controle Estadual de Emergências de Mato Grosso do Sul, divulgado em 18 de setembro de 2026 pelo Campo Grande News, já apontava queda de 61,8% na área queimada do Cerrado no estado, de 54.620 para 20.865 hectares.
O mesmo documento contou 378 ocorrências de fogo no Cerrado sul-mato-grossense em 2026, contra 597 no ano anterior, queda de 36,7%. A métrica é outra, hectares e ocorrências, não focos de satélite, mas aponta para a mesma direção encontrada aqui.
Foco de calor não é a mesma coisa que área queimada
O foco de calor é a detecção de uma fonte de calor pelo satélite, não a medida da área que pegou fogo. Um incêndio grande pode gerar vários focos ao longo de vários dias, e fumaça densa às vezes encobre focos reais.
Por isso a comparação usa sempre o mesmo satélite, o de referência AQUA_M-T, e o mesmo intervalo de datas em todos os anos, de 1º de janeiro a 23 de setembro, a mesma regra usada pelo próprio painel do INPE.
Como a conta bate com o painel oficial do INPE
Os seis totais anuais somados aqui, foco a foco, batem em cheio com a tabela pública do INPE para o bioma Cerrado no mesmo recorte: 49.755 em 2021, 39.026 em 2022, 35.005 em 2023, 66.118 em 2024, 33.318 em 2025 e 25.632 em 2026.
A diferença entre a nossa soma e o número oficial do instituto é zero em todos os seis anos, o que dá segurança para também abrir a conta por estado, um recorte que o painel público não mostra pronto.
O que esperar do Cerrado no resto da safra de fogo em 2026
A temporada de queimadas no Cerrado costuma seguir firme até outubro, mês historicamente mais seco antes da chegada das primeiras chuvas de primavera na maior parte do bioma.
Enquanto o Cerrado segue em queda, o Pantanal vizinho caminha na direção oposta em 2026. O mesmo boletim de Mato Grosso do Sul citado aqui já apontava alta de 179,7% na área queimada do bioma pantaneiro no estado, região onde brigadistas do ICMBio atuam diretamente no combate às chamas.
O que a queda do fogo pode significar para a fauna do Cerrado
Menos fogo entre janeiro e setembro tende a preservar mais vegetação nativa, um alívio para espécies que já enfrentam outras ameaças no bioma, como o tamanduá-bandeira, entre os animais mais atropelados nas rodovias do Cerrado paulista.
O lobo-guará também depende da saúde do Cerrado: a espécie come o fruto da lobeira, planta típica do bioma, e perde alimento quando o fogo destrói grandes trechos de vegetação nativa.
O Cerrado brasileiro segue sob monitoramento diário do INPE
O Programa Queimadas do INPE atualiza os focos de calor de cada bioma brasileiro todos os dias, com base nas passagens do satélite de referência sobre o território nacional.
Você mora numa área do Cerrado e percebeu diferença na fumaça ou no cheiro de queimada neste ano? Conte a sua experiência nos comentários.



