Um astrônomo amador planejava um acampamento no Quebec, viu um círculo estranho no mapa de satélite e levou cientistas a confirmar uma cratera de impacto de 25 quilômetros e cerca de 390 milhões de anos
Ele só queria um bom lugar para acampar. Olhando mapas de satélite do Quebec, no Canadá, Joël Lapointe achou um círculo perfeito demais para ser acaso. No ano seguinte, geólogos pisaram no lugar e confirmaram: era a marca de um asteroide que caiu há 390 milhões de anos.
A região da estrutura de Uhackatik, no Quebec, vista pelo satélite Landsat 8 em 12 de outubro de 2025. Imagem: NASA Earth Observatory/Lauren Dauphin, com dados Landsat do USGS.
A cratera de Uhackatik tem cerca de 25 quilômetros de diâmetro e se formou há uns 390 milhões de anos, no Quebec. Ela foi notada em 2024 por um astrônomo amador em mapas de satélite e confirmada em campo por geólogos em outubro de 2025.
Um círculo no mapa durante a busca por um acampamento
Em 2024, Joël Lapointe, de Shawinigan, no Quebec, preparava uma viagem de acampamento para a remota região da Côte-Nord. Olhando mapas de satélite on-line, ele reparou numa forma circular perto do lago Marsal, conta o NASA Earth Observatory.
Desconfiado de que a depressão fosse uma cratera, ele escreveu para especialistas na Europa e na América do Norte. A equipe do centro francês CEREGE agradece a ele, pelo nome, no resumo científico de 2024 que apresentou o lugar como candidato.
O que os cientistas viram antes de ir a campo
Segundo esse resumo, a depressão tem mais de 15 quilômetros de largura e um desnível médio de 200 a 300 metros entre o fundo e a borda. Um anel interno discreto, de uns 8 quilômetros, aparece nos mapas de relevo.
Com base em amostras do serviço geológico do Quebec, os pesquisadores escreveram que o lago Marsal parecia um candidato sério a ser a 11ª estrutura de impacto confirmada no Quebec. Faltava a prova no chão.
Uma expedição de hidroavião ao meio do mato
A expedição foi organizada pelo CEREGE em outubro de 2025. O geólogo Gordon Osinski, da Western University, no Canadá, e diretor do banco de dados Impact Earth, foi junto, embora no início estivesse cético, segundo a NASA.
Os pesquisadores chegaram de hidroavião, que não conseguiu encostar na margem: tiveram de atravessar 50 metros de água a pé, carregando o equipamento. Em terra, encontraram pântano, insetos e mato fechado. Osinski disse à NASA que foi um dos campos mais difíceis da sua carreira, feita em seis continentes.
A prova da cratera de impacto que se vê a olho nu
Os mapas geológicos antigos diziam que as rochas quebradas da área vinham de um diatrema, um tubo aberto por erupções explosivas de magma. Já no segundo dia, porém, a equipe achou shatter cones, ou cones de impacto, em vários afloramentos.
Essas rochas em forma de cone, com estrias, só se formam sob o choque de um impacto. "É a única evidência inequívoca de um evento de impacto que dá para ver no campo a olho nu", disse Osinski à NASA. No centro da estrutura, os cones chegam à escala de decímetros.
A rocha que derreteu com o choque
O resumo apresentado em 2026 à Sociedade Meteorítica, assinado por J. Gattacceca, Osinski e colegas, reinterpreta a antiga brecha da região como rocha derretida pelo impacto. Essa camada chega a 50 metros de espessura.
A 4 quilômetros a oeste do centro, ela forma um paredão de 25 metros de altura com colunas, as mesmas disjunções colunares que aparecem em alguns derrames de lava. Para os autores, a boa preservação dessa camada é um dos pontos que tornam o lugar notável.
Como a idade de 390 milhões de anos foi medida
A idade veio do magnetismo das rochas. Amostras orientadas da camada derretida guardam a direção do campo magnético da Terra no momento em que esfriaram, e essa direção bate com cerca de 390 milhões de anos, numa faixa de 370 a 400 milhões.
O campo estava invertido naquela época, com os polos magnéticos trocados em relação a hoje. Dados preliminares de grãos de zircão na mesma rocha apontam para algo entre 350 e 400 milhões de anos, o que reforça a conta.
O tamanho do estrago
O objeto que caiu abriu uma cratera complexa de 25 quilômetros, com um morro central soerguido e paredões altos. Se algo do mesmo tamanho caísse hoje no Quebec, causaria "uma devastação regional capaz de varrer grandes cidades e ter impacto no clima global", disse Osinski à NASA.
Segundo a NASA, é a maior cratera descoberta desde Hiawatha, de 31 quilômetros, encontrada em 2018 sob o gelo da Groenlândia. A Terra tem cerca de 200 estruturas de impacto confirmadas, e os geólogos estimam que centenas ainda estejam escondidas.
Uhackatik e a Serra da Cangalha, no Brasil
O Brasil também tem marcas assim. A NASA descreve a Serra da Cangalha, no norte do país, como a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil: cerca de 13 quilômetros de diâmetro, borda interna que sobe 420 metros e idade estimada em uns 220 milhões de anos.
Pela nossa conta, Uhackatik tem quase o dobro do diâmetro da Cangalha e cerca de 3,7 vezes a área. Também é uns 170 milhões de anos mais velha. Nas duas, a pista decisiva foi a mesma: shatter cones achados no chão.
O nome escolhido com o povo Innu
Depois de consultar o Conselho Innu de Ekuanitshit, a equipe batizou a cratera de Uhackatik, informa a NASA. O resumo de 2026 confirma que o nome saiu dessas conversas com o conselho indígena da região.
O que ainda falta para a confirmação formal
A equipe considera a cratera praticamente confirmada, mas o reconhecimento formal cabe a um comitê da Sociedade Meteorítica, que deve analisar o caso na próxima reunião, segundo a NASA. Até lá, Uhackatik fica fora das listas oficiais.
O resumo de 2026 deixa uma lição: uma cratera de 25 quilômetros ainda pode ser achada por qualquer pessoa com imagens de satélite abertas. Para ver outro achado sob o gelo, leia sobre os vales escondidos da Groenlândia, veja também a nova cratera na Lua e a Terra fotografada de perto pela sonda Juice.
Perguntas rápidas
Onde fica a cratera de Uhackatik?
Na região da Côte-Nord, no Quebec, no Canadá, com centro no lago Marsal, a 51,2 graus de latitude norte e 64,7 graus de longitude oeste.
Quem descobriu a cratera?
O astrônomo amador Joël Lapointe, de Shawinigan, no Quebec. Em 2024 ele notou o círculo em mapas de satélite e avisou especialistas, que organizaram a expedição de 2025.
Como os cientistas confirmaram que era uma cratera?
Encontraram shatter cones, rochas em forma de cone que só se formam no choque de um impacto, e reinterpretaram a brecha local como rocha derretida pelo impacto.
Qual a idade da cratera?
Cerca de 390 milhões de anos, segundo a direção magnética das rochas, com margem de 370 a 400 milhões de anos. Grãos de zircão apontam para algo entre 350 e 400 milhões.
O Brasil tem crateras de impacto?
Sim. A NASA destaca a Serra da Cangalha, no norte do país, com cerca de 13 quilômetros de diâmetro e uns 220 milhões de anos, como a cratera mais bem preservada do Brasil.



